2843

O idoso na mídia do Distrito Federal: perdas e ganhos no envelhecimento

The elderly in the Federal District media: losses and gains in aging

El anciano en los medios del Distrito Federal: pérdidas y ganancias en el envejecimiento

Luciene Souza Galeno(1); Isabelle Patriciá Freitas Soares Chariglione(2); Lucia Henriques Sallorenzo(3); Henrique Salmazo da Silva(4)

1 Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasil.
E-mail: lucienegaleno@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3541-5519

2 Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasil.
E-mail: ichariglione@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8627-3736

3 Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasil.
E-mail: lucia.sallorenzo@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4327-2949

4 Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasil.
E-mail: henriquesalmazo@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3888-4214

Resumo

A mídia oferece o retrato social de como a velhice é abordada, assumindo papéis que variam em função dos interesses, embates e dilemas sociais. O objetivo deste estudo foi identificar como a mídia jornalística do Distrito Federal (DF) representa o idoso e as perdas e ganhos no envelhecimento. Para isso foram analisadas 59 matérias sobre a velhice veiculadas pelo Jornal Correio Braziliense entre outrubro/2017 a fevereiro/2018. A análise textual das matérias foi feita por meio de categorias e de nuvem de palavras utilizando-se o software IRAMUTEQ. Foram observadas quatro classes de palavras: Estudo (34,1%), Televisão (24,4%), Por-cento (22,57%) e Morar (18,8%). Dessas classes, a que mais representou o processo de perdas e ganhos no envelhecimento foi a classe “Estudo”. Na nuvem de palavras observaram-se relações de acréscimo e negação às classes investigadas. Em conjunto esses dados indicam que a representação do idoso no Distrito Federal é plural e foi permeada por assuntos relacionados a saúde, mídia, economia e moradia.

Palavras-chave: Mídia Audiovisual, Envelhecimento, Percepção Social

Abstract

The media offers the social picture of how old age is approached, assuming roles that vary according to social interests, clashes and dilemmas. The objective of this study was to identify how the journalistic media of the Federal District (DF) represents old age and the losses and gains in aging. For that, we analyzed 59 stories about old age published by the Correio Braziliense newspaper between October 2017 and February 2018. The textual analysis was done through the categories and word cloud using the IRAMUTEQ software. Four classes of words were found: Study (34.1%), Television (24.4%), Per-cent (22.7%), Living (18.8%). Of these classes, the one that most represented the process of losses and gains in the aging was the class “Study”. In the cloud of words, relations of addition and negation were verified in relation to the categories. Of these classes, the one that most represented the process of losses and gains in the aging was the class “Study”. Together these data indicate that the representation of the old age in the Federal District is plural and was related to health, media, economy and living.

Keywords: Video-Audio Media, Aging, Social Perception

Resumen

Los medios de comunicación ofrecen el retrato social de cómo se aborda la vejez, asumiendo papeles que varían en función de los intereses, embates y dilemas sociales. El objetivo de este estudio fue identificar cómo los medios periodísticos del Distrito Federal (DF) representan el anciano y las pérdidas y ganancias en el envejecimiento. Para ello se analizaron 59 materias sobre la vejez vehiculadas por el Diario Correio Braziliense entre el oct / 2017 a febrero / 2018. El análisis textual de las materias fue hecho por medio de la creación de categorías y de nube de palabras utilizando el software IRAMUTEQ. Se observaron cuatro clases de palabras: Estudio (34,1%), Televisión (24,4%), Por-ciento (22,7%) y Morar (18,8%). De estas clases, la que más representó el proceso de pérdidas y ganancias en el envejecimiento fue la clase “Estudio”. En la nube de palabras se observaron relaciones de acrecimiento y negación a las clases investigadas. En conjunto estos datos indican que la representación del anciano en el Distrito Federal es plural y fue impregnada por asuntos relacionados con la salud, los medios de comunicación, la economía y la vivienda.

Palabras clave: Medios Audiovisuales, Envejecimiento, Percepción Social

Introdução

O aumento da longevidade humana caracteriza-se como o grande desafio do século XXI. Em 2010, a população com 80 anos e mais era composta por 2,9 milhões de pessoas e projeções indicam que em 2050 será composta por 13,3 milhões de habitantes, o que representará 6,5% da população total e 19,6% da população idosa brasileira (Camarano, Kanso, & Fernandes, 2016). Neste mesmo ano estima-se que ¼ da população mundial, ou cerca de dois bilhões de habitantes, será composta por pessoas idosas e que grande parcela, ou ¾ terão algum tipo de doença crônico-degenerativa que demandarão cuidados complexos de saúde (Yasobant, 2018).

Essas estatísticas impactarão o cenário econômico, político, social, familiar e na oferta de bens e serviços. Isso porque o envelhecer é um processo complexo, multifacetado e dinâmico, que se acentua após a maturidade sexual e se subscreve ao longo do desenvolvimento humano, culminando na velhice. A velhice, por sua vez, é a última fase do ciclo vital e remete a um conjunto de experiências e vivências que variam em função da classe social, cultura, gênero, etnia e processos sóciohistóricos (Lima, Salmazo-Silva, & Galhardoni, 2008). Contudo, é importante destacar que cada indivíduo percebe seu envelhecimento de forma particular, ancorado em suas vivências, crenças e valores. Dessa forma, existem trajetórias de envelhecimento e velhice que variam em função da forma como cada indivíduo se percebe e é percebido nesse processo (Mosqueira & Stobäus, 2012; Ramos, 2012). O conjunto dessas representações é revestido de significados que impactam diferentes setores da vida social, como a saúde pública, a economia, o mercado, as relações sócio-familiares, a capacidade laboral, e as desigualdades nas relações e na prática na dinâmica de correlações de forças, (Faleiros, 2016).

Dessa forma, o desafio do envelhecimento para a pessoa idosa compreende uma adaptação a essa “nova” condição social (Jacques et al., 2013). Se por um lado envelhecer é uma conquista social, por outro implica em adaptações, ajustes e regulação das perdas. Em seus diversos estudos sobre o envelhecimento humano Baltes e Smith (2006) concluem: “nós propomos que é necessário reconhecer as duas faces do envelhecimento humano: os ganhos e as perdas” (p. 9), sendo estes revestidos por processos de adaptação, otimização das capacidades funcionais e regulação das perdas observadas na velhice.

Embora a velhice seja heterogênea e individual, as perdas a esta fase da vida incluem: diminuição da capacidade funcional; isolamento social e redução dos contatos sociais; perda de familiares e amigos; redução da funcionalidade; e a maior probabilidade de viver eventos não-normativos, exigindo maior adaptação (Ribeiro et al., 2015; Freitas, Queiroz, & Sousa, 2010). Paralelamente a essas perdas somam-se mudanças sociais que podem moderá-las, como a redução da renda ou dificuldade de prover a manutenção financeira, carência de programas sociais voltados para a pessoa idosa e negligência do Estado. Por outro lado, a longevidade traz ganhos significativos, como o tempo livre, mais autonomia sobre si, a geratividade, participar de atividades ou projetos que antes não eram possíveis, consolidar saberes e experiências.

Nesse âmbito as representações sociais da pessoa idosa difundem o conjunto de perdas e ganhos da velhice e são meios efetivos de disseminar padrões e perspectivas sobre o envelhecimento. Como a sociedade e a pessoa idosa se apropria dessas representações perpassa dimensões individuais, relativas ao sujeito que envelhece; e sociais ancoradas pelo cenário político, sócio histórico e cultural. Entre essas dimensões a mídia oferece o retrato social de como a velhice é abordada, assumindo papéis que variam em função dos interesses, embates e dilemas sociais. Nessa perspectiva o velho pode ser tratado como um mercado de consumo e ou um problema social (Souza et al., 2002), sendo este “visto de modo negativo, mantendo e reproduzindo a ideia de que o valor de uma pessoa está no quanto ela produz e ganha” (Félix & Santos, 2011, p. 371).

São abordadas, nesse sentido, as políticas públicas e as desigualdades sociais, mobilizando o engajamento de setores acadêmicos e da sociedade para sanar problemas associados ao envelhecimento. Insere-se neste caso a morte dos idosos da Clínica Santa Genoveva em 1996 e o posterior engajamento da comunidade científica, cursando com deliberativas técnicas sobre os cuidados de idosos em Instituições de Longa Permanência na década entre 2000 a 2010 (Sousa et al., 2002). Datam, após esse período, a promulgação do Estatuto do Idoso em 2003 e da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa em 2006. Portanto, revela-se a responsabilidade social da mídia jornalística e o seu papel como difusora de opiniões e concepções sobre a velhice.

Ademais, a população idosa também é representada na mídia jornalística com características ativas, produtiva e consumidora de bens e serviços. Para Machado et al. (2014) “essa nova percepção do perfil dos idosos; a mídia cria e expõe, sem dúvida, um compromisso com a imagem esteticamente mais jovial e vigorosa da velhice, impulsionando o consumo e tornando esse público mais potente” (p. 2). Nesse sentido, o envelhecimento assume percepções vinculadas ao envelhecimento ativo e a imagem do idoso que busca atividade física, saúde, lazer e melhor qualidade de vida, em que os ganhos e os aspectos positivos do envelhecimento são ressaltados (Griebler & Gonçalves, 2014). Outras possibilidades de representação ancoram-se nos estudos, pesquisas e intervenções de saúde, de forma a orientar, refletir e propor práticas mais saudáveis de saúde.

Assim, compreender como o idoso vem sendo representado pela mídia pode ajudar a mapear intervenções educacionais e a levantar discussões sobre o papel da mídia na vida social, na construção dos estereótipos e visões acerca do envelhecer. Nesse sentido o objetivo desse estudo foi identificar como a mídia jornalística do Distrito Federal (DF) representa o idoso e as perdas e ganhos no envelhecimento.

Método

Participantes

Foram analisadas todas as matérias publicadas no Jornal Correio Braziliense, que possuíam referência à “velhice”, veiculadas de outubro de 2017 a fevereiro de 2018. Foi escolhido esse período por ser o mais próximo e por possibilitar o acesso a matérias mais atualizadas sobre a temática.

Procedimentos

Para a coleta das matérias utilizou-se como fonte dos dados o site do Correio Braziliense. Após empregar as palavras-chave “velho”, “velha”, “velhos”, “velhas”, “idoso”, “idosos”, “idosa”, “idosas”, “velhice”, “envelhecimento” e “terceira idade”; as matérias foram separadas segundo o título, lidas pela pesquisadora principal e copiadas para um arquivo em Word com o seu conteúdo na íntegra para posterior julgamento.

Para seleção das matérias utilizou-se como critérios: a) difundir a velhice ou o envelhecimento como tema principal e b) estar publicada no período de interesse, independente do caderno temático em que foi veiculada. Foram excluídas matérias que abordavam esse tema tangencialmente, como por exemplo: citação da palavra velho, idoso ou velhice para tratar de um relato, depoimento ou citação que faziam referência a temas como meio ambiente e segurança. Conforme descrito no Quadro 01, ao todo foram encontradas 1.119 matérias. Após leitura e julgamento, foram selecionadas 59 matérias.

Tabela 1. Busca das Categorias no Período de 01/10/2017 a 28/02/2018

Palavras-chave de busca N

Relacionadas N

Não Relacionadas N

1-Velho

297

12

285

2-Velha

187

5

182

3-Velhos

112

2

110

4-Velhas

63

2

61

5-Idoso

70

8

62

6-Idosa

27

4

23

7-Idosos

222

14

208

8-Idosas

15

2

13

9-Velhice

17

4

13

10-Envelhecimento

53

5

48

11-Terceira Idade

56

1

55

Total

1.119

59

1.060

Legenda: N – Números.

Análise de dados

O corpus textual de todas as matérias foi unificado e para tratamento dos dados foi escolhido o software IRAMUTEQ. O IRAMUTEQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires) analisa os conteúdos textuais organizando e sumarizando as informações consideradas significativas em um dendrograma, produto de uma classificação hierárquica descendente dos grupos de palavras. A partir dessa análise foram geradas categorias de palavras que possuíram mais afinidade entre si e a nuvem de palavras, evidenciando o corpus lexical mais prevalente nas matérias e possíveis relações entre as palavras.

Resultados

Os achados do presente estudo indicam que a representação social da pessoa idosa na mídia do Distrito Federal – DF é plural, heterogênea e envolve categorias relacionadas à saúde, mídia, envolvimento familiar e moradia.

A análise das notícias por Classificação Hierárquica Descendente – CHD, dos grupos de palavras (Figura 1) indicou quatro classes de palavras, sendo a mais prevalente a classe 2 - Estudo (34,1%), seguida pela classe 3 - Televisão (24,4%), classe 1 - Por-cento (22,7%) e classe 4 - Morar (18,8%). Observou-se que a representação das perdas e ganhos no envelhecimento foi mais representada pelos temas associados à saúde, mais encontrados na categoria Estudo.

Na classe Estudo (34,1%) as palavras com maior destaque foram “cérebro”, “Alzheimer”, “exercício”, “cognitivo”, “cientista”, “autor”, “resultado” denotando as funções cognitivas e físicas vêm sido abordadas pela mídia do Correio Braziliense por meio da veiculação de estudos, pesquisas e experimentos como alvo o envelhecimento saudável, de forma a amenizar e ou explicar as perdas associadas ao envelhecimento saudável e ao envelhecimento acompanhado por doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer e as demências de um modo geral.

Na classe Televisão (24,4%) foram tratados temas relacionados ao idoso na mídia, incluindo as atividades, preferências e atividades desse segmento etário. Nesse corpo lexical estão as representações do idoso como autor e coparticipante da comunidade, chamando à atenção os verbos “aprender”, “querer”, “ensinar”, “gostar” e os advérbios “porque” e “não”.

Na classe Por-cento (22,7%) estão representadas as matérias que trataram da relação entre Mercado, Governo, Economia e envelhecimento. Um assunto com maior destaque prevalência nessa categoria foi a “previdência” seguida de “reforma”, “população”, “aposentadoria”, “brasileiro”, “milhão”, “aposentar”. Em conjunto esses dados indicam que as questões econômicas e políticas permearam aproximadamente ¼ dos materiais publicados pelo Correio Braziliense no período examinado, denotando que o envelhecimento está sendo colocado nas pautas associadas ao trabalho, leis e aposentadoria.

Na classe Morar (18,8%) são abordadas questões de moradia, vida familiar, referências, relações sociais, história, memória autobiográfica e origem. As palavras de maior destaque nessa classe foram “Vila Planalto”, “Severino”, “criança”, “dia”, “comprar”, “história”, “doação”, “ali” e “terra”.

A representação das classes e frequências encontra-se na figura 2 e a frequência de palavras representada na figura 3. As palavras mais frequentes no corpus analisado, dispostas no centro da nuvem de palavras foram: “mais”, “não”, “ano”, e “como”, seguidas de “também”, “ao”, “idoso”, “por cento”, “mesmo”, “muito”, “ainda”, “estudo”. A palavra “não” aparece no centro da nuvem de palavras, o que evidencia relações de negação com as demais palavras.

Image2508.PNG

Figura 1. Dendograma das classes e frequências de palavras das notícias veiculadas pelo Correio
Braziliense sobre velhice e envelhecimento entre 10/2017 a 02/2018. Brasília, DF, 2018.

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Figura 2. Representação das classes e frequências de palavras das notícias veiculadas pelo Correio
Braziliense sobre velhice e envelhecimento entre 10/2017 a 02/2018. Brasília, DF, 2018.

Image2523.PNG

Figura 3. Frequência de palavras analisadas no conteúdo das notícias veiculadas pelo Correio
Braziliense sobre velhice e envelhecimento entre 10/2017 a 02/2018. Brasília, DF, 2018.

Discussão

Os dados do presente estudo indicam que a representação social do idoso na mídia jornalística do DF, entre 10/2017 a 02/2018, envolveu assuntos relativos a saúde, mídia, economia e moradia. Dessas classes, a que mais representou o processo de perdas e ganhos no envelhecimento foi a classe “Estudo”. As palavras mais frequentes na nuvem de palavras foram: “mais”, “não”, “ano”, e “como”. Em conjunto esses dados indicam que a representação do idoso no Distrito Federal é plural, complexa e abrangente, abordando diferentes perspectivas e abordagens sobre o processo de envelhecimento.

As matérias relativas a categoria “Estudo” fizeram referência ao corpo envelhece, buscas por novos medicamentos, métodos para retardar o envelhecimento e o empenho em veicular alternativas para o envelhecimento ativo, sugerindo o envelhecimento como um processo contínuo de adaptação às novas condições biológica, psicológica e social.

Diferente do estudo de Souza et al. (2002a) a categoria mais relacionada à saúde abordou dimensões voltadas à prevenção, pesquisas e estudos científicos, sendo as palavras mais citadas “cérebro”, “Doença de Alzheimer”, “cognição”, “memória” e “expectativa de vida”. Ao analisar matérias de jornais do Rio de Janeiro e São Paulo entre maio a setembro de 1996 e janeiro a fevereiro de 1997, Souza et al. (2002a) observaram que o tópico mais abordado pela mídia foi a “institucionalização”, seguido no “custo da assistência a saúde”, “estilo de vida” e “demografia”. Nesse sentido a pauta da saúde na velhice avançou para a veiculação de estudos e pesquisas, indicando avanços na garantia de direitos inerentes ao bem-estar e saúde. Ressalta-se que desde 1996 um conjunto de leis e serviços foram delineados a população idosa, como é o caso do Estatuto do Idoso, promulgado em 2003, e a RDC nº 283 da ANVISA, promulgada em 2005, que estabelece as leis e diretrizes para o funcionamento de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

Contudo, outras categorias observadas neste estudo, como “Economia” e “Moradia” indicam que as pautas da mídia ainda se voltam para o ônus demográfico, indicando que houve poucos avanços nesse sentido. São abordados a reforma da previdência e os novos arranjos familiares vivenciados no domicílio, evidenciando domicílios multigeracionais e a coabitação como um mecanismo de solidariedade e sobrevivência de diferentes gerações (Camarano, Kanso, & Fernandes, 2016; Debert & Simões, 2011). Contudo a discussão sobre a previdência parece encarar o velho como um problema social, confirmando achados de estudos prévios (Félix & Santos, 2011).

Verifica-se que ao Governo cabe a implantação de políticas públicas que assistam essa população em suas reais necessidades, contribuindo para a saúde física e mental. A Política Nacional do Idoso, Lei nº 8842/94 tem por objetivo assegurar os direitos sociais do idoso e criar condições para a autonomia, integração e participação na sociedade. Aos idosos a Lei não basta sem sua materialização em ações concretas. Para uma rede de proteção eficiente e eficaz no acolhimento e garantia dos direitos da pessoa idosa são necessárias ações abrangentes e específicas para essa população. Dentre essas ações destaca-se o fortalecimento dos órgãos de defesa dos direitos e criação de serviços que possam amparar a pessoa idosa, como programas de educação e geração de renda, casas-lares, centros dia, capacitação de cuidadores e profissionais (Mattioni, 2014).

No que se refere às condições de moradia na velhice a família exerce um papel fundamental na vida da pessoa idosa. Para a Minayo e Almeida (2016) a família constitui a principal fonte de suporte aos idosos, sendo que 90% das pessoas idosas referem viver com filhos, netos, ou outros parentes e 27% dos lares brasileiros possuem pelo menos uma pessoa idosa. Verifica-se que a vivencia familiar pode auxiliar na regulação das perdas funcionais associados ao envelhecimento e, portanto, auxiliar no processo de adaptação as mudanças impostas pela velhice (Rabelo & Neri, 2015).

A categoria “Mídia” representou o idoso e sua inserção em atividades físicas, como correr, dançar e praticar exercícios na academia; e o seu engajamento em trabalhos voluntários, ajudar o próximo e aprender as novas tecnologias: celular, internet, youtube e outras formas de aprendizagem. Nessa perspectiva a velhice é representada por um grupo de pessoas idosas inteligentes, versáteis, perspicazes, bem-humoradas e em boa forma que rompem com o estereótipo do idoso que não aprende e se nega a participar do seu próprio tempo. Contudo, importante destacar que essas novas perspectivas sobre o envelhecimento ainda se conjugam ao mercado de consumo, aliados ao acesso a bens e serviços (Griebler & Gonçalves, 2014; Souza et al., 2002).

Com relação à análise da nuvem de palavras é importante destacar que as palavras mais frequentes denotaram relações de negação (“não”) e acréscimo (“ano”; “mais”) no corpus textual das matérias analisadas. Observa-se que, embora as matérias tenham focalizado o papel social do idoso, pouco observados a 20 anos atrás no estudo de Souza et al. (2002), a representação da velhice ainda denota exclusão e negação que merecem ser melhor investigados.

Em conjunto esses dados indicam que a representação do idoso no Distrito Federal é plural e que permeou complexas relações entre o Estado, Mercado, Sociedade e indivíduo que envelhece. As perdas e ganhos foram mais abordados nas matérias que trataram sobre os Estudos e saúde na velhice, mas também puderam ser identificados nas matérias que trataram de previdência, moradia e mídia.

Importante ressaltar que este estudo possui como limitações o tipo de análise empregada, restringindo-se a análise lexical dos textos jornalísticos. Esse tipo de análise não favorece o aprofundamento semântico dos temas abordados. Além disso, a análise refere-se a uma análise de um período curto de tempo e pautado por uma instabilidade democrática em curso desde o ano de 2016, o que pode ter influenciado a abordagem de matérias relacionadas a velhice (Silva & Xavier, 2013).

Considerações finais

Os dados apresentados indicam que a representação do idoso no Distrito Federal é plural, complexa e abrangente, e esteve permeada por assuntos associados a saúde, mídia, economia e moradia. Observou-se que das classes apresentadas a que mais representou o processo de perdas e ganhos no envelhecimento foi a classe “Estudo”.

Destaca-se, a partir das categorias, o velho como mercado de consumo e problema social. Se na primeira perspectiva as potencialidades da velhice são destacadas, na segunda dá-se ênfase nas perdas funcionais, no ônus demográfico e financeiro da velhice ao Sistema Previdenciário. Verifica-se que parte dessas questões já foi abordada por outros estudos que examinaram a mídia e envelhecimento, indicando a complexidade e a ausência de políticas públicas efetivas que garantam a saúde e o bem-estar na velhice (Souza et al., 2002).

Portanto, é necessário harmonizar as necessidades das velhices e suas demandas e discutir o papel da mídia no cenário do envelhecimento no Brasil. Tomando por referência o Caso da Clínica Santa Genoveva em 1996, descrito por Souza et al. (2002) a mídia teve um papel social relevante para mobilizar setores da academia e da sociedade civil para a formulação de políticas e serviços para idosos. Embora tenha sido observado um avanço inegável das políticas resta saber como alcançar resultados semelhantes no contexto atual de contenção e congelamento de gastos sociais previstos na Emenda Constitucional 95/2016. Torna-se necessário colocar o envelhecimento como pauta social, apresentando suas demandas como legítimas e emergentes.

Referências

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Revista de Psicologia da IMED, Passo Fundo, vol. 10, n. 2, p. 22-35, Jul.-Dez., 2018 - ISSN 2175-5027

[Recebido: Jul. 12, 2018; Aceito: Ago. 29, 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2175-5027.2018.v10i2.2843

Endereço correspondente / Correspondence address

Henrique Salmazo da Silva

Universidade Católica de Brasília - Programa de
Pós-Graduação em Gerontologia

QS 7, Lote 1, Águas Claras, Brasília – Sala S009, Brasil.

CEP: 71966-700

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Editor: Ludgleydson Fernandes de Araújo

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Direitos autorais 2018 Luciene Souza Galeno, Isabelle Soares Freitas Chariglione, Lucia Henriques Sallorenzo, Henrique Salmazo da Silva

ISSN 2175-5027

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