1858

Uma Investigação Epistemológica dos Paradigmas em Saúde Emocional

An Epistemological Investigation of Paradigms in Emotional Health

Una Investigación Epistemológica de los Paradigmas en Salud Emocional

Ricardo Chiaradia

Faculdade IMED. Brasil. E-mail: ricchiaradia@gmail.com

Resumo

O presente artigo tem por objetivo identificar como determinados paradigmas se estabeleceram e originaram determinadas teorias psicológicas/filosóficas com repercussão na área da saúde emocional. Devido à complexidade do objetivo, aborda-se uma posição investigativa-crítica de que as ciências humanas se constituem através de práticas discursivas, o que automaticamente, envolve paradigmas de como a linguagem objetiva da ciência psicológica relaciona-se com a linguagem subjetiva do indivíduo. O método de revisão narrativa através da literatura científica busca englobar uma compreensão do reducionismo produzido pelo pensamento cartesiano ao longo dos séculos, e as diversas correntes de pensamentos: Psicanálise Freudiana, Psiquiatria Humanista, Fenomenologia, Testagem e Avaliação Psicológica. Após a discussão teórica sobre as dificuldades, facilitações e paradigmas qual cada teoria possui, através da familiaridade proporcionada com analogias de personagens de literatura fictícia, conclui-se necessário uma plataforma cultural-científica do profissional que envolva não apenas a compreensão abstrata da teoria, mas também, as possíveis representatividades fanáticas da profissão geradas pelo senso comum, o que envolve a finalidade daquela profissão.

Palavras-chave: Epistemologia, Crítica, Psiquiatria Humanista

Abstract

The purpose of this article is to identify how certain paradigms were established and originated certain psychological/philosophical theories with repercussion in the area of emotional health. Due to the complexity of the objective, a research-critical position is presented that the human sciences are constituted through discursive practices, which automatically involves paradigms of how the objective language of psychological science relates to the subjective language of the individual. The method of narrative revision through the scientific literature seeks to encompass an understanding of the reductionism produced by Cartesian thought over the centuries, and the different currents of thought: Freudian Psychoanalysis, Humanistic Psychiatry, Phenomenology, Testing and Psychological Evaluation. After the theoretical discussion about the difficulties, facilitation and paradigms that each theory possesses, through the familiarity provided with analogies of characters from fictional literature, it is necessary to conclude a cultural-scientific platform of the professional that involves not only the abstract understanding of the theory, but as well as the possible fanatical representations of the profession generated by common sense, which involves the purpose of that profession.

Keywords: Epistemology, Paradigms, Criticism, Psychology, Psychiatry

Resumen

El presente artículo tiene por objetivo identificar cómo determinados paradigmas se establecieron y originaron determinadas teorías psicológicas / filosóficas con repercusión en el área de la salud emocional. Debido a la complejidad del objetivo, se aborda una posición investigativa-crítica de que las ciencias humanas se constituyen a través de prácticas discursivas, lo que automáticamente, implica paradigmas de cómo el lenguaje objetivo de la ciencia psicológica se relaciona con el lenguaje subjetivo del individuo. El método de revisión narrativa a través de la literatura científica busca englobar una comprensión del reduccionismo producido por el pensamiento cartesiano a lo largo de los siglos, y las diversas corrientes de pensamientos: Psicoanálisis Freudiana, Psiquiatría Humanista, Fenomenología, Testagem y Evaluación Psicológica. Después de la discusión teórica sobre las dificultades, facilitaciones y paradigmas que cada teoría posee, a través de la familiaridad proporcionada con analogías de personajes de literatura ficticia, se concluye necesario una plataforma cultural-científica del profesional que involucra no sólo la comprensión abstracta de la teoría, pero también, las posibles representaciones fanáticas de la profesión generadas por el sentido común, lo que implica la finalidad de esa profesión.

Palabras clave: Epistemología, la crítica, Psiquiatría Humanista

Introdução

A influência do sistema de pensamento matemático e objetivo na história da humanidade provocou inúmeros avanços na área da biologia, medicina, física, química, entre outras. Levando em consideração os avanços tecnológicos qual o pensamento científico materialista produz, segundo Nietzsche (1999) “Há épocas em que o homem racional e o homem intuitivo ficam lado a lado, um com medo da intuição, o outro escarnecendo da abstração; este último é tão irracional quanto o primeiro é inartístico” (p. 60).

Uma das correntes de pensamento que perdura desde o século XIX mostrando eficácia em determinadas áreas, é o positivismo de Auguste Comte. A filosofia da ciência de Comte compreende a sociedade em três estágios: 1º Teológico: busca das respostas através da teologia/religião/crença; 2º Metafísico: uma mediação entre determinada crença e o meio racional; 3º Positivismo: as respostas são verdades absolutas resultando em uma ciência empírica confiável. A concepção positivista significa um conhecimento como científico quando as informações advêm de dados concretos e sistemáticos, consistindo em uma isenção de metafísica, ou dependência imaginária. (Comte, 1978).

Segundo Coquet (2013), a produção científica moderna tem objetivado buscar verdades através do empirismo de maneira radical, marginalizando posições filosóficas que produzam hipóteses de teorização, e denunciando automaticamente as dúvidas como algo “metafísico” ou inútil para o avanço do conhecimento.

Com a concretude empírica do positivismo em vigor, como estabelecer enunciados verificáveis e científicos na área das relações/ciências humanas? É possível uma sistematização sobre o psiquismo, ou concepções de sanidade/saúde mental em meio as variáveis culturais, morais e as contingências do acaso da vida?

Segundo Kuhn (2013), esta questão implica um paradoxo, pois, a psicologia é defendida como uma ciência para determinados teóricos, e para outros como uma área filosófica e impossibilitada de ser científica pela impossibilidade de finitude lógica. Com esta relação paradoxal, a sociedade ou o comportamento humano é altamente relativizado, o que impossibilita prever uma sistematização absoluta em enunciados universais sobre o comportamento e organização psíquica do ser humano.

Segundo Foucault (1999), o poder econômico, político e educacional maximiza e controla os corpos das pessoas criando e direcionando as concepções de conhecimento, vida, ser humano, sociedade e assim por diante; incluindo as ciências humanas que institucionalizam práticas discursivas (de maneira positiva no caso da área da saúde mental, ou negativa dependendo do tipo de dominação). Assim os discursos das ciências sociais/humanas constituem-se como parte do regime histórico de verdade do momento; por exemplo: no período teológico a verdade era o que correspondesse à palavra de deus, em seguida a racionalidade matemática com a figura de Descartes (2011) e progressivamente com Auguste Comte (1978) em sentido sociológico.

Seguindo a linha de raciocínio de Foucault (2007) e analisando os discursos das ciências humanas, nota-se que não há uma essência absoluta universal do que seja a verdade do ser humano, e sim à interferência de discursos que modelam o ser humano e mantém o poder (político: oligarquia; sociológico: segurança de determinados grupos sociais; direito: justiça; psicologia/psiquiatria: saúde mental; antropologia: concepção de ser humano racional e outras áreas afins das ciências humanas).

Através do impulso da perspectiva do desaparecimento e a inexistência de uma essência humana, a psicologia carrega paradigmas entre a objetividade do discurso teórico, e a subjetividade hermenêutica do sujeito (Miotto, 2016).

Nos seguintes tópicos busca-se investigar a origem e limitações de determinadas teorias na área da saúde emocional: Psiquiatria Humanista, Psicanálise Freudiana, Fenomenologia e Avaliação Psicológica.

Limitações teóricas da psicanálise freudiana

Entre as diversas epistemologias na área da saúde mental/emocional, a Psicanálise, teoria criada por Sigmund Freud (1856-1939), tem sido criticada intensamente ao longo dos séculos por filósofos da ciência, como por exemplo, Karl Popper (2016) ao considerar a Psicanálise uma pseudociência devido à falta de critérios de falseabilidade para delimitar o funcionamento científico da teoria.

Uma das limitações presentes no discurso da psicanálise freudiana, aparece em Estudos Sobre a Histeria (1893-1895) quando Freud repara que a paciente Lucy R. possuía alta defesa, devido à repressão do seu incompatível “Eu”, recalcando as memórias indesejáveis. Para a compreensão dos fenômenos psíquicos Freud primeiro tenta hipnotizá-la, mas nota que Lucy não entrava em estado de sonambulismo:

Quando, portanto, a primeira tentativa não produzia sonambulismo ou um grau de hipnose com modificações corporais pronunciadas, eu abandonava aparentemente a hipnose, exigia apenas “concentração” e, como meio para alcançá-la, ordenava ao doente que se deitasse de costas e fechasse propositadamente os olhos. Assim, e com leve esforço, devo ter alcançado os mais profundos graus de hipnose então possíveis (Freud, 2016, p. 159).

Freud prossegue o caso clínico relacionando-se muito mais com a indução através da concentração correspondendo à demanda da paciente. Ao longo da obra de Freud é exposto alguns prelúdios e indícios sobre a operacionalização técnica intitulada como associação livre em 1905 com o caso Dora:

Desde então abandonamos essa técnica (hipnose), por considerá-la inteiramente inadequada à estrutura mais sutil da neurose. Agora deixo o próprio doente determinar o tema do trabalho diário e parto da superfície eventual que o seu inconsciente lhe oferece à atenção (Freud, 2016, p. 180).

A ausculta interpretativa do psicanalista freudiano interpreta os fenômenos inconscientes através da ramificação metapsicológica, cooptando a interlocução espontânea do analisando, intitulada como associação livre (também conhecida como regra fundamental na psicanálise freudiana). “Assim, deixamos o doente falar o que quiser, atendo-nos ao pressuposto de que só poderá lhe ocorrer o que indiretamente se relacionar ao complexo buscado” (Freud, 2013, p. 252).

Ao priorizar a fala do analisando, o psicanalista freudiano promove um processo de “dissolver” o inconsciente (simbólico) para o consciente (real) através de técnicas que progressivamente transpiram em insights. ““Inconsciente” é o conceito mais amplo; “reprimido”, o mais estrito. (. . .). A característica de algo reprimido é justamente o fato de, apesar de sua intensidade, não conseguir chegar à consciência” (Freud, 2015, p. 66).

Com a influência filosófica e a prática clínica do século XIX e XX, Freud constrói a teoria psicanalítica onde o inconsciente age e interfere na qualidade de vida do indivíduo, criando um paradigma abstrato e metapsicológico limitado em termos de verificabilidade científica.

A linguagem teórica da psicanálise freudiana comparada à uma visão sistemática qual rege o princípio positivista/empírico produz dúvidas e críticas sobre sua cientificidade/verificabilidade. Devido à interlocução autônoma do analisando constituir o direcionamento do processo psicoterápico, a teoria psicanalítica freudiana carrega dificuldades (ou isenção) de postulados/enunciados que justifiquem determinada padronização sistemática ou ordenada de pensamentos e psiquismo; algo indispensável para outras teorias psicoterápicas que buscam o nível de excelência científico, sejam embasadas experimentalmente pelo positivismo (um mundo completamente empírico e ordenado), pela ótica cartesiana (um mundo matemático/mundo-relógio) ou popperiana (uma ciência é isenta de intuições, o que torna a teoria newtoniana, o marxismo, e a psicanálise freudiana vistas como pseudociências devido não haver critérios de falseabilidade concretos e sistemáticos).

“Uma psicanálise não é uma investigação imparcial, científica, mas uma intervenção terapêutica; (. . .)” (Freud, 2015, p. 237). Inevitavelmente, o mérito da teoria psicanalítica freudiana é estabelecido na inovação de uma clínica que rompe com a temporalidade e racionalidade linear, possibilitando analisar e interpretar processos que ultrapassam à consciência com uma finalidade terapêutica (Medeiros, 1998).

Origem do discurso da psiquiatria humanista

O fundador da psiquiatria humanista e da primeira revolução psiquiátrica, Philippe Pinel, inovou a área da saúde mental publicando em 1800 o Tratado Médico-Filosófico Sobre a Alienação Mental ou a Mania (2007). Pinel transcreveu a necessidade de formular novos métodos empíricos que correspondessem à gravidade psicológica levando em consideração o estado do alienado, e categorizando os variáveis nivelamentos e condições de manias e melancolias.

O hospício de Biecêtre em Paris confinado a cuidados de Pinel entre 1793 a 1795 foi o ponto principal de sua pesquisa sobre a alienação. O cenário era de isolamento dos alienados em hospícios e asilos públicos, o que fez Pinel abandonar os métodos da época criticando intensamente a perspectiva unilateral da medicina positivista do século XIII, qual priorizava as medicações deixando de lado os processos qualitativos do alienado:

As histórias particulares que se encontram nas coleções de observações não são mais do que fatos isolados, em que o verdadeiro método descritivo está igualmente negligenciado, e os autores não tiveram outro objetivo a não ser dar validade a alguns remédios, como se o tratamento de toda a doença, sem o conhecimento exato de seus sintomas e de sua marcha, não fosse tão perigoso quanto ilusório (Pinel, 2007, p. 75-76).

A reforma psiquiátrica gerada pela obra e pesquisa de Pinel, introduz valores humanos que através de estudos detalhados mostra a necessidade de validar as condições dos alienados na França iluminista, através de um ponto de educação moral e cuidados correspondentes a gravidade do alienado.

Tomei, portanto, como guia o método que é bem-sucedido constantemente em todas as partes da história natural: que é o de começar por ver sucessivamente cada objeto com atenção e sem outro objetivo que o de reunir materiais para o futuro, evitando-se toda ilusão, toda prevenção, toda opinião adotada a partir do testemunho de outrem (Pinel, 2007, p. 71).

Através da observância e experimentos de Pinel (1745-1826), nota-se que as medicações da época estavam sendo comercializadas com a falta do vigor científico, ou seja, sem estatísticas de resultados comparativos para identificar avanços nos estágios de melancolia e manias; sem ou com delírios (Facchinetti, 2008). Com a falta de verossimilidade entre à proposta de tratamentos medicamentosos proferidos por alienistas da época e a real condição degradante e subjetiva do alienado, o referencial epistemológico pineliano representa a humanização no tratamento da saúde mental/emocional, como também, embasa a história da Terapia Ocupacional; área multidisciplinar relacionada às dificuldades e patologias que afetam a funcionalidade saudável do indivíduo (Shimoguiri & Costa-Rosa, 2017).

Limites da fenomenologia

Com o início do século XX, reconhecendo a problemática de ter um olhar unilateral quantitativo apenas buscando o nível de excelência científico, o fenomenólogo busca analisar a subjetividade da emoção junto à sensibilidade e significação do fenômeno emocional constituído pela consciência do indivíduo. “(. . .) ao passo que a Psicologia investiga a esfera subjetiva enquanto ente no mundo, aborda (. . .) processos psicofísicos localizados nos eventos do mundo já constituído” (Bonomi, 1974, p. 29).

Sartre (1905-1980), publicou em 1939 o ensaio fenomenológico: Esboço para uma teoria das emoções, observando a psicanálise e o paradigma da psicologia empíríca da época, onde a indução e explicações relacionavam-se absolutamente a priori ou posteriori sem compreender a origem subjetiva da emoção:

(. . .) o psicólogo, interrogado sobre a emoção, tem muito orgulho de responder: “ela é; por quê? Não me interessa saber, simplesmente constato. Não sei de nenhuma significação”. Ao contrário, para o fenomenólogo, todo fato humano é por essência significativo. Se lhe retirarmos a significação, lhe retiramos sua natureza de fato humano. A tarefa de um fenomenólogo será, pois, estudar a significação da emoção (Sartre, 2014, p. 25).

Observa-se que o reducionismo quantitativo dos estudos psicológicos da época impulsionou críticas e originou o discurso da fenomenologia como filosofia e também estudo de psicologia, estabelecendo uma perspectiva embasada em análises qualitativas sobre a essência dos fenômenos psíquicos. “Os psicólogos não se dão conta, com efeito, de que é tão impossível atingir a essência amontoando os acidentes quanto chegar à unidade acrescentando indefinidamente algarismos à direita de 0,99” (Sartre, 2014, p. 16).

O paradigma científico da teoria fenomenológica originou-se com a investigação da dualide entre fenômenos psicológicos (subjetividade), a percepção do mundo concreto (objetividade), e expandiu-se na análise da intuição da consciência, ocorrendo diferentes referenciais teóricos; alguns com inclinação mais holistíca (percepção contígua) e outros mais atomistas (elementos individualizados da percepção).

Nota-se que alguns referenciais teóricos da fenomenologia podem ter influência de outros construtos teóricos, como por exemplo Bachelard (1988), ao embasar-se em conceitos da psicologia analítica/junguiana, afirmará que a essência da análise fenomenológica é atingida quando os fenômenos do devaneio são interpretados dialeticamente entre animus (elementos masculinos) e animas (elementos femininos), concebendo a liberdade integral através da androginia.

O filósofo Husserl (1859-1938), criador da fenomenologia, contrariou a utilização de sua teoria de maneira puramente experimental priorizando a introspecção. Com a conflitiva metodológica introspectiva, progressivamente no início do século XX determinados psicólogos experimentalistas alemães proclamaram e apropriaram-se da fenomenologia, originando estudos na concepção de constituí-la uma ciência ou pré-ciência. (Castro & Gomes, 2015).

Atualmente a intenção de compreender a subjetividade psicológica, torna a fenomenologia um paradigma científico, que para além do ensaio filosófico, pode transitar também em hipóteses de teorização transdisciplinar nas ciências cognitivas, avançando a produção do conhecimento qualitativo e qualitativo (Castro & Gomes, 2011, 2015).

Limites da Testagem e Avaliação Psicológica

Devido à utilização errônea de testes, primeiramente com o quoeficiente intelectual (Q.I) para classificar conhecimentos de maneira taxativa, contemporaneamente a área da testagem psicológica modificou conceitos e adaptou-se não meramente sobre a dificuldade entre a subjetividade e objetividade, mas também sobre o contexto: social e cultural.

A área de avaliação psicológica e testes psicológicos sofre determinados entendimentos errôneos de sua aplicabilidade, isso se resulta da disposição moral pública de maneira ampla, ao compreender o instrumento de testagem como algo disputável; essencialmente devido à verticalização de scores/pontuações. “Fomos longe demais na enfatização do valor e importância do puramente racional – do que mede o QI – na vida humana. Para o melhor e o pior, a inteligência não dá em nada, quando as emoções dominam” (Goleman, 1995, p. 18).

Englobando o sentido ético, o protagonismo do testando deve ser correspondido dentro da perspectiva do profissional embasado fundamentalmente pela orientação do manual e informações gerais sobre o teste aplicado. Critérios devem entrar em consciência para o psicólogo que busca originalidade na testagem; precisamente através validação do SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos desenvolvido pelo Conselho Federal de Psicologia). “A má utilização de um teste pode comprometer a validade das interpretações, fazendo ruir a legitimidade dos dados obtidos. Assim, mesmo tendo instrumentos validos, se seu uso for incorreto, a validade das interpretações fica comprometida” (Hutz, 2009, p. 259).

A fidedignidade e o direcionamento teórico possuem importância para direcionar a testagem, mas é necessário um exercício e posicionamento ético evitando posturas taxativas e rotulares; como passageiramente pode-se interpretar. A testagem e avaliação psicológica contém vários tipos de instrumentos e contextos, seja pelos testes psicométricos ou projetivos, e através destes artifícios científicos o psicólogo tenta obter uma conexão entre organizações teóricas e práticas com o objeto de investigação (inteligência, personalidade, altruísmo, atenção, e outras demandas).

Segundo Cruz, Alchieri, & Sardá (2007), “Tentar organizar uma coerência entre a linguagem e o fenômeno de investigação equivale à busca da verdade, no sentido filosófico, (. . .) nunca se atinge totalmente, mas (. . .) orienta permanentemente o conhecimento humano” (p. 19). Evitando as limitações teóricas entre o reducionismo que o resultado do teste aplicado pode gerar, as técnicas de entrevistas podem contribuir na escolha delicada de estabelecer qual linguagem teórica/objetiva mais próxima possível da linguagem do testando/subjetiva.

Analogias

No próximo tópico busca-se fazer analogias para sintetizar e familizar a discussão teórica para o sentido prático da fronteira que caracteriza o discurso teórico/científico do senso comum, pois, as analogias possibilitam uma intermediação entre a essência do texto com o contexto. (Alves, 2013).

Analogia com a peça teatral “Viúva, porém Honesta”

Na peça teatral “Viúva, porém Honesta” de Nelson Rodrigues, o onipotente DR. J.B. de Albuquerque Guimarães (diretor de um dos jornais mais influentes do país “A Marreta”), para especular o estranho sintoma de sua filha que ao ficar viúva deseja sentar-se nunca mais, chama alguns especialistas: o psicanalista DR. Lupicínio, o Diabo da Fonseca, a prostituta Madame Cri-Cri e o otorrino DR. Sanatório.

Quando DR. J.B. de Albuquerque inicia a apresentação entre profissionais em sua sala, nota-se a diferente interpretação sobre o objeto profissional sarcasticamente entre o psicanalista DR. Lupicínio e a prostituta Madame Cri-Cri:

MADAME CRI-CRI – (para o psicanalista) – Doutor, nós somos colegas, doutor!

DR. LUPICÍNIO – Como assim, Madame?

MADAME CRI-CRI – Oh, sim! Nós tratamos do sexo, eu, no meu casa, o doutor, no seu consultório!

DR. LUPICÍNIO – Absolutamente!

MADAME CRI-CRI – O sexo, nosso ganha-pão, o nosso mina! (Rodrigues, 2015, p. 14).

Levando em consideração a postura psicodramática e o sarcasmo da cena, Dr. Lupicínio ao concordar com Madame Cri-Cri postula a finalidade de sua atividade profissional deixando a argumentação errônea prevalecer. Eticamente Dr. Lupicínio poderia ter respondido que o objeto de trabalho de um psicanalista é analisar os processos inconscientes do analisando, e não o ato sexual em si; crítica qual a psicanálise freudiana sofre devido a elaboração teórica ser fortemente sexualizada.

Pode-se compreender que a caricatura do diálogo mostra uma ruptura existente entre a alfabetização teórica/científica e a compreensão álgida do senso comum; linguagem que muitas vezes não corresponde sobre a real epistemologia teórica-prática.

A importância de rastrear e poder ultrapassar a própria teoria para observar a integralidade de funcionamento e possíveis interpretações fanáticas que ela pode transpirar no senso comum, torna-se fundamental para saber em qual “atmosfera” discursiva o profissional está pisando. A representatividade de qualquer profissão reflete no senso comum indicando finalidades teóricas e práticas do profissional da área; o que no caso da cena prevaleceu um entendimento errôneo e antiético sobre o trabalho de um psicanalista.

Analogia com conto “Igitur ou A Loucura de Elbehnon”

No conto do poeta Stéphane Mallarmé, “Igitur ou A Loucura de Elbehnon”, na parte IV O lance de dados (No Túmulo) é relatado a existência do acaso pela atmosfera metalinguística que se relaciona com um de seus poemas de vanguarda simbolista mais conhecidos: Um lance de dados (jamais abolirá o acaso).

Breve, num ato onde o acaso está em jogo, é sempre o acaso que realiza a sua própria Ideia, afirmando-se ou negando-se. Frente à sua existência, a negação e a afirmação acabam de fracassar. Ele contém o Absurdo – implica-o, mas em estado latente e o impede de existir: o que permite ao Infinito ser (Mallarmé, 2015, p. 93).

Se levarmos em termos de hipóteses de teorização, a aleatoriedade do acaso acaba impossibilitando a solidez de uma resolução psicológica absoluta através de determinada explicação verificável universal como a sentença positivista propõe. “A verdade é a linguagem que exprime o universal. Newton não “descobriu” uma lei que estivesse durante muito tempo dissimulada, como a solução de uma charada (. . .). A verdade não é o que se demonstra, é o que simplifica” (Saint-Exupéry, 2014, p. 145).

Pode-se teorizar que os fenômenos oriundos do acaso são cooptados e interpretados pela linguagem teórica/científica. No caso da psicologia, um cenário próximo deste consenso de capturar variáveis aleatórias para interpretar teoricamente/cientificamente, além da interlocução no processo psicoterapêutico, associa-se também os testes psicológicos, que, baseados em experimentos éticos de validação em amostras populacionais, cria determinada linguagem teórica-científica (constelação) para cooptar a demanda subjetiva do paciente (lance de dados).

Considerações Finais

Uma visão absolutamente unilateral e matemática qual remete a filosofia cartesiana, deve ser levada em posições críticas positivas e negativas promovendo debates aprofundados, com repercussão de questionamentos sobre o compreender e o fazer ciência; algo de extrema necessidade em um mundo de idealizações teóricas universais que excluem absolutamente a oportunidade crítica.

Com todos os avanços e relativismos históricos, nota-se que a psicologia (metapsicológica, fenomenológica, entre outras) constitui dificuldades entre construir um campo teórico que corresponda a um conceito de saúde emocional/mental como se fosse um enunciado universal e com uma lógica finita.

Durante a ratificação de cada limitação teórica, nota-se o paradigma entre a objetividade teórica e a subjetividade do paciente/analisando/cliente nas teorias abordadas, com isso, sistemas de pensamentos no campo da psicologia com um caráter mais filosófico (metapsicologia, fenomenologia e outras) sofrem diante da estatura moral positivista criada ao longo dos séculos.

Conclui-se através dos paradigmas identificados, uma necessidade do profissional da saúde emocional criar sua plataforma teórica/científica/cultural buscando não apenas respostas pautadas em verdades absolutas e universais, mas que também o plano da cultura e da historicidade do ser humano seja identificado para a produção do conhecimento de maneira horizontal e subjetiva.

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Revista de Psicologia da IMED, Passo Fundo, vol. 9, n. 2, p. 142-155, Jul.-Dez., 2017 - ISSN 2175-5027

[Recebido: Abr. 12, 2017; Aceito: Jan. 25, 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2175-5027.2017.v9i2.1858

Endereço correspondente / Correspondence address

Ricardo Chiaradia

R. Senador Pinheiro, 304, Vila Rodrigues

Passo Fundo, RS, Brasil

CEP 99070-220

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