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Influências do Tempo de Atuação na Área Contábil, Escolaridade dos Pais e da Faixa Salarial na Presença de Heurística em Decisões Orçamentárias

Influences of the Time of Action in the Accounting Area, Schooling of the Parents and the Salary Range in the Presence of Heuristics in Budgetary Decisions

André Sekunda Gallina(1); Júlio Cézar Ferreira(2); Leandro Augusto Toigo(3); Delci Grapégia Dal Vesco(4)

1 Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Cascavel, PR, Brasil.
E-mail: andresekunda@gmail.com

2 Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Cascavel, PR, Brasil.
E-mail: juliocesar300@hotmail.com

3 Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Cascavel, PR, Brasil.
E-mail: leandro.toigo@unioeste.br

4 Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Cascavel, PR, Brasil.
E-mail: delcigrape@gmail.com

Resumo

O presente estudo tem por objetivo verificar qual o grau de correlação entre as variáveis: tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial com a presença (ou não) de heurísticas nas decisões ligadas ao orçamento. Estudos anteriores evidenciam que é recorrente a tomada de decisões relacionadas ao orçamento empresarial com apoio de heurísticas, que, de modo sucinto, seriam atalhos mentais utilizados pelos tomadores de decisões, para facilitar ou encurtar o processo decisório, porém, que muitas vezes, dada a ausência de critérios técnicos e científicos, pode conduzir a uma decisão equivocada, causando prejuízos à organização. Assim, para identificar se as variáveis de interesse da pesquisa contribuem para explicar a ocorrência de heurísticas ligadas ao orçamento, é que se elaborou o presente estudo. A coleta de dados se deu mediante a utilização de questionário eletrônico, distribuído a estudantes de pós-graduação de instituições públicas e privadas de Foz do Iguaçu, Cascavel, e demais cidades da região Oeste do Paraná. Após a realização dos testes estatísticos propostos pelo estudo, verificou-se que de fato há presença de heurísticas nas decisões orçamentárias tomadas pela amostra, porém, não se logrou êxito em confirmar as hipóteses de trabalho formuladas para o estudo, visto que, na amostra, não se verificou correlação entre as variáveis testadas pelos autores e a presença de heurísticas nas decisões orçamentárias, resultado esse que se coaduna com pesquisas anteriores ligadas ao tema, sugerindo que o tema ainda é incipiente na literatura, carecendo de maiores e mais aprofundados estudos para sua adequada compreensão.

Palavras-chave: Orçamento, Heurística, Contabilidade

Abstract

The objective of this study is to verify the degree of correlation between the variables: time of actuation in the accounting area, parents’ schooling and salary range with the presence (or not) of heuristics in decisions related to the budget. Previous studies have shown that decisions related to the business budget with the support of heuristics are recurrent, which, succinctly, would be mental shortcuts used by decision-makers to facilitate or shorten the decision-making process absence of technical and scientific criteria, can lead to a wrong decision, causing damage to the organization. Thus, to identify if the variables of interest of the research contribute to explain the occurrence of heuristics linked to the budget, this study was elaborated. The data collection was done using an electronic questionnaire, distributed to graduate students of public and private institutions in Foz do Iguaçu, Cascavel, and other cities in the Western region of Paraná. After carrying out the statistical tests proposed by the study, it was verified that there are indeed heuristics in the budget decisions made by the sample, but, it was not possible to confirm the working hypotheses formulated for the study, since in the sample, there was no correlation between the variables tested by the authors and the presence of heuristics in budget decisions, a result that is in line with previous research related to the topic, suggesting that the topic is still incipient in the literature, lacking larger and more in-depth studies for its understanding.

Keywords: Budget, Heuristic, Accounting

1 Introdução

O orçamento empresarial constitui uma importante ferramenta de apoio à gestão das empresas, tendo em vista que, em um cenário de crise econômica global, mercados competitivos e recursos escassos, a adoção de uma ferramenta que possibilite otimizar os recursos organizacionais é medida que se impõe.

O orçamento, como peça gerencial, contribui com a empresa, em especial, para formalização dos seus objetivos e metas de curto, médio e longo prazo, auxiliando, assim, no estabelecimento das diretrizes empresariais, permitindo pensar-se quais são os passos necessários para que a empresa alcance os objetivos traçados, atingindo os resultados pretendidos.

A literatura sugere uma série de benefícios advindos da utilização do orçamento como ferramenta de apoio gerencial, como, por exemplo, melhora da produtividade da organização, diminuição dos custos do processo produtivo, aumento da escala de produção, melhor adaptação a um mercado global e dinâmico, dentre outros (Frangiotti, 2011).

Ocorre que mesmo com todos os benefícios advindos da adoção do orçamento empresarial, tendo em vista que as decisões são tomadas por pessoas, e que essas pessoas são motivadas das mais diversas formas, tais decisões podem conter vieses cognitivos.

Um desses vieses, tradicionalmente sugeridos pela literatura, são as heurísticas, que podem ser entendidas, de forma resumida, como atalhos mentais que, supostamente, facilitariam o processo de tomada de decisão, por meio de uma ação mais rápida pelo tomador.

Esses atalhos, na visão de Kahneman e Riepe (1998), constituem uma espécie de ilusão cognitiva, que gera uma tendência do sujeito a cometer erros no processo de tomada de decisão. Por sua vez, Kahneman e Tversky (1979), ao discorrerem sobre a teoria dos prospectos, classificam essas ilusões como heurísticas no processo decisório, defendendo que essas simplificações mentais provocam distorções na tomada de decisão, gerando um viés cognitivo, prejudicial às organizações. Portanto, a presente análise toma por base os fundamentos da teoria dos prospectos, que balizará o estudo no alcance dos seus objetivos.

Assim, entender essas heurísticas, e avaliar seu reflexo no processo decisório ligado ao orçamento é um fator primordial para que as empresas melhorem sua gestão, evitando, assim, incorrer nesses vieses cognitivos, que podem comprometer o processo decisório, isso porque, conforme Lima Filho e Bruni (2013), nas decisões rotineiras da área de finanças, heurísticas podem levar a resultados deficientes e perdas de desempenho, visto que a decisão poderia ser afetada por um efeito não racional e que não aperfeiçoaria a decisão subsequente, mostrando-se, portanto, importante conhecer melhor esse fenômeno.

Ademais disso, estudos indicam que determinadas características dos indivíduos podem indicar uma maior ou menor propensão à tomadas de decisão com a presença de heurísticas. Por exemplo, Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012) analisaram o impacto do gênero, idade e formação na presença de heurísticas em decisões de orçamento. Outros autores analisaram diferentes características dos sujeitos e sua potencial relação com a presença, ou não, de heurísticas em tais decisões financeiras.

Diante disso, o presente estudo busca medir possíveis correlações entre as variáveis tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial e a existência de heurísticas nas decisões ligadas ao orçamento, a partir de cenários que envolvam informações contábeis e financeiras.

A escolha das variáveis a serem testadas não decorreu do mero acaso. A literatura aponta que a experiência (tempo de atuação) em uma determinada função (ou área) pode prejudicar o processo decisório, por uma série de vieses cognitivos, como o excesso de confiança e a ancoragem, por exemplo.

Nesse sentido, List (2004) esclarece que investidores que se consideram mais experientes, ou seja, com maior tempo de atuação no mercado, tendem a apresentar um excesso de confiança durante o processo decisório de investimentos, o que pode levar a decisões equivocadas e não racionais.

Por sua vez, Aguiar et al. (2016) verificaram que o tempo de experiência (atuação) em atividades de investimentos se mostrou negativamente relacionada à ocorrência de heurísticas, o que indica um resultado contraditório em relação ao apontado por List (2004).

Ou seja, há uma razoável controvérsia a respeito do comportamento desta variável em um contexto de heurísticas, razão pela qual optou-se por trabalhar-se com ela no design desta pesquisa.

No tocante à escolaridade dos pais, o tema é amplamente pesquisado na literatura. Por exemplo, Utsumi e Mendes (2001) investigaram a influência da escolaridade dos pais no desempenho na disciplina de matemática de uma amostra de 86 alunos do ensino médio de uma escola da rede pública de ensino de uma cidade do interior do Estado de São Paulo. Os autores concluíram que o desempenho dos alunos na disciplina de matemática relacionou-se positivamente com a escolaridade da mãe.

Segundo Almeida (2015), diversos estudos tanto do Brasil quanto do exterior apontam que a alta escolaridade dos pais, sobretudo a materna, é forte condicionante para um maior sucesso pessoal dos filhos, seja em âmbito escolar, profissional, e em outros campos da vida.

Especificamente no tocante à maior ou menor ocorrência de vieses cognitivos no processo decisório orçamentário dada uma menor ou maior escolaridade dos pais, não se logrou êxito em encontrar estudos que analisassem tal variável, no entanto, a literatura é farta ao afirmar que pais com maior escolaridade influenciam positivamente o processo educacional e profissional do filho. Partindo deste pressuposto teórico, presumimos que uma maior escolaridade dos pais possa influenciar negativamente na ocorrência de heurísticas no processo decisório, razão que justifica o emprego da variável em questão, não tendo sido ela escolhida ao sabor do mero acaso. Efetivamente acreditamos que possa haver uma relação entre elas, suportados pela literatura anterior, o que motiva o estudo à realização dessa testagem.

E por fim, analisamos a faixa salarial e sua relação com vieses cognitivos no processo decisório. Pereira et al. (2015), ao analisar, dentre outras, a influência da variável renda no processo de ancoragem, verificaram que a faixa de renda na qual o sujeito se encontra exerce influência considerável no processo de ancoragem.

Nesse sentido, Lordelo et al. (2007) esclarecem que a renda familiar mostra-se significativamente relacionada com o Índice de Desenvolvimento Mental/QI do indivíduo, influenciando diversos aspectos da sua vida, como escolaridade e profissão. Por sua vez, Dearing (2004) esclarece que condições associadas à renda refletem-se na quantidade e qualidade do desenvolvimento de crianças e no tipo de experiências com que elas tem contato, influenciando seu aspecto cultural, educacional, profissional, dentre outros. Portanto, o nível de renda, embora não se tenha logrado êxito em localizar estudos sobre orçamento que tivessem-na empregado, acreditamos que a variável em questão possa se correlacionar com o objeto deste estudo, razão pela qual entendemos pertinente sua análise.

Desta forma, justificado o emprego das variáveis da pesquisa, nossa pesquisa busca responder à seguinte questão de pesquisa: Qual é a relação do tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial de um indivíduo com a ocorrência de heurística em decisões gerenciais relativas a orçamento? Por consequência disso, o objetivo geral da pesquisa é analisar a relação do tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial de um indivíduo com a ocorrência de heurística em decisões gerenciais relativas a orçamento.

O estudo se justifica pela sua importância para o contexto organizacional que, conhecendo com maior profundidade a questão, pode tentar minimizar a ocorrência desses vieses cognitivos no âmbito da gestão das organizações.

Ademais, por se tratar de tema relevante do ponto de vista acadêmico, justifica-se à medida que contribui com a academia na melhor compreensão do tema, fomentando a discussão em torno da questão. Para atingimento do objetivo proposto, e resposta à questão da pesquisa, o estudo está assim dividido: introdução, revisão teórica, metodologia, discussão e análise dos resultados e conclusão.

2 Referencial Teórico

2.1 Orçamento Empresarial

A moderna gestão empresarial deixou de adotar métodos empíricos para a condução dos negócios, adotando efetivamente uma gestão científica nas empresas, por meio de um sistema de informações gerenciais que forneçam informações rápidas e seguras para que o gestor possa tomar a melhor decisão possível (Castanheira, 2008).

Uma dessas ferramentas, com grande utilização pelas grandes corporações, é o orçamento empresarial. Sobre o conceito de orçamento, cada autor, a depender da sua linha de pesquisa, da escola a qual está filiado, da sua área de atuação, dentre outros fatores, tende a oferecer seu próprio conceito sobre o orçamento. Nesse sentido, conforme Leite et al. (2008), o orçamento empresarial pode ser conceituado como um instrumento que contempla formalmente as metas e objetivos, funcionando como meio para comunicar de onde e para onde a empresa está caminhando.

O orçamento, em uma visão retrógrada, era visto por alguns autores como, meramente, um instrumento limitador de gastos da empresa. No entanto, essa ferramenta não deve ser entendida desta forma, mas sim como instrumento de gestão apto a contribuir com a melhor gestão das operações e das finanças da empresa, antecipando problemas, sinalizando metas e objetivos que necessitem de cuidado por parte dos gestores, contribuindo para a tomada de decisões com vistas ao atendimento da missão e do cumprimento das estratégias das empresas (Leite et al., 2008).

Para Frezatti (2009), o orçamento é uma peça gerencial que contém as prioridades e a direção da entidade para um determinado período de tempo, proporcionando condições de avaliação do desempenho da entidade, razão pela qual é considerado um dos pilares da gestão e uma das ferramentas fundamentais para o accountability das empresas.

Para Castanheira (2008), além de todas as demais vantagens da utilização do orçamento, esse instrumento serve de ferramenta para organizar e implementar eficazmente os recursos da empresa.

Conforme Hansen, Otley e Van der Stede (2003), a grande vantagem de utilizar um plano orçamentário é conseguir traduzir e unir os diferentes segmentos e áreas de uma organização em um planejamento de desempenho.

De acordo com Horngren, Foster e Datar (2000), o orçamento serve como norte para a empresa, sendo composto por informações financeiras e não financeiras e funcionando como um direcionador da empresa para os anos seguintes.

Segundo Marginson e Ogden (2005), o orçamento, como ferramenta corporativa, proporciona à empresa maior segurança em situações de incerteza.

Como visto, cada autor possui seu próprio conceito sobre o orçamento, porém, percebe-se certa consonância nas abordagens, visto que cada conceito parece complementar o anterior, não havendo grandes dissonâncias entre os posicionamentos.

Uma das dificuldades citadas pela literatura refere-se à implantação do orçamento, em especial em empresas com menor estruturação. O orçamento é uma ferramenta complexa, que envolve não só a alta gestão da empresa, mas todos os funcionários da entidade. Assim, segundo Krause et al. (2009), para a adequada implementação e manutenção de um orçamento, a empresa deve manter acesso dos colaboradores aos dados, adotar certa padronização dos processos e das diretrizes, definir metas e elaborar, constantemente, acompanhamentos e revisões destas, para verificar se estão sendo cumpridas.

Sobre a utilidade do orçamento para a gestão empresarial, a literatura é uníssona ao indicar que se trata de uma ferramenta gerencial de grande utilidade para as organizações, sejam elas públicas ou privadas. Leite et al. (2008) defendem que o orçamento se trata de uma ferramenta fundamental para o planejamento e o controle no processo de gestão das empresas, na manutenção de lucros e na continuidade das organizações. Desta forma, o orçamento é um elo entre o planejamento e o controle, que contribui sobremaneira para que as organizações atinjam seus objetivos, sejam eles uma melhor gestão empresarial, aumento dos lucros, ou a própria continuidade da empresa.

Leite et al. (2008) também defendem que o orçamento é utilizado para comunicar aos membros da empresa as metas de curto prazo, bem como serve para coordenar as muitas atividades empresariais a que as organizações estão sujeitas.

Horngren, Sundem e Stratton (2004) citam como benefícios da utilização do orçamento a obrigatoriedade de fazer com que os gestores realizem o planejamento da empresa, a formalização das expectativas da empresa, o que serve de base comparativa com os resultados reais alcançados, e o fato do orçamento ajudar o gestor na coordenação de seus esforços, de modo que os planos das subunidades da organização satisfaçam os objetivos da organização como um todo.

Nesse mesmo sentido, Leite et al. (2008) esclarecem que o orçamento é uma ferramenta para detecção de problemas e que serve para encontrar as respectivas soluções, como, por exemplo, contribuindo para a previsão de ciclos de sazonalidade e gerando informação de quais recursos a empresa terá que providenciar para financiar suas atividades nesses ciclos de sazonalidade.

Portanto, aquelas organizações que desejarem se manter ativas no mercado competitivo, devem adotar o orçamento como instrumento de formalização do planejamento estratégico, dadas as inúmeras vantagens que essa ferramenta proporciona para as organizações (Leite et al., 2008).

A utilização do orçamento traz, como dito pelos autores, uma série de benefícios para as organizações, constituindo uma importante ferramenta de apoio à gestão que deve ser implantada e utilizada pelas empresas. Ocorre que algumas decisões ligadas ao orçamento podem conter determinados vieses cognitivos, influenciados pela utilização de heurísticas nas decisões orçamentárias, comprometendo, assim, a qualidade e a racionalidade das decisões ligadas à gestão das organizações.

Desta forma, estudar as heurísticas e seu impacto nas decisões orçamentárias é importante para, conhecendo melhor o tema, atuar na sua prevenção. Na seção seguinte serão discutidos temas ligados às heurísticas, para proporcionar ao leitor um maior aprofundamento sobre a temática.

2.2 Heurística e as Teorias Comportamentais

A partir de 1950, iniciaram-se pesquisas que levantaram questionamentos quanto à validade dos modelos decisórios baseados no comportamento humano plenamente racional, buscando-se evidenciar e discutir novos modelos de tomada de decisões, com base em agentes não plenamente racionais, dessa forma, aplicando um conceito de racionalidade limitada. (Lucchesi, 2011).

Esse modelo decisório focado na racionalidade limitada pressupõe que a adoção da racionalidade plena dos agentes econômicos pode impedir o entendimento dos processos de decisão reais, ou seja, como uma decisão é tomada, pois busca privilegiar a análise de processos de decisão normativos, dessa forma, analisa como uma decisão deve ser tomada (Lucchesi, 2011).

Dois psicólogos cognitivos, Tversky e Kahneman (1974), apresentaram um modelo descritivo da forma utilizada pelos indivíduos para tomar decisões, com abordagens de aspectos comportamentais que poderiam ser apontados como não racionais, que são as heurísticas e as ilusões cognitivas.

Segundo Bingham, e Eisenhardt, (2011), as heurísticas são o que alguns autores denominam de regras de bolso, ou seja, atalhos mentais ou regras empíricas para encontrar uma solução para dado problema, na tomada de decisões. Isto pode gerar vieses, configurando uma tendência sistemática de invalidação dos axiomas de racionalidade ampla.

Por sua vez, Buss (1995) entende que as heurísticas podem ser entendidas como simplificações mentais que provocam distorções na tomada de decisão, ou seja, gerando um viés cognitivo, que se refere ao conjunto de operações cognitivas usadas por indivíduos para organizar, avaliar e acompanhar atividades financeiras.

Assim, as heurísticas são mecanismos cognitivos adaptativos, que reduzem o tempo e os esforços nos julgamentos, mas que podem levar a erros e vieses de pensamento. A supressão da lógica favorece o estabelecimento de um círculo vicioso, já que, muitas vezes, os resultados dos julgamentos realizados por regras heurísticas são satisfatórios para o sujeito, o que torna a utilização de atalhos mentais frequentes e, portanto, os erros e vieses uma constante (Lima Filho & Bruni, 2012).

Segundo Tversky e Kahneman (1974), as heurísticas mais comuns são a representatividade, disponibilidade e a ancoragem. A ancoragem refere-se à realização de ajustes em um valor inicial ou ancora, que é determinado arbitrariamente com base em antecedentes históricos, pela forma de apresentação de um determinado problema ou por informações aleatórias (Lima Filho & Bruni, 2012).

A heurística da ancoragem é uma limitação da tomada de decisão que ocorre no contexto das decisões negociais, afetando pessoas experientes e inexperientes. Assim, admite-se que a capacidade de processamento de informações pelos seres humanos é limitada, aceitando-se a necessidade de o cérebro acionar atalhos mentais (heurísticas) para o processo de tomada de decisões, com objetivo de minimizar o tempo de reação à decisão e, consequentemente, realizar-se um esforço cognitivo mais baixo em todo esse processo. (Dorow et al., 2010).

Tversky e Kahneman (1974) defendem que a ancoragem é o uso de estimativas partindo de um valor inicial, que é ajustado até produzir uma resposta final. O valor inicial ou ponto de partida, pode ser sugerido com base na formulação do problema ou pode ser o resultado de um cálculo parcial. Em ambos os casos, os ajustes tipicamente são insuficientes, ou seja, diferentes pontos de partida (âncoras) produzem diferentes estimativas, que são enviesadas na direção do valor inicial (Lucchesi, 2011).

Já em relação à disponibilidade, conforme aduzem Lima Filho e Bruni (2013), refere-se à facilidade com que um determinado fato é lembrado ou imaginado pelo tomador de decisão.

Tversky e Kahneman (1974), ao discorrerem acerca da heurística da disponibilidade, esclarecem que se trata da realização de estimativas ligadas a frequências ou probabilidades, com base no quão facilmente exemplos ou associações podem ser recuperados na memória. Segundo os autores, categorias mais numerosas são recordadas mais rapidamente do que categorias menos numerosas, ocorrências prováveis são mais fáceis de imaginar do que ocorrências improváveis e conexões associativas são fortalecidas quando dois eventos frequentemente ocorrem simultaneamente. Assim, na ótica da heurística da disponibilidade, uma pessoa pode estimar a ordem de grandeza de uma categoria, a probabilidade de um evento ou a frequência de ocorrências simultâneas avaliando quão facilmente a operação mental de recordar, construir e associar pode ser executada (Lucchesi, 2011).

E por fim, a heurística da representatividade refere-se à associação, por meio da similaridade, de um evento específico com outros do mesmo tipo (Lima Filho & Bruni 2013).

A heurística da representatividade é comparada a escolhas que apresentam situações semelhantes com probabilidade de acontecer. Para Tversky e Kahneman (1974) e Kimura e Basso (2003), essa representatividade se dá por meio do julgamento baseado em estereótipos. Assim, auditores e contadores, por exemplo, podem tomar uma decisão, em função das informações, externando uma opinião não condizente com a situação. Em outras palavras, as pessoas tendem a pensar sobre eventos ou objetos e a fazer julgamentos sobre eles baseando-se em estereótipos previamente formados (Lucena, Fernandes, & Silva, 2011).

Assim, retomando, quando os agentes utilizam estratégias simplificadoras, com base em suas crenças, na tomada decisões ligadas ao orçamento, estão fazendo uso das heurísticas.

A adoção dessa postura, de utilizar esses atalhos mentais ou heurísticas para a tomada de decisão, é explicado pela teoria dos prospectos, de Kahneman e Tversky (1979), que se baseia no fato de que, para o mesmo valor de perdas e ganhos, a percepção de utilidade em termos de perdas é significativamente maior que em termos de ganhos associados. Passa-se não só a reconhecer, mas também, a admitir que dificuldades cognitivas tenham grande influência no comportamento decisório.

O processo decisório apresenta um caráter comportamental e, diante da complexidade e da incerteza, tomadores de decisão normalmente utilizam heurísticas – fórmulas práticas que reduzem o tempo e a complexidade da decisão – que por estarem sujeitas a uma série de vieses, comprometem em certa medida a sua racionalidade, entendida como o processo de tomada de decisões que conduziria ao resultado ótimo: o que apresenta a maior utilidade esperada (Lucena, Fernandes, & Silva, 2011).

De acordo com o estudo de, Kahneman (2003), heurísticas são comumente definidas como atalhos cognitivos ou regras práticas que simplificam as decisões. Eles representam um processo de substituição de uma questão difícil por uma mais fácil A heurística também pode levar a vieses cognitivos. Para Goldstein e Gigerenzer (2002), existem divergências quanto à heurística em relação ao viés e racionalidade. Na visão rápida e frugal, a aplicação de heurísticas é uma estratégia “ecologicamente racional” que faz o melhor uso da informação limitada disponível para os indivíduos.

Existem geralmente diversas classes de heurísticas, dependendo do seu escopo. Algumas heurísticas, como afeto, disponibilidade e representatividade, têm um caráter de propósito geral; outros desenvolvidos na psicologia social e do consumidor são mais específicos de um domínio, dos quais exemplos incluem heurística de marca, preço e escassez (Shah & Oppenheimer, 2008).

Vários estudos analisaram a questão da heurística, em especial em decisões ligadas ao orçamento. O tema é relevante e desperta o interesse da academia, visto o impacto que as heurísticas exercem sobre decisões ligadas ao orçamento empresarial.

2.3 Variáveis da pesquisa: tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa de renda

Conforme antecipado na Introdução, esta pesquisa visa analisar a relação estatística existente entre o tempo de atuação na área contábil, a escolaridade dos pais e a faixa de renda com a ocorrência de vieses cognitivos no processo decisório ligado ao orçamento empresarial.

O orçamento vem sendo estudado há décadas, e como atividade humana, está sujeito a tomadas de decisões. Os tomadores de decisão, por sua vez, são indivíduos, falíveis e não completamente racionais, logo, sujeitos à ocorrência de vieses no processo de tomada de decisões.

Moraes e Tabak (2018) esclarecem que o paradigma da racionalidade humana vem sendo contestado desde a década de 1950. Ou seja, embora o ser humano acredite sempre que está tomando a melhor decisão, essas são, sempre, influenciadas por questões subjetivas que afetam o desempenho desse processo decisório. São os vieses cognitivos influenciando a tomada de decisão.

Segundo Sternberg e Sternberg (2012), não é que as pessoas sejam irracionais ao tomar decisões, mas sim que elas simplesmente não são sempre completamente racionais como se acreditava até décadas atrás.

Dentre os vários vieses cognitivos, Kahneman e Tversky (1974) destacam que os vieses se agrupam em: representatividade, disponibilidade e ancoragem, e que dentro dessas categorias se destacam vieses como Insensibilidade à probabilidade de resultados anteriores, Erros de concepção sobre chance, Ilusão da validade, Viés da eficácia da procura, dentre outros.

Cada indivíduo, dada uma série de características pessoais, pode incidir em um ou outro viés cognitivo em seu processo decisório. Conforme já informado, o objetivo deste paper é analisar a correlação de certas características do decisor com a ocorrência de vieses cognitivos no processo de tomada de decisão.

Nem todas as características testadas já foram empregadas em estudos ligados ao orçamento empresarial, porém, isso não tira o mérito e a funcionalidade delas para a presente pesquisa, visto que, antes de influenciar a decisão orçamentária (aspecto analisado), elas influenciam o processo decisório lato sensu, o que por si só justifica seu emprego.

A primeira característica analisada foi o tempo de atuação do decisor com atividades contábeis. De modo geral, uma maior experiência em determinada atividade provoca no sujeito um excesso de confiança, o que pode levar à tomada de decisões equivocadas, afetadas por esse excesso de confiança (List, 2004).

No entanto, a literatura aponta achados contraditórios no tocante a essa característica. Segundo algumas pesquisas, dentre as quais destacamos a de Aguiar et al. (2016), quanto maior o tempo de atuação do indivíduo em determinada atividade, menor é a ocorrência de heurísticas ligadas ao processo de tomada de decisão, indicando se tratar de um fator que reduz a possibilidade de vieses na tomada de decisão. Portanto, testar a correlação dessa característica com vieses cognitivos no âmbito do orçamento pode contribuir para um melhor entendimento do tema.

A segunda característica analisada foi a escolaridade dos pais. No tocante a esta característica, não localizamos nenhum estudo ligado ao orçamento empresarial que tenha realizado sua aplicação e análise em relação às heurísticas. No entanto, a escolaridade dos pais é tema de grande interesse acadêmico, despertando interesse de pesquisadores nas mais diversas áreas.

Por exemplo, Reis e Ramos (2011) estudaram a escolaridade dos pais e o desempenho no mercado de trabalho e desigualdade de rendimentos pelos filhos, concluindo que trabalhadores cujos pais ou mães alcançaram níveis mais altos de educação tendem a apresentar não apenas mais anos de estudo em média, como também os retornos à escolaridade são maiores do que para aqueles cujos pais ou mães adquiriram poucos anos de escolaridade.

Barros et al. (2006) esclarecem que a escolaridade dos pais está relacionada à renda permanente da família, o que influencia na educação dos filhos, eis que possibilita maiores níveis de investimentos acumulados ao longo de vários anos.

Os autores consideram que pais mais educados investem mais na educação dos filhos por terem prazer em vê-los em níveis escolares acima dos quais eles atingiram. Lam e Schoeni (1993), por sua vez, apresentam evidências de que o nível de educação dos pais no Brasil tem influência direta sobre os rendimentos dos filhos no mercado de trabalho.

Utsumi e Mendes (2001) investigaram a influência da escolaridade dos pais no desempenho escolar de alunos da rede pública de ensino do Estado de São Paulo, concluindo que o desempenho dos alunos em disciplinas matemática relacionou-se positivamente com a escolaridade da mãe.

Além disso, um maior grau de escolaridade dos pais constitui forte condicionante para um maior sucesso pessoal dos filhos, seja em âmbito escolar, profissional, e em outros campos da vida (Almeida, 2015).

Diante disso, parte-se do pressuposto que o nível educacional dos pais tenha sido superado pelos filhos (participantes da pesquisa), e que um maior grau de escolaridade dos pais mitigue os vieses cognitivos dos filhos no tocante à decisões orçamentárias.

E por fim, nossa última variável de interesse é a faixa salarial. O tema é bastante discutido na literatura, embora na pesquisa ligada ao orçamento não seja comum seu emprego como variável nas pesquisas.

Pereira et al. (2015) analisaram a precificação de produtos originais e réplicas, e concluíram que a renda do indivíduo influencia no processo de ancoragem, exercendo influência considerável no processo de ancoragem.

Em outra pesquisa, Lordelo et al. (2007) estudaram a questão da frequência à creche de crianças e sua evolução no tocante ao desenvolvimento mental, concluindo que a renda familiar possui relação direta com o Índice de Desenvolvimento Mental/QI do aluno, influenciando diversos aspectos da sua vida, como escolaridade e profissão.

Ou seja, a evidência é que a faixa de renda do sujeito tem o condão de influenciar seu comportamento, o que, por sua vez, influencia seu acesso a cultura, seus gostos e predições, dentre outros aspectos. Por conta disso, partimos do pressuposto de que um maior nível de renda possibilita ao indivíduo mais e melhor acesso a cultura, educação, lazer, bem-estar, enfim, melhores condições de vida, o que afeta, por sua vez, seu processo decisório.

Desta forma, apresentada esta revisão da literatura, a seguir serão apresentados os delineamentos metodológicos que fundamentam a pesquisa para, a seguir, partir-se para a análise e discussão dos resultados obtidos.

3 Metodologia

A presente pesquisa é classificada, quanto aos seus objetivos, como descritiva, que é aquela que, segundo Andrade (2002), os fatos são observados, registrados, analisados, classificados e interpretados, sem que o pesquisador interfira neles. Ainda, pode ser classificada como de natureza quantitativa, uma vez que são utilizadas técnicas estatísticas, como a análise de correlação, configurando, assim, o estudo como quantitativo (Richardson et al., 2011).

Sobre a amostra, trata-se de uma amostra não probabilística, escolhida por conveniência dos autores, dada a maior facilidade na obtenção dos dados para a pesquisa. A pesquisa foi realizada com 87 estudantes de pós-graduação nas áreas de administração, contabilidade, economia, e demais áreas ligadas à gestão de empresas.

A coleta de dados se deu mediante a utilização de um questionário eletrônico, onde se buscou inicialmente apurar a análise, pelos participantes, dos cenários envolvendo heurísticas nas decisões orçamentárias, em que os estudantes deveriam analisar seis cenários e manifestar sua resposta para cada uma das opções, posteriormente se investigou questões ligadas às práticas orçamentárias, em que os autores buscaram captar dos estudantes seu grau de conhecimento e utilização do orçamento, por final se aplicou questões que visou identificar o perfil dos respondentes, por meio de 11 questões, em que se questionou, por exemplo, o tempo de atuação do respondente na área contábil, há quanto tempo havia concluído seu curso superior, dentre outras.

A coleta foi realizada no mês de agosto de 2016, em instituições públicas e privadas de ensino que ofertam cursos de pós-graduação nas cidades de Foz do Iguaçu, Cascavel e outras cidades da região oeste do Paraná. Os questionários foram distribuídos para o e-mail pessoal de cada um dos respondentes, que levaram, em média, 10 minutos para respondê-lo. O questionário utilizado na pesquisa foi adaptado de Lima Filho e Bruni (2013).

Sobre a utilização de estudantes como amostra da pesquisa, estudos semelhantes defendem a adoção dessa prática sem prejuízo para os resultados da pesquisa. Ademais, Liyanarachchi e Milne (2005) e Elliott et al. (2007) sugerem que estudantes, seja de graduação ou de pós-graduação, podem ser utilizados em pesquisas acadêmicas, pois representam bons substitutos para pesquisas realizadas com profissionais. Esses autores legitimam essa opção como uma metodologia válida para ser empregada em pesquisas empíricas.

Obteve-se um número de respondentes considerado razoável, que possibilita, com segurança, a realização das inferências do estudo. O tamanho da amostra obtido pelos pesquisadores (87 respondentes) atende à sugestão de Hair et al. (1998), que recomenda que a pesquisa conte com não menos do que 30 sujeitos por célula de pesquisa, com as células apresentando quantidade próxima de observações. Foram, no entanto, excluídas 14 respostas ao questionário, por apresentarem informações incompletas em relação às variáveis de interesse do artigo. Caso tal corte não fosse realizado, os pesquisadores seriam obrigados a estimar as respostas para tais variáveis, o que poderia comprometer o resultado do estudo. Assim, foram analisados 73 questionários respondidos eletronicamente pela amostra.

O objetivo do estudo, como dito, é investigar a existência de relações entre as variáveis: tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial na presença de heurísticas em decisões ligadas ao orçamento empresarial. Para tanto, foram formuladas 3 hipóteses, que serão testadas ao longo deste estudo:

H1: estabelece que quanto maior o tempo de atuação do profissional na área contábil, maior será o grau de heurísticas presente em suas decisões ligadas ao orçamento. Estudos anteriores defendem que quanto maior a idade do sujeito, maior tende a ser a presença de heurísticas em suas decisões (Job, 1990). Assim, é razoável estimar-se que quanto maior o tempo de atuação na área, maior o nível de heurísticas nas decisões.

H2: defende que quanto maior for a faixa salarial do sujeito, menor tende a ser a presença de heurísticas nas decisões. Isso porque é razoável presumir-se que quanto maior o rendimento, mais preparado é o sujeito para ocupar a posição que possui, bem como maiores condições teria para investir em capacitações e conhecimento, o que contribuiria para uma maior criticidade nas decisões ligadas ao orçamento, portanto, com menor grau de heurísticas.

H3: e por fim, a terceira hipótese defende que quanto maior o grau de escolaridade dos pais, menor tende a ser o nível de heurísticas nas decisões orçamentárias, visto que estudos anteriores defendem que quanto maior o grau de escolaridade dos pais, maior tende a ser o grau de sucesso dos filhos. Associando-se o grau de sucesso do filho com uma melhor capacidade de tomada de decisões, sem a presença de heurísticas, assume-se a hipótese de que filhos de pais com maiores índices de escolaridade tomam decisões com menor grau de heurísticas.

Para testar as hipóteses que foram desenvolvidas para o estudo, elaborou-se um instrumento de coleta de dados composto por três blocos de questões, apresentados em um único questionário. No primeiro bloco apresentam-se cenários com possíveis heurísticas inseridas, solicitando ao respondente a tomada de decisão. O segundo bloco trata de questões ligadas a práticas orçamentárias diversas, visando captar a percepção do respondente sobre o tema. O terceiro e último bloco, que tem por objetivo coletar informações sobre o respondente, trata de questões ligadas a dados pessoais, idade, sexo, formação, tempo de atuação na área orçamentária, escolaridade dos pais, e outras informações similares. Para tanto, utilizou-se o modelo de Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012).

Como dito, o estudo visa medir a associação entre determinadas variáveis de interesse da pesquisa. A estatística oferece um extenso ferramental para tanto, porém, para implementação das análises pretendidas no estudo, utilizar-se-á a técnica estatística da análise de correlação. Isso porque quando se tem duas ou mais variáveis, como no presente estudo, é do interesse da pesquisa verificar se elas possuem algum grau de relacionamento entre si, isto é, se os valores de uma determinada variável afetam, e em qual grau, os valores de outra variável.

A análise de correlação retorna, como resultado da sua aplicação, um número que resume o grau de relacionamento linear entre as duas variáveis, ou seja, em qual proporção uma variável é afetada pela outra. Na presente pesquisa, é do interesse dos autores mensurar em qual grau o tempo de atuação na área contábil ou orçamentária, a escolaridade dos pais e a faixa salarial influenciam na ocorrência, ou não, de heurísticas em decisões de orçamento. Para tanto, a análise de correlação mostra-se a ferramenta estatística adequada para tal intento.

A correlação pode ser implementada pelas mais diversas técnicas, a depender dos dados da pesquisa e dos objetivos do estudo. No presente caso, adotou-se a análise de correlação pelo método de Spearman, tendo em vista que os dados da pesquisa são não paramétricos, decorrentes de variáveis qualitativas, mostrando-se, portanto, razoável a análise da correlação entre as variáveis pelo método de Spearman. A análise de correlação foi realizada mediante a utilização do Software estatístico SPSS, versão 22.

Para fins de inserção dos dados no software estatístico e sua respectiva análise estatísticas, as variáveis de interesse da pesquisa foram convertidas em fatores numéricos para permitir as análises e o cálculo estatístico pelo software. A Tabela 1 representa algumas das conversões realizadas no estudo para possibilitar a análise:

Tabela 1. Classificações de escolaridade, renda e tempo de atuação

Classificação da escolaridade

Equivalência

Doutorado

20

Mestrado

15

Pós-Graduação

13

Graduação

10

Ensino Médio (antigo 2º Grau)

7

Ensino Fundamental (antigo Ginásio) Completo

3

Ensino Fundamental (antigo Ginásio) Incompleto

1

Classificação da renda

Equivalência

Acima de R$ 10.000,00

11

De R$ 8.000,01 a R$ 10.000,00

10

De R$ 6.000,01 a R$ 8.000,00

8

De R$ 5.000,01 a R$ 6.000,00

6

De R$ 4.000,01 a R$ 5.000,00

5

De R$ 3.000,01 a R$ 4.000,00

4

De R$ 2.000,01 a R$ 3.000,00

3

De R$ 1.000,01 a R$ 2.000,00

2

Até R$ 1.000,00

1

Classificação do tempo de atuação

Equivalência

Acima de 10 anos

11

10 anos

10

9 anos

9

8 anos

8

7 anos

7

6 anos

6

5 anos

5

4 anos

4

3 anos

3

1 a 2 anos

2

1 ano ou menos

1

Fonte: Os autores (2016).

Desta feita, apresentados esses delineamentos metodológicos, essenciais para a compreensão do estudo, a seguir serão realizadas as análises e discussões específicas do estudo, conforme a proposta dos autores.

4 Apresentação e análise dos resultados

4.1 Qualificação da Amostra

Para iniciar a discussão, importante trazer um panorama dos respondentes, o que far-se-á analisando as respostas do terceiro bloco de questões do questionário. Pelas respostas oferecidas nos questionários, em média, os respondentes possuem 5,5342 anos de experiência com atividades contábeis, o que demonstra se tratar de uma amostra composta por profissionais com poucos anos de experiência na área da contabilidade.

Outra pergunta realizada no questionário foi acerca da experiência dos respondentes em atividades ligadas ao orçamento empresarial. Para essa resposta, a média apresentada pela amostra foi, em anos, de 6,8. Isso indica que a experiência dos profissionais em temas ligados ao orçamento é relativamente baixa. Isso, por uma questão de coerência, guarda relação com o fato de que a amostra possui baixa experiência em atividades contábeis, o que pressupõe reflita-se na experiência ligada ao orçamento.

Outro dado coletado no questionário foi acerca do tempo decorrido desde a conclusão do curso de graduação, pelo respondente. Em média, os respondentes concluíram o curso superior a 5,2876 anos, número bastante similar ao tempo de experiência em atividades contábeis, que foi de 5,5342 anos. Com esse dado, é possível inferir-se que se trata de uma amostra jovem, que foi a pouco inserida no mercado.

Sobre a natureza da instituição em que se formou a amostra ficou bastante equiparada. 38 respondentes informaram ter se formado, no curso superior, em instituição pública de ensino superior, 34 em instituição privada, e 1 respondente não assinalou o tipo de instituição em que se formou.

Quando perguntados acerca do curso de pós-graduação em curso, se ligado ou não à contabilidade, administração, e demais ciências empresariais, apenas 4 respondentes (5,48%) informaram que sua pós-graduação não guarda relação com as ciências empresariais. 1 respondente não respondeu a tal questionamento. Assim, 68 respondentes, ou seja, a grande maioria (93,15%) faz curso de pós-graduação em área ligada às ciências empresariais. No entanto, quando questionados acerca da sua atuação profissional, 34 (46,58%) respondentes informaram não trabalhar na área contábil, enquanto 39 (53,42%) informaram trabalhar com contabilidade e áreas afins. O número impressiona ainda mais dado o volume de respondentes que cursa pós-graduação na área de contabilidade e gestão.

Outro dado interessante está ligado à natureza da instituição de atuação profissional dos respondentes. 30 (41,10%) integrantes da amostra responderam atuar em instituições públicas, 39 (53,42%) em instituições privadas, e 4 (5,48%) não responderam ao questionamento. Ou seja, existe um aparente equilíbrio entre as atuações profissionais, visto que a amostra é composta, em similar proporção, por profissionais da área pública e da área privada.

Já no tocante à renda média dos respondentes, os dados da pesquisa indicam que a amostra possui em média, proventos da ordem de R$ 4.904,10 reais mensais, o que equivale, em termos atuais, a 4,5 salários mínimos, aproximadamente.

Quanto ao nível de escolaridade dos pais, variável de interesse da pesquisa, os dados indicam o seguinte panorama em relação ao progenitor, 41,10%, indicaram que o pai possui o ensino fundamental incompleto. Já o ensino fundamental completo do progenitor foi apurados por 8 respondentes (10,96%) e ainda 19 respondentes (26,03%) informaram que seu pai possui o ensino médio completo. Para o pai que possui graduação completa, representou 9 respondentes (12,33%), já 5 respondentes (6,85%) informaram que seu pai possui pós-graduação completa e apenas 2 respondentes (2,74%) informaram que seu pai possui mestrado. Nenhum respondente informou dado a respeito da conclusão de doutorado pelo progenitor. Esses dados são mais bem visualizados na Figura 1.

Image2134.PNG

Figura 1. Escolaridade dos pais, em relação ao pai

Fonte: Os autores (2016).

Em relação à escolaridade da mãe, foi constatado o seguinte quadro, apresentaram que a mãe possui o ensino fundamental 25 respondentes (34,25%), já 14 respondentes (19,18%) informaram que sua mãe possui o ensino fundamental completo. Para formação do ensino médio completo da mãe se observou 19 respondentes (26,03%). 7 respondentes (9,59%) informaram que sua mãe possui o curso superior completo, e por final responderão que mãe possui pós-graduação completa 8 respondentes (10,96%). Esses dados são demonstrados na Figura 2.

Image2141.PNG

Figura 2. Escolaridade dos pais, em relação à mãe

Fonte: Os autores (2016).

No geral, a mãe dos membros da amostra possui escolaridade superior em relação ao pai, o que pode de alguma forma, repercutir na incidência, ou não, de heurísticas nas decisões orçamentárias, conforme será adiante discutido. Realizada esta análise inicial, a seguir serão realizadas as análises ligadas aos cenários de heurísticas, bem como, em seguida, as correlações de interesse do estudo.

4.2 Análise dos Cenários de Heurísticas

O bloco 1 de perguntas do questionário apresentou ao leitor 6 cenários hipotéticos, cada um com uma potencial heurística, de modo que o respondente escolhesse a alternativa que, na sua opinião, representava a resposta mais adequada ao cenário proposto.

De posse das respostas, fez-se a tabulação dos dados com apoio do MS Excel, atribuindo-se a nota 1 para as respostas em que, conforme Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), verificava-se alguma heurística, e nota 0 para aquela resposta em que não se verificou a ocorrência de heurísticas. O resultado dessa primeira análise pode ser representado conforme a Tabela 2:

Tabela 2. Nível de heurística da amostra

Nível

Frequência

Percentual

Percentual Acumulado

-3

3

4.11%

4.11%

-2

11

15.07%

19.18%

-1

13

17.81%

36.99%

0

22

30.14%

67.12%

1

14

19.18%

86.30%

2

9

12.33%

98.63%

3

1

1.37%

100.00%

Fonte: Os autores (2016).

Conforme exposto na Tabela 2, a maior parcela dos respondentes (36,99%) não demonstrou presença de heurísticas em suas respostas. Já em 32,88% da amostra, as respostas indicaram a presença de heurísticas nas decisões ligadas ao orçamento empresarial. 22 respondentes foram excluídos da análise, tendo em vista que, de acordo com suas respostas, seu nível de heurística foi igual a 0 (zero). Assim, seguindo as balizas da pesquisa de Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), tais resultados não foram analisados.

Os resultados indicam que uma grande parcela da amostra se utiliza dos atalhos mentais, ou seja, das heurísticas, para tomada de decisões ligadas ao orçamento empresarial. Tal resultado apresenta consonância com o resultado da pesquisa de Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), que em trabalho similar, concluíram que 44% da amostra fez uso de heurísticas para a tomada de decisões ligadas às questões orçamentárias.

Isso pode ser explicado por diversos fatores. No caso da presente pesquisa, de acordo com os dados coletados, verificou-se se tratar de uma amostra jovem, composta em grande parte por profissionais com poucos anos de experiência, e formados há pouco tempo no curso de graduação, ou seja, recém-chegados ao mercado da contabilidade. Esse fator pode contribuir para que, em determinadas circunstâncias, o profissional tome decisões apoiado em heurísticas.

Apresentado esse dado, resta saber se as variáveis de interesse do estudo, quais sejam, tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial estão associadas, ou não, à presença de heurísticas em decisões de orçamento. Para tanto, a seguir será realizado o teste das hipóteses por meio da utilização de um modelo logístico binário, visando a testagem das hipóteses do estudo.

4.3 Teste das Hipóteses e Análise dos Resultados

Para verificar a associação das variáveis de interesse do estudo com a presença, ou não, de heurísticas ligadas às decisões orçamentárias, utilizou-se, como dito na metodologia, a análise de correlação de Spearman.

Antes de analisar as hipóteses, no entanto, é salutar que seja verificada a confiabilidade do instrumento de coleta de dados, o que é medido pelo alfa de cronbach. No caso do presente estudo, o alfa foi de 0,667. O alfa obtido demonstra que as escalas do instrumento de coleta de dados possuem adequado grau de confiabilidade, visto que, conforme Nunnally (1978), valores entre 0,60 a 0,70 são considerados dentro dos parâmetros de aceitabilidade para instrumentos de coleta de dados.

O estudo propôs três hipóteses, conforme delineado na seção destinada à metodologia da pesquisa. As hipóteses a serem testadas são:

H1: verificar se quanto maior o tempo de atuação do profissional na área contábil, maior será o grau de heurísticas presente em suas decisões ligadas ao orçamento.

H2: verificar se quanto maior for a faixa salarial do sujeito, menor tende a ser a presença de heurísticas nas decisões.

H3: verificar se quanto maior o grau de escolaridade dos pais, menor tende a ser o nível de heurísticas nas decisões orçamentárias.

Após a inserção dos dados da pesquisa no SPSS versão 22, o programa retornou a seguinte saída com os resultados das correlações realizadas, apresentada na Tabela 3:

Tabela 3. Correlações de Spearman

Heurísticas

Tempo de Atuação na área contábil

Faixa de Renda

Escolaridade dos Pais

Heurísticas

1

Tempo de Atuação na área contábil

-0,140

1

Faixa de Renda

-0,283*

0,401**

1

Escolaridade dos Pais

-0,124

-0,097

0,032

1

** correlação significativa ao nível de 1%.

* correlação significativa ao nível de 5%.

Fonte: Os autores (2016).

Pela Tabela 3, a matriz de correlação apresenta uma série de variáveis que não possuem significância estatística, ou seja, que os resultados podem ser mera obra do acaso, o que significa, em termos simples, que seu valor equivale, estatisticamente, a zero, não sendo, portanto, significativa para a relação estatística estudada.

As variáveis que possuem significância estatística são as variáveis: faixa de renda em relação à presença de heurísticas (significância a 5%) e a faixa de renda em relação ao tempo de atuação na área contábil (significância a 1%). Todas as demais variáveis não apresentaram relevância estatística. Dada a carência de estudos que trataram objetivamente do mesmo tema que a presente pesquisa, não logrou-se êxito em encontrar outros resultados que suportassem o presente achado, porém, em estudo similar, Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), que mediram o grau de correlação entre o gênero, idade e formação na presença de heurísticas em decisões de orçamento, verificaram que nem todas as variáveis mostraram-se estatisticamente significativas. Ou seja, o resultado obtido pelos autores também é verificado em outras pesquisas similares.

Superada a análise da relevância estatística, convém analisar, efetivamente, o grau de associação das variáveis de estudo com a presença de heurísticas nas decisões orçamentárias. Das variáveis com relevância estatística, verifica-se que nenhuma delas possui correlação em grau forte com nenhuma outra variável do estudo. Dancey e Reidy (2005), bem como a literatura em geral, sugerem que um grau de correlação forte é aquele igual ou superior 0,70 até 1,0. Portanto, nos dados coletados na pesquisa, nenhuma das variáveis de interesse do estudo atingiu esse grau de correlação.

Em relação à correlação em grau moderado, os dados demonstraram a existência de uma correlação em grau moderado entre o tempo de atuação na área contábil e a faixa de renda do sujeito, com um coeficiente de correlação de Spearman de 0,401, com relevância estatística a 1%. Embora esse dado não responda ao problema da pesquisa, é importante que se analise, ainda que de maneira rápida e pontual.

É de se esperar que quanto maior o tempo de atuação na empresa, maior seja a faixa de renda do sujeito. No entanto, o coeficiente de correlação demonstrou apenas um grau moderado de correlação entre tais variáveis, o que sugere que outros fatores, que não apenas o tempo de atuação na área é relevante para a definição do patamar de renda do sujeito. Por exemplo, o próprio grau de escolaridade do sujeito é um fator que possui grande expressão na definição do seu padrão financeiro, tendo, muitas vezes, mais preponderância do que o tempo de experiência, o que ajuda a explicar as razões pelas quais o grau de correlação entre tais variáveis foi de grau moderado.

Outra correlação de grau moderado, retornada pelo software SPSS foi entre o tempo de atuação na área contábil e a escolaridade dos pais, retornando um coeficiente de correlação moderado de 0,414. Ocorre que esse coeficiente não possui significância, ou seja, é estatisticamente irrelevante. Até mesmo, analisando de forma lógica, é pouco provável que tais variáveis possuam algum grau de correlação, exceto pelo mais absoluto acaso, como se verificou nos dados rodados pelo SPSS, visto que tais variáveis sequer possuem relevância estatística.

A escolaridade dos pais e a faixa de renda do sujeito apresentou um coeficiente de correlação de 0,786, porém, não possui significância estatística, sendo que tal correlação se deu meramente ao acaso na amostra obtida para fins do estudo. No mais, nenhuma outra variável apresentou significância ou correlação moderada ou forte, conforme demonstrado na saída do SPSS – Tabela 4.

Estudos sobre essa temática não são tão comuns, porém, os achados da presente pesquisa se coadunam, por exemplo, com os achados de Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), que em artigo similar ao presente estudo, concluíram que das três variáveis de interesse da pesquisa analisadas, quais sejam, idade, gênero e formação, e sua relação com a presença, ou não, de heurísticas ligadas às decisões de orçamento, apenas a variável gênero apresentou efeito significativo em relação à pesquisa.

Ou seja, disto, é possível inferir-se que ainda que seja racionalmente associável determinada conduta ou prática à ocorrência, ou não, de heurísticas em decisões orçamentárias, estatisticamente, essas variáveis não se confirmam como ocorreu no caso das variáveis do presente estudo, bem como nas variáveis estudadas por Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012).

Pelo exposto, as três hipóteses de trabalho, formuladas para o presente estudo, são rejeitadas, visto que, em relação à H1, um maior o tempo de atuação do profissional na área contábil não levou a um maior será o grau de heurísticas presente em suas decisões ligadas ao orçamento. Em relação à H2, uma maior faixa salarial não conduziu a uma menor presença de heurísticas nas decisões. E finalmente em relação à H3, igualmente rejeitou-se a hipótese de que quanto maior o grau de escolaridade dos pais, menor tende a ser o nível de heurísticas nas decisões orçamentárias, visto que os dados da amostra não conduziram à confirmação dessa hipótese.

5 Considerações Finais

O presente estudo teve como objetivo verificar qual o grau de correlação entre as variáveis: tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial com a presença de heurísticas nas decisões ligadas ao orçamento.

Para tanto, a pesquisa buscou responder ao seguinte problema: Qual é a relação do tempo de atuação na área contábil, escolaridade dos pais e faixa salarial de um indivíduo com a ocorrência de heurística em decisões gerenciais relativas a orçamento? Para o alcance desses resultados, foram apresentados diversos cenários, conforme sugerido por Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012), com a presença de heurísticas, visando verificar o comportamento da amostra em relação a tal fato. As respostas indicam que as decisões tomadas por boa parte da amostra carregam em si traços da utilização de heurísticas, o que por si só, já é um dado relevante para o estudo. No entanto, o estudo visava identificar as causas da ocorrência dessas heurísticas, e por meio das técnicas estatísticas adequadas, envidou esforços visando obter as respostas pretendidas.

Após a realização de todos os testes, bem como das análises pretendidas pelo estudo, concluiu-se o tempo de atuação na área contábil, a escolaridade dos pais e a faixa salarial do indivíduo não são estatisticamente relevantes para explicar a presença de heurísticas ligadas às decisões orçamentárias. Evidentemente que essa conclusão limita-se à amostra do estudo, composta por 73 respondentes dos instrumentos de pesquisa elaborado pelos autores, e baseado em Lima Filho, Bruni e Sampaio (2012).

Chama a atenção o fato de que boa parte das variáveis sequer possuem significância estatística, não contribuindo, portanto, para explicar o comportamento que se buscava elucidar. Ainda, verificou-se baixo grau de correlação entre as variáveis do estudo, o que se coaduna com estudos anteriores, como já exposto, que também não lograram êxito, com as variáveis escolhidas, em explicar o grau de associação de certas variáveis com a presença de heurísticas.

Conforme delineado na introdução, o trabalho tomou por base a teoria dos prospectos, que orientou a realização da pesquisa. Os resultados da pesquisa empírica demonstraram que em 32,88% da amostra, restou demonstrada a presença de heurísticas nas decisões ligadas ao orçamento empresarial, o que vem ao encontro da teoria, visto que uma parcela significativa da amostra demonstrou tomar decisões com aporte em heurísticas orçamentárias. Mesmo que boa parte da amostra tenha decidido sem aporte em heurísticas, uma parcela considerável da amostra fez uso desses atalhos, o que confirma os pressupostos da teoria dos prospectos, de que as decisões organizacionais são afetadas negativamente pela presença de heurísticas, o que restou demonstrado ao longo do capítulo 4 deste estudo.

Sobre sua contribuição, a pesquisa amplia a discussão sobre um tema de grande importância para a contabilidade, que é a heurística e sua influência nas decisões orçamentárias. Entender quais fatores contribuem para uma maior ou menor presença de heurísticas ajuda as empresas a entenderem quais fatores influenciam nesse processo. Com isso, as entidades podem selecionar melhor os empregados que ocuparão seus cargos de chefia, selecionando pessoas com menor probabilidade de tomar decisões enviesadas por heurísticas, comprometendo, assim, o processo de gestão das entidades.

Como limitações do estudo cita-se o tamanho da amostra, que embora satisfaça os critérios estatísticos mínimos para a condução da pesquisa, na opinião dos autores poderia ter sido maior. Ainda, embora a literatura defenda a plena possibilidade da utilização de estudantes de pós-graduação em substituição a profissionais, acredita-se que a pesquisa direta com profissionais da área orçamentária poderia trazer melhores resultados. Além disso, a pouca literatura sobre características que afetem a ocorrência de heurísticas pode ser citada como uma limitação.

Assim, como sugestões de futuras pesquisas, entende-se que a ampliação da amostra pode trazer melhores resultados para as análises, bem como a realização do trabalho com profissionais da área orçamentária, e não com estudantes. Além disso, que sejam definidas, de acordo com a literatura ou com algum critério lógico definido pelos pesquisadores, outras variáveis de pesquisa, de modo que se busque identificar características do sujeito contribuem para explicar a ocorrência, ou não, das heurísticas ligadas ao orçamento.

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Revista de Administração IMED, Passo Fundo, vol. 8, n. 2, p. 139-165, Jul.-Dez., 2018 - ISSN 2237-7956

[Recebido: Maio 03, 2018; Aprovado: Novembro 08, 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2237-7956.2018.v8i2.2684

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Leandro Augusto Toigo

Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)

Rua Universitária, 2069 - Sala 85 - 3º andar, Bairro Universitário

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