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Editorial

Produção acadêmica relevante para quem?*

Em 2015, foi publicado, na revista Nature, o Manifesto Leiden. Esse Manifesto, escrito por Diana Hicks, Paul Wouters, Ludo Waltman, Sarah de Rijcke e Ismael Rafols, apresenta 10 princípios para avaliação de pesquisas (acesse o Manifesto aqui). Esse grupo de cientometristas, cientistas sociais e administradores de pesquisa considera preocupante o que eles intitularam de má aplicação dos indicadores de performance acadêmica (e.g., fator de impacto, índice h). O grupo não se opõe a estes indicadores, porém defende que não sejam utilizados isoladamente, em detrimento de avaliações qualitativas das pesquisas realizadas. Assim, avaliações quantitativas devem subsidiar avaliações qualitativas.

Particularmente, um dos princípios do Manifesto – o de número 3, “Protect excellence in locally relevant research” (Proteger a excelência de pesquisa relevante em nível local) – captou minha atenção. Esse princípio indica que a excelência em pesquisa é equacionada pelo número de publicações em língua inglesa, inclusive com diversos países instituindo metas de publicação em journals norte-americanos de alto fator de impacto. Porém, isso é problemático nas ciências sociais e humanas, uma vez que muitas pesquisas realizadas nessas áreas possuem maior vinculação com demandas locais. A pluralidade e a relevância social das pesquisas realizadas nas ciências humanas e sociais tende a ser suprimida em detrimento da produção de artigos que sejam aceitos em journals com alto fator de impacto, sendo a maioria deles do norte global. É necessário, portanto, que se invista em métricas que considerem publicações de pesquisas de excelência em nível local.

Desde 2015, quando o Manifesto Leiden foi publicado, pouco parece ter se avançado em modificar o modo como se avalia produção científica mundialmente. Isto foi abordado, no início de fevereiro, num texto, também publicado pela Nature, intitulado “Let’s move beyond the rhetoric: It’s time to change how we judge research”, de autoria de Stephen Curry - um professor do Imperia College London (acesse o texto aqui). Nesse texto, Curry cita o Manifesto Leiden e demais declarações favoráveis à mudança nas métricas de produção científica e enfatiza: “It is time to shift from making declarations to finding solutions”, ou seja, está na hora de avançar, de encontrar soluções. Quais seriam essas soluções? Difícil de responder a essa pergunta. Curry, no texto publicado pela Nature, indica que é necessário identificar e publicizar bons exemplos de avaliação de pesquisas e produções acadêmicas. Parece que seguimos em busca desses exemplos.

Aqui no Brasil, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é a fundação, vinculada ao Ministério da Educação, que estabelece critérios para a avaliação dos programas de pós-graduação stricto sensu e, consequentemente, para a avaliação das pesquisas realizadas no país. De acordo com o Relatório de Avaliação Quadrienal 2017 (acesse o relatório aqui), são utilizados cinco critérios para a avaliação dos programas: proposta do programa; corpo docente; corpo discente, teses e dissertações; produção intelectual e; inserção social.

Embora se reconheça os esforços da CAPES em tornar a avaliação menos quantitativa, o quesito produção intelectual ainda é baseado em itens quantitativos, como o número de publicações e o Qualis CAPES ou Fator de Impacto dos periódicos nos quais tais publicações foram realizadas. Ou seja, ainda não avançamos ao ponto de avaliar a relevância local da pesquisa. Isso porque, pesquisas com relevância local podem não ser de interesse de periódicos mais bem colocados no Qualis CAPES e/ou com maior Fator de Impacto. Vale ressaltar, ainda, que muitos periódicos mais bem colocados no Qualis CAPES têm publicado seus artigos em inglês com o objetivo de internacionalização. Não se trata de desconsiderar publicações em periódicos com Qualis CAPES e/ou Fator de Impacto maiores. Se trata, no entanto, de não considerar exclusivamente tais publicações como parâmetro de relevância da produção científica.

A busca de consideração de atividades locais relevantes é verificada no critério 5 da avaliação CAPES – Inserção social –, que consiste, “para a Área de Psicologia, […] às ações dos Programas […] na disseminação, transferência e/ou aplicação de conhecimentos e tecnologias produzidas pelos programas em benefício de diferentes setores sociais, visando minimizar ou solucionar problemas socialmente relevantes.” Veja bem: “problemas socialmente relevantes” e não pesquisas relevantes em nível local!

Exemplos de atividades consideradas no quesito inserção social são consultorias e assessorias para implantação de políticas públicas, cursos de extensão para profissionais e público em geral, programas de intervenções junto a instituições (e.g., escolas, hospitais, conselho tutelar) e eventos de divulgação científica para público técnico e geral. É perceptível, portanto, o esforço em se considerar a aplicação e a transferência do conhecimento obtido com pesquisas para as comunidades locais. E isso é excelente! A ciência precisa se aproximar cada vez mais do cotidiano! Porém, parece que ainda não se encontrou uma forma de avaliar especificamente a pesquisa relevante em nível local. Isso porque o quesito inserção social avalia outras atividades desenvolvidas em nível local, que podem (ou não) ser produto de pesquisas.

O que fazer, então? Sou defensor da ideia de que devemos iniciar grandes mudanças com pequenos passos, que conduzirão ao objetivo final. E devemos começar por nós mesmos! Por isso, na Revista de Psicologia da IMED, ao avaliar os artigos, buscamos analisar, também, o impacto local das pesquisas que deram origem aos estudos submetidos. Isso é feito quando se avalia a relevância da pesquisa, considerando o seu possível impacto científico, mas também social – na comunidade, no serviço, na organização ou na instituição que a pesquisa foi realizada.

Caro/a leitor/a, convido você a ler e estudar os artigos que fazem parte deste número buscando refletir sobre o impacto de cada um dos estudos em um nível local. Como cada estudo contribui para o contexto em que foi realizado? Em seguida, reflita: Esse impacto é mensurável pelas atuais métricas de produção científica? Caso não seja, como podemos trabalhar juntos para mudar isso? Bons estudos!

*Agradeço a revisão e as sugestões da Profa. Dra. Silvia Helena Koller

Bons estudos!

Jean Von Hohendorff

Editor-chefe

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Direitos autorais 2018 Jean Von Hohendorff

ISSN 2175-5027

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