Danos silenciados: a banalidade do mal no discurso científico sobre o Amianto / Silenced harms: the banality of evil in the scientific discourse on Asbestos

Marília De Nardin Budó

Resumo


Os maiores danos causados à humanidade e ao meio ambiente são provocados pela ação concertada entre Estados e Mercados, e, notadamente por envolverem instituições detentoras dos poderes político e econômico, permanecem de fora da categoria jurídica de “crime”. Diante dessa constatação, a criminologia vem se desvencilhando dessa categoria para definir seu objeto. Este trabalho se insere nessa tentativa de redefinição epistemológica do campo, versando sobre a maneira como o discurso científico, construído através de financiamentos de pesquisas pela indústria do amianto e de outras substâncias mortais, contribui, conscientemente, para o alastramento dos danos por elas causados, provocando a perda de milhares de vidas. Após categorizar esses danos corporativos como crimes dos poderosos, o trabalho avança com a análise do caso do amianto, e demonstra que, sob o véu da racionalidade e da objetividade científicas reside a adoção de um papel político dos cientistas. Para avançar na reflexão, faz-se uso da categoria “banalidade do mal”, de Hannah Arendt, concluindo-se que, do ponto de vista do dano social, não há diferença entre quem fuzila milhares de pessoas e quem constrói um discurso através do qual, asséptica, mas seguramente levará à morte milhares de pessoas.

Palavras-chave: Dano social, discurso científico, criminologia crítica, crimes dos poderosos, amianto.

Abstract: The greatest damage to humanity and the environment are caused by concerted action between states and markets, and especially because they involve institutions with political and economic powers, remain outside the legal category of "crime". Given this finding, criminology has been disentangling this category to set their object. This work is part of this attempt to epistemological redefinition of the field, dealing with how the scientific discourse, built through research funding by the asbestos industry, and other deadly substances, contributes, knowingly to the spread of the damage provoked by them, causing the loss of thousands of lives. After categorizing these corporate harms as crimes of the powerful, the work proceeds with the analysis of the asbestos case, and it demonstrates that, under the veil of rationality and scientific objectivity lies the adoption of a political role of scientists. To advance in the reflection, it makes use of the Hannah Arendt’s category of "banality of evil,", concluding that, from the point of view of social harm, there is no difference between who shoots thousands of people and who builds a speech, through which aseptic but surely lead to death thousands of people.

Keywords: Social harm, scientific discourse; critical criminology; crimes of the powerful; asbestos.


Palavras-chave


Dano social, discurso científico, criminologia crítica, crimes dos poderosos, amianto.

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DOI: https://doi.org/10.18256/2238-0604/revistadedireito.v12n1p127-140

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ISSN 2238-0604

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