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Orientação Profissional em uma Escola Privada: Experiência de Estágio

Professional Guidance in a Private School: Internship Experience

Orientación Profesional en una Escuela Privada: Experiencia de Práctica

Rafaela Vargas Graeff(1); Naiana Dapieve Patias(2)

1 Pedagoga e Graduanda em Psicologia na Faculdade Meridional (IMED). E-mail: rafavgraeff@hotmail.com

2 Psicóloga, Doutora em Psicologia (UFRGS). Docente dos cursos de graduação e mestrado em Psicologia na Faculdade Meridional (IMED). E-mail: naipatias@hotmail.com

Resumo

O presente artigo tem o intuito de descrever e discutir a experiência de estágio realizada com alunos do 3º Ano do Ensino Médio em uma escola privada de uma cidade situada no norte do estado do Rio Grande do Sul. A intervenção em Orientação Profissional (OP), teve como objetivo propiciar momentos em que os adolescentes refletissem sobre suas pretensões de futuro e escolhas profissionais, auxiliando na diminuição das ansiedades decorrentes das dúvidas que as escolhas podem acarretar. Participaram da intervenção 47 alunos de 15 a 16 anos de idade. Para tanto, foram realizados 15 encontros nos quais foram utilizadas técnicas projetivas, aplicação de testes psicométricos, dinâmicas de grupo, painel das profissões, dentre outros. Embora com limitações, as atividades puderam auxiliar os alunos no autonhecimento e na busca por opções mais conscientes.

Palavras-chave: Orientação Profissional, Psicologia Escolar, Adolescência, Ensino Médio

Abstract

This article intends to describe and discuss the internship experience with 3rd year high school students in a private school in a city located in the north of the state of Rio Grande do Sul. The intervention, Professional Guidande (PG), aimed to provide moments in which teenagers reflect on their future aspirations and professional choices, helping to reduce anxieties arising from the doubts that the choices may cause. Forty-seven students aged 15 to 16 participated in the intervention. For that, 15 meetings were held in which projective techniques, psychometric tests, group dynamics, panel of professions, among others were used. Although with limitations, the activities could assist students in autonhecimento and the search for more informed choices.

Keywords: Career guidance, School Psychology, Adolescence, High school

Resumen

El presente artículo tiene el propósito de describir y discutir la experiencia de práctica realizada con alumnos del 3º Año de la Enseñanza Media en una escuela privada de una ciudad situada en el norte del estado de Rio Grande do Sul. La intervenciónem Orientación Profesional (OP), tuvo como objetivo propiciar momentos en que los adolescentes reflexionaran sobre sus pretensiones de futuro y elecciones profesionales, auxiliando en la disminución de las ansiedades derivadas de las dudas que las elecciones pueden acarrear. Participaron de la intervención 47 alumnos de 15 a 16 años de edad. Para ello, se realizaron 15 encuentros en los que se utilizaron técnicas proyectivas, aplicación de pruebas psicométricas, dinámicas de grupo, panel de las profesiones, entre otros. Aunque con limitaciones, las actividades pudieron auxiliar a los alumnos en el autonicio y en la búsqueda de opciones más conscientes.

Palabras clave: Orientación profesional, Psicología Escolar, la adolescencia, Enseñanza media

Introdução

O estágio curricular supervisionado é um aspecto importante da formação do psicólogo. O mesmo abrange diversas áreas com o objetivo de desenvolver competências e habilidades específicas que representem o exercício profissional (Ministério da Educação [MEC], 2011). A experiência de estágio que será descrita foi realizada em uma escola privada situada em uma cidade da região norte do Rio Grande do Sul. A mesma teve como principal objetivo, em um primeiro momento, observar as necessidades e, após, conduzir projeto de intervenção. O estágio de Psicologia Escolar proporciona, dentro de uma perspectiva de trabalho supervisionado, a possibilidade de reflexão e intervenção em questões já organizadas nas instituições escolares, mas também de mudanças de ideias já consolidadas, sendo possível propor novas estratégias de intervenção para as demandas que se apresentam.

O psicólogo escolar pode atuar de maneira ampla, considerando toda a comunidade escolar: alunos, pais, professores, gestores e funcionários. No entanto, ainda é muito comum que as escolas, principalmente professores e gestores, peçam auxílio e tenham como foco os alunos (Pereira-Silva, Andrade, Crolman, & Mejía, 2017). Dentre as diversas possibilidades de atuação do psicólogo escolar com alunos, o trabalho em Orientação Profissional (OP) pode ser uma oportunidade de propiciar um espaço de reflexão sobre o futuro profissional sendo este aspecto muito importante, principalmente na adolescência, momento em que os adolescentes tendem a escolher, embora nem sempre maduros para tal.

Na contemporaneidade, o campo de possibilidades relativos ao trabalho tem se mostrado imenso. Frente a pluralidade de profissões, a fluidez das relações e também do mercado de trabalho, o adolescente tem a tarefa de escolher uma dentre tantas opções. No entanto, esta tarefa nem sempre se mostra fácil. Muitos adolescentes sentem-se perdidos, confusos ou, quando escolhem, podem sentir que não foi uma escolha adequada (Almeida & Melo-Silva, 2011; Santos, Luna, & Bardagi, 2014). Noutras vezes, quando já escolheram, demonstram-se insatisfeitos. O peso das escolhas não assertivas ou da não escolha recai sobre o adolescente que precisa escolher “o que vai fazer da vida”.

Sobre os aspectos supracitados, em um estudo teórico com o intuito de refletir sobre os processos de orientação e escolha vocacional diante das características atuais da sociedade, Santos et al. (2014) consideram, a partir de um conjunto de estudos sobre o tema, que adolescentes possuem dificuldades diante da escolha profissional pela falta de exploração e reflexões sobre suas habilidades, interesses e prioridades e conhecimento sobre o mundo do trabalho. Ainda, parece ser difícil, para os adolescentes, pensar sobre o futuro, planejamento de forma comprometida com projetos pessoais. Juntas, estas características podem contribuir para a evasão universitária no futuro além da troca de cursos.

Frente às problemáticas citadas, a OP pode ser um importante recurso para auxiliar os adolescentes na reflexão sobre si próprio (autoconhecimento sobre seus valores, habilidades, interesses e aspirações) e sobre o mercado de trabalho a fim de facilitar o processo de escolha (Almeida & Pinho, 2008; Santos et al., 2014; Santos, Oliveira, Jager, & Dias, 2016). Ainda, é importante que o trabalho em OP possa ser pensado por meio da construção de carreira, a qual envolve um conjunto de fatores que influenciam as escolhas profissionais dos adolescentes como, por exemplo, o contexto social e econômico, a cultura, família, a escola, dentre outros (Levenfus, 2016).

O presente artigo tem o intuito de descrever e discutir a experiência de estágio realizada, a partir da intervenção em Orientação Profissional (OP), que teve como objetivo propiciar momentos em que os adolescentes refletissem sobre suas pretensões de futuro e escolhas profissionais, auxiliando na diminuição das ansiedades decorrentes das dúvidas que as escolhas podem acarretar. A mesma foi realizada pela primeira autora e supervisionado pela segunda.

Método de Execução

Além de outras intervenções realizadas como observação do contexto escolar, escutas individuais de alunos, pais e professores, percebeu-se como necessária uma intervenção que pudesse auxiliar os estudantes do Ensino Médio, em especial do 3º Ano, na exploração das possíveis escolhas profissionais. Esta demanda para a continuidade e reformulações do projeto desenvolvido pela escola foi percebida por meio de observação e escutas realizadas com os alunos do ensino médio e de suas famílias que procuravam a escola preocupadas em como auxiliar seus filhos apresentando, muitas vezes, certa discordância em relação às possibilidades de escolhas dos mesmos.

A partir das necessidades observadas, a estagiária conversou com a psicóloga da escola e com a supervisora acadêmica deu continuidade ao projeto que a escola desenvolve. A estagiária fez pequenas alterações no projeto (eg.: inclusão do Cartaz das Profissões, mudanças e reorganizações do Painel das Profissões e da devolutiva dos testes psicológicos) de acordo com o consentimento da escola e da psicóloga que lá atua, sendo que o mesmo já é desenvolvido com uma estrutura específica há mais de 10 anos.

Sendo assim, o trabalho de intervenção desenvolvido não conta com uma única teoria de base, mas com um conjunto de teorias sobre a Orientação Profissional. Por exemplo, pode-se dizer que o modelo aqui descrito assemelha-se tanto à um modelo de OP clínico, voltado para aplicação de testes psicológicos, com o intuito de verificar as aptidões e habilidades dos adolescentes como também um modelo evolutivo das escolhas, considerando que a escolha é um processo contínuo que ocorre ao longo do desenvolvimento e não um fato em si (Fiorini, Bardagi, & Silva, 2016; Sparta, Bardagi, & Teixeira, 2006). Desta forma, no trabalho realizado, buscou-se possibilitar aos adolescentes o autoconhecimento sobre suas aptidões, habilidades e história de vida, além de conhecimento exploratório sobre o mercado de trabalho e profissões.

A escola em que foi realizada a intervenção é privada e atende aproximadamente 800 alunos, sendo 104 de ensino médio (considerando 1º, 2º e 3º anos) e, especificamente, 47 do 3º do ensino médio. A escola fornece os seguintes níveis de ensino: Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Cursos Técnicos. Para atender a demanda, conta com um quadro de 56 professores, 31 funcionários e nove estagiários.

Todas as atividades de estágio aqui descritas foram supervisionadas, semanalmente, pela psicóloga da escola e também pela psicóloga da faculdade na qual a estagiária cursava a graduação. Desta forma, durante o processo de supervisão de estágio com ambas psicólogas, todas as atividades foram apresentadas e discutidas, para análise de suas possibilidades e relevância frente ao estágio. As mesmas foram organizadas respeitando o cronograma escolar, adaptando-se assim as necessidades e possibilidades reais de execução dentro do estágio. As atividades tiveram a intenção de possibilitar alguns resultados para a demanda apresentada, assim como a experimentação da estagiária como Psicóloga Escolar. A intervenção em Orientação Profissional foi realizada em grupo, seguindo os moldes já estabelecidos pela escola nos programas anteriores, apresentando sugestões que complementassem o projeto. Foram acompanhados 47 alunos do 3º ano do Ensino Médio, em 15 encontros ou momentos coletivos.

As primeiras atividades realizadas tiveram o intuito de autoconhecimento por meio da testagem psicológica e também da história de vida. Sendo assim, os alunos participaram de um dia inteiro de atividades voltadas para a Orientação Profissional (OP). Este encontro teve o objetivo de servir como um estímulo para os alunos pensarem sobre o futuro que desejam, discutindo questões referentes a vestibular, escolhas profissionais, vida acadêmica e adolescência. Para tanto, os alunos foram levados até um local específico para esse momento, onde contavam com um espaço de salas de aula e auditório, além de área verde para os momentos de descontração e quiosques para as refeições. Os alunos foram divididos em dois grupos e alternaram a participação nas atividades programadas.

Na ocasião foram realizadas a aplicação de testes psicológicos, os quais foram escolhidos pela psicóloga escolar da escola, cuja ideia foi, além da aplicação daqueles voltados para a escolha profissional, utilizar outros testes para auxiliar em outras intervenções na escola. Assim, foram aplicados, além dos testes específicos para OP, o Teste de Atenção Concentrada (AC-15) (Cambraia, 2009). Todos os testes foram aplicados pela Psicóloga, com acompanhamento da estagiária. Dentre os testes aplicados estão: Teste das Dinâmicas Profissionais TDP (Braga & Andrade, 2006), Levantamento de Interesses Profissionais LIP (Nero, 2005) e Avaliação de Interesses Profissionais AIP (Levenfus & Bandeira, 2009).

Além disso, outras técnicas foram aplicadas, a saber: o Genoprofissiograma e o Cartaz Profissional. Os mesmos têm o intuito de auxiliar no autoconhecimento sobre a própria história e também sobre profissões, explorando o mercado de trabalho (Almeida & Melo-Silva, 2011; Almeida & Pinho, 2008; Fiorini et al., 2016). No Genoprofissioagrama, os alunos ganharam uma folha branca dividida em quatro partes, receberam então, a orientação de que nesta folha deveriam desenhar os membros da família (avôs maternos e paternos, pais e eles mesmo) e descrevê-los em termos de personalidade e profissão. Alguns alunos optaram por não preencher todos os espaços devido a situações familiares particulares. Esta dinâmica foi analisada em particular com cada aluno durante as conversas finais, fazendo com que eles pensassem sobre as suas dinâmicas familiares, suas histórias de vida e as formas de influência destas.

Na dinâmica do Cartaz Profissional, foi proposto que os alunos construíssem um cartaz de que os representasse, como forma de explorar seu autoconhecimento, analisar suas preferências, expor seus anseios, e analisar suas intenções profissionais. Neste cartaz poderiam expor seus gostos e preferências, suas perspectivas de futuro, seus interesses profissionais e ideais para carreira explorando, desta forma, possibilidades por meio do conhecimento de profissões diversificadas a partir das discussões com colegas. Para isso, eles receberam diversos materiais como lápis e canetas coloridas, tesouras, colas, revistas e jornais de diversos tipos. Os alunos tiveram 30 minutos para produzir seu cartaz e após esse tempo, foi feito um círculo com todos os participantes e ocorreu a apresentação e discussão. Neste momento, os alunos tiveram a oportunidade de organizar suas ideias em relação ao futuro, e ainda contaram com a colaboração dos colegas, o que os mostrou que em maioria eles têm as mesmas dúvidas e angústias, mas que refletindo sobre isso, podem se fortalecer para passar por esse período.

As correções dos testes e a apreciação das técnicas projetivas ocorreram logo após sua aplicação. Assim, os resultados foram sendo analisados e registrados em um documento devolutivo para os alunos. Estes documentos, baseados na resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) 007/2003, foram entregues em uma conversa individualizada com Psicóloga e/ou estagiária e o(a) aluno(a) dias após a aplicação.

A intervenção em Orientação Profissional contou também com um Painel das Profissões, momento que reuniu profissionais de diversas áreas para conversas com os alunos. Esta etapa é disponibilizada para todos os alunos do Ensino Médio devido a sua importância para o contato dos alunos com a realidade profissional. O Painel foi organizado pelos próprios alunos, e auxiliado pela Psicóloga e estagiária, este processo ocorreu em cinco encontros de preparação e foi finalizado com dois dias de Painel. Os alunos foram divididos por áreas de interesse e ficaram responsáveis por escolher os profissionais (por meio de indicações e posterior votação) e efetuar os convites por oficio, além de conversar com eles e propor que contassem um pouco de sua trajetória acadêmica e profissional. Para direcionar as falas dos profissionais para o que era de interesse dos alunos, cada equipe preparou uma carta com questionamentos que tinham sobre o curso, a profissão, as especializações, dentre outras. Uma das equipes ficou responsável pela organização geral, cuidando da decoração, preparando um coffee break e lembrancinhas para os convidados.

O evento foi dividido em dois dias e contou com a participação de nove palestrantes, de acordo com os interesses da maior parte dos alunos, a saber: profissionais da Engenharia Civil, Engenharia Agrônoma, Engenharia de Produção Mecânica, Arquitetura e Urbanismo, Odontologia, Direito, Nutrição, Psicologia e Medicina. Os convidados iniciaram suas falas contando suas trajetórias, vinculando ao que havia sido solicitado e ao término, foi aberto um espaço para questionamentos. Neste aspecto, o Painel tomou um caráter mais exploratório sobre as profissões e mercado de trabalho, permitindo que os alunos interagissem com os profissionais questionando sobre os cursos e sobre a realidade da atuação profissional de cada curso. Este evento auxiliou os alunos a esclarecerem as dúvidas sobre os cursos, as possibilidades de especialização de cada profissão, além da compreenderem sobre a prática de cada profissional. Além disso, percebeu-se o posicionamento de todos os profissionais ao pontuarem sobre a importância dos estudos durante a faculdade, explicando que os conhecimentos passados durante o curso serão fundamentais no exercício das profissões.

Outra etapa importante dentro da intervenção foram as visitas aos campus universitários da região, participando de atividades de divulgação dos cursos. Nestas visitas os alunos conseguiram conhecer os campus, conversaram com acadêmicos e professores universitários, além de vivenciarem algumas práticas da realidade universitária. A partir do relato dos alunos, este momento apresentou-se como satisfatório, pois os mesmos puderam explorar seus cursos de preferência de modo individual, sendo assim, cada qual, buscou duas opções de cursos diferentes para conhecer melhor nesta visita. Os relatos dos alunos após os passeios demonstraram como seus interesses foram atendidos, principalmente conhecendo as estruturas dos cursos (duração do curso, disciplinas, estágios, etc.) e sanando dúvidas com os professores universitários.

Como fechamento da intervenção e também conclusão de um ciclo, próximo ao término das aulas, os alunos participam de um evento de encerramento. As turmas foram convidadas a terem um dia de atividades diferenciadas, contando com dinâmicas diversas a fim de produzir momento de reflexão sobre tudo que foi vivenciado na escola até então e sobre o futuro. Além disso, foram homenageados pelos familiares, que fizeram uma surpresa e almoçaram com os alunos. Depois disso, ocorreu a produção de uma lembrancinha da turma, para que possam ter um objeto que represente tudo que viveram.

Essa ocasião possibilitou uma integração mais efetiva das famílias. As famílias, incluindo os alunos, comentaram de que forma a intervenção auxiliou, proporcionando momentos de descobertas, análises e também questionamentos, tendo em vista que algumas escolhas foram alteradas do início ao final da intervenção.

Todas as atividades realizadas foram acompanhadas de muito diálogo nos quais os alunos e o Serviço de Psicologia puderam discutir sobre as questões que se desenvolvem neste processo. Sempre foi oportunizado que os alunos interessados em discutir mais a fundo suas questões particulares, teriam total disponibilidade por parte da Psicóloga ou estagiária.

Resultados e Discussão

Considera-se importante ressaltar que as decisões profissionais ocorrem, na maioria das vezes, ao final da adolescência. Entretanto, esse tempo pode variar para cada aluno por múltiplos fatores. Assim, torna-se indispensável analisar dentro destes processos de apoio a construções de carreira, a história de vida de cada indivíduo, pensando em suas trajetórias e vivências até o momento, além de suas aptidões e habilidades (Vieira, Silva, & Machado, 2017).

A atuação do profissional da Psicologia na OP faz-se essencial, visto que este tem uma formação capaz de fornecer aos alunos um suporte emocional e um aporte teórico para uma escolha mais madura (Costa, Muniz, & Cavalcante, 2015). De fato, uma Intervenção em Orientação Profissional é de extrema importância por propiciar um espaço de discussão aos alunos do 3º ano do Ensino Médio, que em sua maioria mostram-se ansiosos e cheios de dúvidas. Assim, fez-se necessário um espaço de reflexão e informação, lembrando sempre que a carreira passou a ser compreendida como um processo que se desenvolve ao longo da vida (Oliveira et al., 2017) e, portanto, seria essencial que, desde cedo, na trajetória de vida, as intervenções fossem realizadas. Assim, faz-se necessário pensar em intervenções não apenas no 3ª ano do Ensino Médio, mas no 1ª ou até mesmo no Ensino Fundamental, de forma abrangente, considerando múltiplas possibilidades de planos futuros.

A respeito dos testes empregados, é importante ressaltar que sua forma de aplicação, correção e elaboração do documento de devolutiva, são processos que exigem muito domínio e conhecimento do Psicólogo. É necessário que este se mantenha atualizado, compreendendo a seriedade e importância deste processo, sendo ético e criterioso em todas as etapas, isto foi trazido à tona durante as supervisões acadêmicas e com a psicóloga escolar.

Ainda, é válido ressaltar que uma intervenção em Orientação Profissional deve voltar-se para o auxílio na compreensão dos processos que levam um indivíduo a realizar uma escolha, buscando maiores informações a respeito de si mesmo, do mercado de trabalho e das escolhas sobre os cursos. Isto leva os alunos a desenvolverem um autoconhecimento, entendendo suas limitações e possibilidades (Santos et al., 2014; Sparta, Bardagi, & Teixeira, 2006). Portanto, os testes psicológicos são uma boa ferramenta para auxiliar no alcance dos objetivos de um programa de orientação profissional, mas são apenas um complemento para outras atividades que devem propiciar o autoconhecimento, a autorreflexão e a busca de informações sobre o mercado de trabalho.

Sobre a conversa individual realizada para devolução dos resultados dos testes, é perceptível a necessidade de que esta construção ocorra de forma totalmente imparcial e isto foi pontuado, esclarecendo que as ferramentas utilizadas servirão para orientar possibilidades e não fazer definições. Assim, os resultados dos testes servem como uma rede de apoio para orientar e ajudar no que for necessário e possível, mas as escolhas são próprias dos alunos.

A construção do Genoprofissiograma possibilitou a visualização gráfica das profissões e de como a família influencia as escolhas profissionais. Ainda, a construção do Cartaz das Profissões e sua posterior discussão, auxiliou os adolescentes no conhecimento de outras profissões e também na busca por informações das profissões desejadas naquele momento. Já a construção do Painel das Profissões propiciou autonomia e exploração de possibilidade de busca de informações com profissionais que atuam em profissões que são desejadas por eles. Além disso, as visitas aos campus proporcionam a experiência de contato direto com a realidade da vida universitária. Com isso os alunos foram instigados a provar a liberdade e responsabilidade que a faculdade oferece.

Considerações Finais

O estágio básico se apresenta como uma etapa fundamental na formação dos futuros psicólogos. É uma situação na qual são colocados em prática tudo os aprendizados até o presente momento na faculdade. A prática vivenciada na escola, na posição de estagiária de psicologia, permitiu experimentar posicionamentos e concepções de uma forma diferente, compreendendo que a prática da psicologia dentro da escola é muito ampla. Além disso, possibilitou o entendimento de que o papel do Psicólogo é muito diferente do restante da equipe pedagógica, sem deixar de ser integrada a ela.

As atividades, embora com limitações, permitiram aos adolescentes o autoconhecimento, a reflexão sobre outras possibilidades, além do conhecimento do mercado de trabalho. Ainda, os adolescentes puderam trocar dúvidas e experiências com ouros adolescentes. Na etapa da devolução dos resultados dos testes, puderam ter um espaço de reflexão e de escuta com a psicóloga da escola e a estagiária de psicologia. No entanto, destaca-se a necessidade de aplicação de testes voltados apenas para a OP.

No entanto, algumas limitações da intervenção em Orientação Profissional serão pontuadas. Por exemplo, a mesma pode iniciar por intervenções pontuais e também mais abrangentes desde o primeiro ano do Ensino Médio, possibilitando que os adolescentes possam ir desenvolvendo processos de autoconhecimento além de informações e conhecimentos sobre cursos. Este aspecto pode diminuir ansiedades diante da pressão da escolha que muitas vezes ocorre. Se possível, o Ensino Fundamental também pode participar de atividades de autoconhecimento preparando-se para o ensino médio.

A atividade com os profissionais que foram até a escola, apresentou um caráter deficitário, devido ao fato de que apenas cursos mais tradicionais foram apresentados aos alunos, embora tenham sido escolhidos por eles mesmos. No entanto, a possibilidade de conhecimento de outros cursos não apenas universitários, mas também técnicos, poderiam propiciar maior conhecimento para auxiliar na decisão. Assim, como sugestão para futuros projetos, propõe-se a construção de um painel com maior número de profissionais, divididos em mais dias.

Outra limitação da intervenção refere-se à falta de aplicação de algum instrumento que pudesse verificar se houve diferenças e mudanças nos comportamentos e habilidades dos adolescentes antes e após as intervenções. De acordo com Oliveira et al. (2017), é necessária a aplicação de um processo de avaliação que possibilite mensurar o processo a fim de fornecer maiores informações sobre a eficácia da intervenção.

Ainda, embora não realizada, considera-se importante que a intervenção inclua uma entrevista individualizada anterior ao início das atividades em grupo, que pode ser de extrema valia para o projeto. A entrevista possibilitará um contato mais sigiloso, ampliando um diálogo mais aberto com os alunos, além de fornecer um prognóstico que auxiliará nas definições de etapas seguintes (Albanese, 2016; Sparta, 2003).

Desta forma, analisa-se que este estágio acrescentou um aporte mais teórico e crítico ao projeto, com algumas limitações devido à organização já estabelecida dentro da escola. Entretanto certamente serviram para grande aprendizado, além de fazer com que alguns aspectos fossem reanalisados, apesar de não aplicados.

Referências

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Revista de Psicologia da IMED, Passo Fundo, vol. 10, n. 1, p. 175-186, Jan.-Jun., 2018 - ISSN 2175-5027

[Recebido: 25 dezembro 2017; Aceito: 20 abril 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2175-5027.2018.v10i1.2353

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