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Editorial

De quem é a responsabilidade?

Em 2016, um estudo correlacional buscou investigar quais variáveis estariam relacionadas ao tempo entre submissão e aceitação de artigos publicados em 44 periódicos dos estratos mais altos do Qualis CAPES da área de Psicologia, totalizando 2580 artigos analisados. O estudo foi motivado pela inquietação dos autores com o processo de tramitação dos artigos. A partir da experiência prática de cada um/a, que indicava a demora na tramitação dos artigos, esses autores - colegas de doutorado, orientadora e eu, no caso - buscaram encontrar explicações. Achamos algumas!

Dentre os resultados, verificamos que o tempo médio entre a submissão e a aceitação de artigos era de 235,37 dias (DP = 192,95). As variáveis estrato Qualis, número de membros no corpo editorial e vinculação das revistas – se vinculadas a associações/conselhos ou revistas de universidades/faculdades – apresentaram relação com o tempo entre submissão e aceitação de artigos (ver mais em Hohendorff, DeSousa, Pereira, & Koller, 2016).

Passados dois anos, a demora na tramitação de artigos ainda me causa inquietação. Hoje, tento analisar a situação não somente como autor, mas como editor chefe de uma revista e editor associado de outra. É deste “lugar”, de editor, que venho me perguntando: “De quem é a responsabilidade?”, isto é, o que causa a demora na tramitação dos artigos?

Se eu fizer a pergunta título desse editorial para um/a autor/a, ele/a provavelmente responderá que a responsabilidade é dos editores e pareceristas, que deveriam dedicar mais tempo à tramitação dos artigos, agilizando o processo editorial para garantir publicações em menos tempo. No entanto, se eu fizer a pergunta a um/a editor/a, ele/a responderá que a maior agilidade na tramitação dos artigos depende dos autores e dos pareceristas. Aos autores cabe garantir que os artigos submetidos atendam às normas da revista e tenham a qualidade necessária à publicação, enquanto aos pareceristas cabe realizar as avaliações no devido prazo. Por fim, se eu fizer a pergunta a um/a parecerista, ele/ela dirá que a agilidade na tramitação depende da qualidade do artigo e das condições disponibilizadas pela revista. Talvez um fator que seja comum a todos os envolvidos na tramitação de artigos seja o tempo escasso para se dedicar às tarefas editoriais e de tramitação dos artigos, tendo em vista a quantidade de demandas acadêmicas que todos costumamos ter. Tais posicionamentos são facilmente encontrados em grupos do Facebook, tal como o “Avalie revistas científicas de psicologia”. Confere lá!

Resumo da ópera: não é possível indicar um/a pessoa ou fator responsável pela demora na tramitação de artigos. É preciso analisar a situação na sua complexidade e amplitude inerentes. Como editor, costumo dizer que a tramitação de um artigo é um processo que envolve um sistema com muitas engrenagens. Qualquer anomalia em uma das engrenagens, invariavelmente impactará as demais. Neste quase um ano como editor, posso indicar alguns fatores que fazem com que as engrenagens acabem funcionando de forma lentificada.

Quando o artigo é submetido, cabe ao/à editor/a analisar o material. A primeira análise que fazemos na Revista de Psicologia da IMED (RPI) é a das normas, ou seja, se o artigo atende às normas que estão claramente descritas no site da revista. Aqui a engrenagem pode começar a emperrar, pois muitos artigos costumam chegar (totalmente!) fora das normas. Alguns editores podem não realizar a análise inicial do artigo, conhecida como desk review, e enviar artigos sem condições mínimas de publicação aos pareceristas, sobrecarregando-os. Buscando uma solução para tal situação, incluímos, na RPI, uma primeira análise dos artigos baseada unicamente no atendimento das normas especificadas no website da revista. Desenvolvemos checklists específicos para essa análise e treinamos graduandos em Psicologia que, de forma voluntária, revisam os artigos submetidos quanto às normas. Assim, além de garantir que os artigos enviados aos pareceristas atendam a todos os aspectos formais necessários, buscamos formar recursos humanos qualificados para trabalho em periódicos científicos. Recentemente, os graduandos participaram de um workshop sobre a tramitação dos artigos para que tenham conhecimento de todo o fluxo. Infelizmente, até o momento, não recebemos nenhum artigo que atenda completamente às normas da revista. Sempre é necessário solicitar ajustes, resultando em tramitações mais demoradas.

Paralelo à análise dos artigos quanto às normas, o artigo é analisado pelo editor quanto à sua adesão ao foco e escopo da revista e ao rigor teórico e/ou metodológico expresso no artigo. Isso é possível porque a IMED, ciente da importância de se investir em periódicos científicos, inclui o trabalho como editor na carga horária de seus professores. Infelizmente, essa não é a realidade para a maioria. Além disso, nesta fase da tramitação também é perceptível o papel dos autores. Muitos artigos submetidos requerem ampla revisão quanto ao método, devido, principalmente, à ausência de informações necessárias (e.g., detalhamento dos procedimentos, indicação de instrumentos, cálculo amostral).

Quando os artigos são remetidos aos pareceristas, um e-mail de convite indicando os prazos para confirmar (ou não) disponibilidade de avaliação e para a sua conclusão é enviado. Infelizmente, não é incomum que os pareceristas não respeitem os prazos indicados. Sabemos que revisar um artigo é um trabalho “extra” e voluntário e que muitos pareceristas não têm disponibilidade para realizar tal tarefa quando solicitados pelos editores. Sendo assim, espera-se que os pareceristas prontamente respondam ao e-mail convite indicando sua indisponibilidade. Porém, não é raro que os editores fiquem sem resposta, lançando mão da insistência para saber se os pareceristas irão ou não realizar a revisão. Enquanto aguardam alguma resposta dos pareceristas, a tramitação do artigo é cessada e o resultado é a demora em enviar uma decisão aos autores.

O envio de uma decisão aos autores, além de requerer o trabalho dos pareceristas, requer o trabalho dos editores. Usualmente, cada artigo é avaliado por dois pareceristas. Cada parecerista envia sua avaliação, geralmente preenchendo e comentando um formulário. Cabe ao/à editor/a analisar os pareceres antes de enviar aos autores. Na RPI adotamos a prática de os editores sistematizarem os pareceres em carta única, a qual é enviada aos autores. Isso é feito, principalmente, por dois motivos: 1. Evitar que pareceres com avaliações e solicitações conflitantes cheguem aos autores - quando há muita discrepância entre as avaliações, um/a terceiro/a parecer pode ser necessário; 2. Ao sistematizar os pareceres e as solicitações em uma carta, o trabalho futuro do/a editor/a é facilitado, pois usará a carta como parâmetro para avaliação da versão revisada do artigo.

Após envio da carta aos autores, é necessário que os autores respeitem o prazo para ressubmissão, quando for o caso. A RPI dá o prazo de 30 dias para o envio do artigo revisado. É muito importante que os autores cumpram o prazo e, tão importante quanto, sigam as orientações atinentes à essa etapa – realizar as revisões e/ou justificar o que não foi revisto, enviando uma carta com detalhamento de todas as mudanças realizadas no artigo, bem como justificando o que não foi revisto.

Quando, finalmente, o artigo é aceito, se inicia o processo de diagramação do material para publicação. Na RPI contamos com um editor de layout – que merece ser citado aqui devido à sua competência e agilidade -, Wanduir R. Sausen, que faz todo o trabalho posterior ao aceite. Após diagramação do artigo, este é enviado aos autores para prova de layout. Mais uma vez, os autores têm prazo para revisar minuciosamente o material verificando se qualquer alteração na forma ou no conteúdo é necessária. Pequenos ajustes geralmente são necessários. Caso os autores ou o/a editor/a de layout não cumprirem os prazos, o tempo para publicação tende a ser maior. Por fim, a versão final do artigo entra para a fila de publicação. Tal fila pode ser maior ou menor a depender da revista. Geralmente, revistas mais bem colocadas no Qualis CAPES possuem filas maiores. Não é raro que alguns artigos sejam publicados vários meses após sua aceitação.

Tomadas em conjunto, as informações aqui compartilhadas indicam a complexidade do processo editorial de periódicos científicos. Diante de tal complexidade, torna-se difícil (ou impossível) responder à pergunta que abre esse editorial – “de quem é a responsabilidade?”. É certo que caberiam críticas ao modelo atual de tramitação de artigos adotado pela maioria das revistas científicas. Questões como a periodicidade das publicações e a falta de remuneração dos envolvidos diante da cobrança pelas publicações de algumas revistas são exemplos de aspectos que requerem revisão. No entanto, a discussão desses aspectos demandaria outro editorial. Assim, diante do atual sistema de tramitação de artigos, talvez a pergunta que deva ser respondida por cada um/a dos atores envolvidos não seja “de quem é a responsabilidade?”, mas sim “estou fazendo a minha parte?”.

Referência

Hohendorffi, J. V., DeSousa, D. A., Pereira, A. S., & Koller, S. H. (2016). Nas “filas de espera”: tempo entre submissão e aceitação de manuscritos em periódicos brasileiros de psicologia. Temas em Psicologia, 24(4), 1329-1341. doi: https://doi.org/10.9788/TP2016.4-08

DOI: https://doi.org/10.18256/2175-5027.2018.v10i1.2911

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Direitos autorais 2018 Jean Von Hohendorff

ISSN 2175-5027

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