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Análise sobre a produção acadêmica do tema de redes no Brasil

Analysis about academic production
of networks in Brazil

José Estevam Lopes Cortez da Silva Freitas(1); Aline Ramos de Lima(2);
Sergio Matos dos Santos(3); Ernesto Michelangelo Giglio(4)

1 Universidade Paulista (UNIP) São Paulo, SP, Brasil. E-mail: estevamfreitas@bol.com.br

2 Universidade Paulista (UNIP) São Paulo, SP, Brasil. E-mail: alineralima@yahoo.com.br

3 Universidade Paulista (UNIP) São Paulo, SP, Brasil. E-mail: sergio.santos@samtec.com

4 Universidade Paulista (UNIP) São Paulo, SP, Brasil. E-mail: ernesto.giglio@gmail.com

Resumo

O objetivo do artigo é analisar as tendências da produção brasileira sobre redes e comparar com estudos anteriores. A partir de um conjunto de sinais que inclui o incremento de artigos em jornais qualificados e o surgimento de trilhas específicas de discussão sobre redes nos congressos, criou-se a proposição orientadorade que a pesquisa sobre redes no Brasil está construindo seu caminho de dominância conceitual e metodológica, tal como ocorre em outros centros de excelência no mundo. Para realizar a tarefa foram analisados artigos de revistas classificadas como A2 no sistema WebQualis, no período de 2006 a 2016, com as palavras-chave rede (s) e network (s). Foram encontrados 95 artigos. A análise temática dos conteúdos, considerando a teoria utilizada, a metodologia da pesquisa, as formas de coleta e as formas de análises não sustentou a afirmativa inicial. A produção brasileira sobre redes, conforme se verificou em estudos anteriores com o mesmo objetivo, continua utilizando um extenso leque de conceitos e metodologias que indicam um desenvolvimento inicial do conhecimento, com descrições de casos, entrevistas e análise documental. Considerando as características especificas de redes em regiões do Brasil, como no Sul, com os pequenos agricultores; como no Nordeste, com os programas solidários e no Sudeste, com as centenas de redes informais com as mais variadas tarefas, entende-se existirem as condições e evidências para a construção de modelos explicativos de uma marca da produção brasileira, que possa ser reconhecida e difundida no meio acadêmico internacional. Um dos caminhos sugeridos para mudar essa posição é que a produção que apresente avanços teóricos seja dirigida essencialmente para jornais internacionais, que valorizam a inovação em teoria.

Palavras chaves: Redes, Teorias, Metodologias, Revisão Bibliográfica

Abstract

The objective of this paper is to analyze the trends of Brazilian production about networks and compare it to previous studies. From a variety of signs which include the increasing presence of articles in qualified journals and the appearance of specific discussion trails about networks in congresses, the main proposition was created, asserting that after two decades of a deeper investigation, the research about networks in Brazil is setting its own path of conceptual and methodological dominance, as well as it occurs in other excellence centers around the world. In order to perform this task, the articles from magazines classified as A2 on WebQualis system were analyzed, in the period between 2006 and 2016, using the key words rede (s) and network (s). A total of 95 articles were found. The thematic content analysis, considering the theory utilized, the research methodology, the way of collection and the way of analysis did not sustain the affirmative. The Brazilian production about networks, the same way it was verified in previous studies with the same aim, continues to use an extended range of concepts and methodologies that indicate an initial development stage of knowledge, with case descriptions, interviews and document analysis. Considering the specific characteristics of networks in Brazilian geographic regions, like the South, with small agricultures, as well as in Northeast, with solidary programs and finally in the Southeast, with hundreds of informal networks with a wide range of tasks, there are evidences of conditions to develop supportive explicative models with a footprint of Brazilian productions, to be recognized and broadcasted in the international academy. One of the suggested ways to change this position is that the production capable to present theoretical advances should be directed essentially to international journals, who values most the theoretical innovation.

Keywords: Networks, Theories, Methodologies, Literature Review

1 Introdução

O estudo de redes vem se tornando cada vez mais importante no campo organizacional e isso ocorre por três motivos principais, conforme Nohria e Eccles (1992): (a) o crescimento de fenômenos coletivos nos negócios e na sociedade; (b) o reconhecimento pela comunidade científica que o formato de redes não é modismo, mas uma alternativa de ação das organizações; (c) o interesse crescente dos pesquisadores sobre o tema de redes. As redes sempre existiram, mas se colocavam no campo privado, como as redes sociais (clãs) ou religiosas (Castells, 1999). Sua expansão para o cotidiano ocorreu a partir dos estudos de mapas, de redes de distribuição (de energia, de eletricidade, de água), o que originou o conceito de redes objetivas, mensuráveis, possíveis de serem mapeadas; e os estudos dos fluidos do corpo humano, o que originou o conceito de fluxos invisíveis das redes (Parente, 2004).

Essas duas ideias originais (os fluxos e as estruturas) se desenvolveram e se multiplicaram, surgindo um leque de definições e discussões sobre as redes em suas diversas manifestações, como redes de negócios, de cooperação, de políticas públicas, de ajuda social, de difusão de religião e redes sociais. Em cada um desses campos, por sua vez, encontram-se diversos conceitos, que utilizam bases de ciências de apoio, como Antropologia, Biologia, Psicologia, Sociologia, Economia e Comunicação. Em termos de paradigmas, conforme Kuhn (1975), o conhecimento nesse campo está fragmentado, sem uma linha dominante. Conforme Kuhn (1975), essa situação pré paradigmática (porque não há um paradigma dominante) ocorre quando o conhecimento sobre um tema ainda é incipiente.

O reconhecimento da área de redes como tema importante na academia obteve grande impulso na década de 1990, sendo o livro Networks and Organizations, de Nohria e Eccles (1992) um marco, pois reuniu o conhecimento sobre redes até aquele momento e sustentou os argumentos sobre a análise das organizações a partir da perspectiva de redes, mostrando suas vantagens sobre as análises tradicionais de variáveis isoladas.

Nos anos seguintes outros autores dedicaram-se à análise do estado da arte sobre redes, em períodos determinados. Um trabalho conhecido e muito citado é o de Oliver e Ebers (1998), que investigou a produção sobre redes de 1980 a 1996, com uma amostra de 158 artigos de revistas internacionais qualificadas. Os resultados mostraram o uso de 17 teorias, 5 métodos de estudo, 13 variáveis antecedentes e 23 consequentes. Os autores concluíram que o campo estava fragmentado no uso de teorias, mas havia dominância de algumas, como dependência de recursos, custos de transação, teorias de estratégias e teorias de trocas.

Mais recentemente autores como Todeva (2006), Halinen (2005) e Grandori e Soda (2006) buscaram reunir em categorias o leque de afirmativas sobre redes. Algumas classificações criadas, ou com nomes adaptados, tais como Análise Social de Redes, Teoria Organizacional de Redes e Economia Geográfica de Redes, abarcam muitas teorias, modelos e afirmativas. Alguns núcleos de excelência local também começaram a ser identificados, tais como a escola nórdica (com redes, inovação e marketing), a escola francesa (com aspectos sociais em redes de pequenas empresas), a escola alemã (sobre governança), a escola americana (com redes de franquias e parcerias). Essas escolas inspiraram trabalhos brasileiros, como o de Wegner et al. (2011), sobre capital social e governança, dois temas frequentemente investigados no campo de redes.

Essas análises, tipologias e replicações de conceitos de redes suscitam alguns questionamentos: (a) Há alguma semelhança entre as teorias e metodologias mais utilizadas na produção internacional e na brasileira? (b) Há alguma concentração de teorias e modelos na produção brasileira? (c) Pode-se afirmar que existem escolas teóricas no Brasil? A segunda questão, relativa à concentração de teorias e modelos, originou a proposição do presente artigo, traduzida na afirmativa de que existem evidências de concentração da produção sobre redes no Brasil, indicando a possibilidade de existência de uma escola brasileira com posicionamento delimitado sobre redes, ainda a ser reconhecida no mundo acadêmico. Para investigar a proposição, o primeiro passo foi levantar os estudos bibliográficos sobre redes.

2 Estudos brasileiros sobre produção científica de redes

Neste item são comentados alguns trabalhos que apresentaram o estado da arte na produção nacional. Parte desses artigos foi selecionada por conhecimento prévio dos autores e parte foi levantada na produção nacional, com expressões de busca como revisão bibliográfica e redes, ou estado da arte e redes.

Vizeu (2003) investigou a produção de 1998 a 2003 e verificou a dominância da abordagem econômica, com temas como competitividade, resultados econômicos, características da cadeia de valor, determinismo ambiental, obtenção de recursos, análises de estrutura e fatores tecnológicos. Em segundo lugar ficaram temas sociais como variáveis culturais, significados percebidos da cooperação, construção de espaços sociais de relacionamentos nos territórios e lógica da confiança. Conforme Habermas (1975) as primeiras seriam temas do mundo objetivo e as segundas do mundo subjetivo e do mundo social.

Alguns anos depois surgiram estudos bibliográficos próximos no tempo. Balestrin, Verschoore e Reys (2010) analisaram a produção de 2000 a 2006, com 116 artigos e encontraram quatro teorias dominantes: estratégia, dependência de recursos, redes sociais e teoria institucional. Delas derivaram temas tais como análises de redes horizontais, antecedentes da necessidade de recursos, resultados de aprendizagem e de inovação. Dois anos antes, os mesmos autores Balestrin e Verschoore (2008) haviam realizado trabalho semelhante, chegando às mesmas conclusões.

No mesmo ano de 2010, mas com trabalho publicado em 2013, Alves e Pereira (2013) avaliaram 195 artigos do período de 2004 a 2009, com foco na análise metodológica, e verificaram que os temas mais frequentes foram competitividade, desempenho, inovação, recursos e conhecimento. Concluíram os autores que os estudos brasileiros estavam numa fase inicial de construção de conhecimento, buscando teorias competentes e descrevendo casos específicos. Afirmam os autores que a técnica de acompanhamento seria a ideal, mas ausente nos estudos. Os autores do presente artigo compartilham essa afirmativa, conforme será discutido adiante.

No ano seguinte Andrigui, Hoffman e Andrade (2011) analisaram artigos de redes com foco no tema de estratégia, no período de 2000 a 2005 e concluíram que os temas nacionais, de competitividade e resultados, tratados com metodologias qualitativas, são preocupações que se tornaram secundárias na literatura internacional, mais ocupada com as estruturas e processos nas redes e com metodologias de equações estruturais, ou mapas cognitivos, entre outros.

Em 2012 dois estudos (Giglio, Pugliese, & Silva, 2012; Giglio & Hernandes, 2012) analisaram a produção nacional de 2000 a 2010, buscando discutir a presença do tema do poder e as metodologias de investigação. A conclusão foi que o tema do poder está ausente nos estudos brasileiros, apesar do reconhecimento de sua importância. Sobre as metodologias, o estudo de Giglio e Hernandes concluiu que predominavam métodos qualitativos, com análise de relações causais estritas (variável A influenciando variável B), mas sem proposições, ou novas hipóteses; havia banalização da expressão estudo de caso (quase toda pesquisa era classificada como estudo de caso); dominância de textos descritivos, sem construção de teorias e modelos. Os resultados mostraram o mesmo quadro de conhecimento incipiente indicado na revisão de Viseu, em 2003. Tentativas de criar tipologias, como os trabalhos de Balestrin (2010); Hoffman (2007) e Carneiro da Cunha (2011); poderiam ser apontados como avanços, mas a análise mais detalhada das variáveis propostas nestas classificações mostrou que elas se apoiam em modelos existentes na literatura internacional, como os de Grandori e Soda (1995) e Miles e Snow (1986).

Em 2015 Barcelos, Eleutério & Giglio (2015) realizaram estudo sobre as contribuições das teses brasileiras sobre o tema de redes, analisando 23 teses do período de 2003 a 2015. Utilizando critérios aceitos internacionalmente sobre o que seria uma contribuição científica em teses, concluíram que a amostra selecionada não apresentava nenhuma contribuição teórica, nenhuma contribuição metodológica e duas contribuições gerenciais.

Alves (2016) realizou revisão sobre os conceitos de redes e verificou a existência de um leque de princípios, com dominância dos estudos de antecedentes e consequentes das redes, com poucas análises de processos, dinâmicas e estruturas flexíveis de redes.

O painel de revisões mostra que as pesquisas sobre redes no Brasil, considerando três décadas, encontram-se em uma situação circular, com fragmentação de teorias e uso de metodologias que indicam um campo incipiente de conhecimento. Nesses trabalhos de revisão existem, é verdade, sugestões de desenvolvimento de uma teoria brasileira, considerando as especificidades de nossa cultura, nosso modo de realizar parcerias e as contingências específicas regionais, como a urgência de desenvolvimento de regiões no Nordeste e a disposição de ações coletivas presentes nas comunidades do Sul do País.

Por que não progredimos na direção de uma teoria dominante? Será característica do campo de redes criar ambivalências e um leque de teorias não complementares? Para se aprofundar nesse questionamento, o próximo item recupera parte da fundamentação teórica sobre redes, a qual é frequentemente citada nos artigos brasileiros, conforme indicaram os textos de revisão analisados.

3 Fundamentação teórica e pergunta orientadora

Os conceitos de redes são diversos (Ebbers & Jarillo, 1998) e utilizam princípios de várias áreas de apoio, como a Economia, Biologia, Sociologia, Antropologia, Psicologia e Comunicação (Grandori & Soda, 1995). As definições podem valorizar os aspectos econômicos (Williamson, 1979), os racionais e estratégicos (Gulati, 1998), os sociais (Powell & DiMaggio, 1991), os políticos (Borzel, 1998), os estruturais (Uzzi, 1997; Burt, 1982), a imersão dos atores (Granovetter, 1985) e as redes como governança (Grandori, 2006).

O objetivo do artigo não é recuperar e discutir esses conceitos, mas apenas indicar o leque de princípios existentes e aplicados nas pesquisas. Pode-se afirmar que as redes são arranjos complexos de ações coletivas, em que cada linha de teorização realça e valoriza um aspecto do contexto. Trabalhos sobre complexidade (Holland, 1995; Pascucci, 2013) argumentam que o pensamento complexo pode ser um princípio organizador da labilidade de teorias em redes. Nessa linha de pensamento, afirma-se que fenômenos sociais coletivos apresentam as características de imprevisibilidade, incomensurabilidade, ordem e desordem conjuntas, dissipação e reorganização constante (Morin, 2004; Holland, 1995).

Utilizando essa linha de argumentação, entende-se que cada teoria é um esforço para padronizar e valorizar um aspecto da rede. Sociólogos, psicólogos, economistas e antropólogos advogam para si o princípio organizador das redes, ora colocando a teoria de ação coletiva como o princípio de tudo (Laumann & Pappi, 1976; Uzzi & Spiro, 2005), ora a disposição e necessidade humana de trabalho em conjunto (Moreno, 1984), ora a teoria das trocas econômicas (Williamson, 1979), ora os rituais de troca (Hénaff, 2010).

Diante desse leque de abordagens, valorizando uma área do conhecimento, e dos esforços de integração, seja na construção de modelos, seja na forma de investigação, haveria indício de dominância na produção e difusão do conhecimento sobre redes no Brasil? Haveria uma estratégia de pesquisa dominante? Haveria correspondência entre os fundamentos teóricos, as escolhas metodológicas e as formas de investigação?

Na soma dessas indagações surge a pergunta básica: Qual a dominância da produção acadêmica sobre redes no Brasil?

4 Metodologia da pesquisa

O objetivo da pesquisa foi procurar os indícios de uma possível organização e dominância de modelos conceituais e metodológicos na produção acadêmica sobre redes no Brasil.

Foram selecionados artigos de revistas brasileiras classificadas como A2 na classificação 2014 do WebQualis e que tenham a Administração como foco, dentro da grande área de Ciências Sociais Aplicadas. Assim chegou-se às seguintes revistas, com o nome, o International Standard Serial Number - ISSN e a sigla utilizada no artigo:

1. Brazilian Administration Review (ISSN 1807-7692) (bar);

2. Cadernos EBAPE.BR 1679-3951) (cadeb);

3. Cadernos de Saúde Pública (0102-311X) (csp);

4. Organizações & Sociedade (1984-9230) (o&s);

5. Revista de Administração Contemporânea (1982-7849) (rac);

6. Revista de Administração de Empresas- Eletrônica (1676-5648) (rae);

7. Revista de Administração da Universidade de São Paulo – Eletrônica (1983-7488) (rausp);

8. Revista Brasileira de Gestão de Negócios (1983-0807) (rbgn);

9. Revista de Administração Pública (1982-3134) (rap).

O próximo passo consistiu em organizar e registrar a busca de artigos que continham no título a palavra rede (ou redes) ou network (ou networks). Foram encontrados 95 artigos que atendiam aos filtros, distribuídos conforme a Tabela 1. As revistas RAC- Revista de Administração Contemporânea e RAP- Revista de Administração Pública são as que apresentaram maior quantidade de artigos.

Tabela 1.
Distribuição de artigos sobre redes nas revistas brasileiras A2, no período de 2006 a 2016

Bar

Cadeb

Csp

O&S

Rac

Rae

Rausp

Rbgn

Rap

Soma

6

11

1

12

21

8

8

10

18

95

Fonte: Construção dos autores.

O próximo passo consistiu em organizar o conteúdo dos artigos nas variáveis que fornecem dados competentes para a resposta ao problema da pesquisa. As variáveis são listadas a seguir:

(a) Teoria de base utilizada pelo autor: Como critério de classificação repetiu-se a expressão exata utilizada pelo autor, independentemente de ser uma expressão uniformemente adotada por autores ou não. Quando o autor citou várias teorias, mas não definiu claramente a sua escolha como teoria de base de seu estudo, a classificação adotada foi como não definida para fins da análise deste estudo. Da mesma maneira foram assim classificadas as situações de inexistência de apresentação da teoria de base utilizada. Realizado este levantamento foi possível visualizar as correntes teóricas mais utilizadas entre os anos de 2006 a 2016.

(b) A estratégia metodológica adotada pelo autor: Este item foi dividido em três variáveis de análise: (b1) Tipo da pesquisa realizado: o que se considerou nesta variável foi a informação do autor sobre a classificação de sua pesquisa, por exemplo, se ela é exploratória, ou descritiva, ou classificações como estudo de caso ou estudo de campo. Realizado o levantamento foi possível discutir sobre o desenvolvimento científico da área, conforme a predominância de metodologias; (b2) Forma de coleta dos dados: o que se considerou nesta variável foi a informação do autor sobre as formas de coleta dos dados, tais como entrevistas, questionários, observação direta, entre outras. Realizado o levantamento foi possível discutir sobre qual forma de coleta de dados os estudos mais se apoiaram; (b3) Formas de análise dos dados: o que se considerou nesta variável foi a informação do autor sobre como analisou os dados, por exemplo, com análises estatísticas, com análise de conteúdo. Realizado o levantamento foi possível discutir a convergência lógica entre a escolha teórica e as formas de coleta e de análise dos dados.

(c) Tema e palavras chave utilizados: Para análise desta variável foram anotadas as palavras-chave informadas pelos autores que indicavam o tema em discussão, por exemplo, o poder, a governança e os resultados comerciais. O levantamento possibilitou discutir a coerência lógica entre as escolhas teóricas e metodológicas e suas capacidades explicativas sobre o tema.

(d) Campo de investigação informado: O levantamento permitiu verificar se existem áreas de maior interesse nas pesquisas, ou se há difusão com relação ao campo de investigação dos estudos selecionados.

5 Apresentação e análise dos resultados

Neste item apresentam-se os resultados da organização dos dados, conforme as variáveis selecionadas. Num primeiro momento as variáveis são apresentadas com seus resultados isolados para, num segundo momento, realizar-se uma discussão sobre o conjunto das variáveis e sua análise.

5.1 Sobre as teorias de base informadas pelos autores

Na Tabela 2 apresentam-se os resultados da análise dos artigos, com a distribuição das teorias de base utilizadas, mantendo-se os nomes originais utilizados pelos autores.

Tabela 2. As teorias mais utilizadas numa amostra de artigos
brasileiros sobre redes, no período de 2006 a 2016

Revista 2432.png

2436.png Teoria

Bar

Cadeb

Csp

O&S

Rac

Rae

Rausp

Rbgn

Rap

Soma

1

Análise social de redes

4

7

5

1

1

6

24

2

Teoria social em redes

1

3

6

2

2

2

2

18

3

Não definido

4

3

4

11

4

Teoria institucional

1

3

1

1

1

7

5

Teoria da governança

1

2

1

1

1

6

6

Teoria da estratégia de redes

3

1

1

1

6

7

Teoria da cognição e aprendizagem

1

2

1

2

6

8

Sistemas adaptativos complexos

1

3

4

9

Actor network theory

1

1

1

1

4

10

Teoria do capital social

2

1

1

4

11

Teoria da ecologia

1

1

Fonte: Construção dos autores.

A primeira constatação verificada é relativa à dominância de análises estruturais de redes, seguida de teorias, modelos e afirmativas sobre aspectos sociais das redes, com ênfase no conceito de embeddedness. Comparando-se com os estudos anteriores já citados (Vizeu, 2003; Balestrin, Verschoore, & Reys, 2010; Alves & Pereira, 2013; Andrigui, Hoffman, & Andrade, 2011; Giglio, Pugliese, & Silva, 2012; Giglio & Hernandes, 2012; Alves, 2016), verifica-se que os conceitos sociais estão se valorizando junto aos pesquisadores, quando comparados com teorias tradicionais, como custos e dependência de recursos, que eram mais frequentemente utilizadas em anos anteriores.

Uma possível explicação para o primeiro lugar nas teorias de base informadas pelos autores, a análise social de redes (embora análise estrutural de redes seria o termo mais adequado) seria o fato de que a análise social em redes é um caminho um pouco mais fácil de pesquisa, porque as perguntas são mais objetivas e os sujeitos tem consciência (ex: “com quem você tem relacionamento mais frequente”). Outra possível explicação seria o fato que existem softwares que fazem toda a organização e desenho da estrutura da rede, daí advindo uma série de medidas, como centralidade e densidade, facilitando a análise dos dados.

Por outro lado, pode-se fazer uma crítica, ou questionamento, sobre essa liderança: Seriam as análises estruturais capazes de gerar conhecimento adicional sobre as redes? Lendo as conclusões dos artigos que utilizaram esse modelo de conhecimento verifica-se que a resposta é não, porque os textos são estudos de casos em que se construiu a estrutura da rede e se buscou alguma vinculação de correspondência com outra variável, como posição estratégica de uma organização na rede; fluxos de informação; governança; ou resultados; sem que tais esforços resultem em novas afirmativas, modelos ou teorias. Essa vinculação, no entanto, não tem força de modelo causal validado, porque a variável dependente (resultados, por exemplo), suporta n outras variáveis independentes que não são de estrutura, tais como condições do mercado, favorecimento de legislação, confiança do consumidor e sinergia de processos produtivos na rede.

O segundo lugar da classificação, as explicações sociais de redes, contêm um leque de afirmativas sobre confiança, comprometimento, imersão, entre outras. Diferente das análises estruturais elas são construções interpretativas sobre a dinâmica de relacionamento nas redes. Se considerarmos que existe convergência com outras classificações, como a 10- teoria do capital social; 11- teoria da cooperação, 14-teoria do poder e jogo social; 16- teoria da produção social; a soma total desta variável seria de 35 ocorrências, colocando a abordagem social de redes como a teoria de base mais utilizada nos artigos entre 2006 e 2016.

Em terceiro lugar verifica-se a categoria “não definido” como teoria de base, que são artigos que expuseram teorias, porém o autor não esclareceu qual utilizou, ou quais iria utilizar, no trabalho. A leitura das metodologias e das conclusões também não indica as escolhas e assim ficaram classificadas. Em 4 casos, dos 11 ao total, os autores não expuseram nenhuma teoria de base. Em dois casos os trabalhos eram revisões bibliográficas e os autores entenderam não ser o caso de apresentar base teórica e em outros 2 casos simplesmente não houve nenhuma menção à teoria de base utilizada.

Ressalvando-se os dois casos de revisão bibliográfica, é preocupante que 9 artigos em revistas classificadas como A2 não esclareçam qual a base teórica do trabalho, porque, em última instancia, não se pode avaliar nem a metodologia, nem a qualidade das conclusões, sem a seleção do referencial teórico.

Chama a atenção a ascensão da abordagem institucional como teoria de base, com mais artigos do que as abordagens de governança e estratégia, que são temas dominantes em redes. Uma parte da explicação pode estar na valorização das abordagens institucionalistas e neo-institucionalistas, que advogam visões mais abrangentes (menos analíticas, no sentido de cortes e divisões), que são cada vez mais aceitas no campo de redes. Outra explicação pode ser o fato das redes de políticas públicas se tornarem cada vez mais um campo de interesse e investigação, exigindo teorias de jogos de influência, como é a abordagem institucional.

Da décima primeira posição em diante temos teorias que aparecem apenas uma vez na pesquisa realizada, sendo elas: teoria da cooperação, organizacional, de cadeias, do poder, do território, do campo organizacional, da ecologia, da inovação, da estratégia, dos clusters, motivacional, dos stakeholders, das capacidades dinâmicas, dos custos de transação, de gestão, de dependência de recursos e do modelo A.R.A, não representando, portanto, uma tendência da utilização destas teorias de base nos trabalhos elencados.

5.2 Sobre as metodologias

Na Tabela 3 apresentam-se os dados sobre as metodologias, divididos em estratégia, formas de coleta e formas de análises. A estratégia refere-se à classificação descrita pelo autor sobre a sua pesquisa. As formas de coleta referem-se aos instrumentos utilizados e as formas de análise referem-se ao modo de tratamento dos dados.

Sobre as classificações, os artigos e os livros de metodologias apresentam uma longa lista de expressões, com divisões sobre tipos de pesquisa, sobre estratégias e sobre formas, tais como pesquisas bibliográficas e de campo.Apesar dessa diversidade, a Tabela 3 mostra que a combinação da pesquisa qualitativa com estudo de caso é a mais utilizada, seguida pelas classificações de pesquisas descritivas, quantitativas e exploratórias. Em termos de teoria do conhecimento, isto indica que os pesquisadores brasileiros consideram que as variáveis importantes a serem investigadas são de natureza qualitativa, isto é, não se manifestam em termos numéricos, e que os estudos de casos são situações mais apropriadas para suas manifestações. É uma conjugação que busca reunir dados que permitam, no futuro, por indução ou intersubjetividade, buscar bases que sejam comuns aos casos.

Tabela 3. As metodologias mais utilizadas numa amostra de artigos
brasileiros sobre redes, no período de 2006 a 2016

Estratégia

Soma

Forma de coleta

Soma

Forma de análise

Soma

1

Qualitativa

25

Entrevista

32

Não definida

22

2

Estudo de caso

21

Dados secundários

24

Análise estrutural

21

3

Descritivo

12

Questionário

14

Quantitativa

12

4

Quantitativa

11

Não definido

9

Análise conteúdo

6

5

Exploratória

9

Observação

7

Análise comparativa

3

6

Bibliográfica

9

Experimento

1

7

Empírica

6

8

Longitudinal

5

9

Não definido

5

10

Exploratória

3

11

Explicativa

2

12

Fenomenológica

1

Fonte: Construção dos autores.

A variedade de temas e campos, no entanto (que são apresentadas nas tabelas seguintes) mostra que não há repetição, tornando o trabalho comparativo mais difícil e criando certas barreiras para a legitimidade e validade de construção de bases, ou eixos sobre as redes. O que se nota nos trabalhos de revistas e congressos é a repetição de certa bibliografia básica, com exemplos de estudos de casos, mas pouco conhecimento científico agregado. Esta situação de circularidade foi apontada recentemente por Barcelos, Eleutério e Giglio (2015) sobre as contribuições científicas de teses brasileiras.

Talvez fosse o momento de se organizar o conhecimento dos estudos de casos, para verificar as convergências, sendo este estudo uma sugestão para pesquisas futuras.

Na parte de instrumentos de coleta a maior incidência é a entrevista, ao passo que nas formas de análise a maior incidência é a classe de não definição (22), indicando que os pesquisadores consideram suficiente informar somente que foi utilizada a entrevista como coleta de dados. Em apenas 6 artigos os autores explicaram que a forma de análise era a análise de conteúdo. Os artigos que utilizaram questionário também utilizaram análise estrutural e análise quantitativa, indicando a dominância em se buscar variáveis métricas.

5.3 Sobre os temas de investigação

A Tabela 4 apresenta os temas de investigação dos trabalhos. Para esta variável considerou-se a presença da expressão no título, ou nas palavras-chave informadas pelos autores.

Os dois temas mais frequentes de investigação são a Estrutura de Redes e Estratégia. O interesse nesses dois temas pode estar vinculado ao valor dado à Estratégia em Administração e a uma relativa facilidade de investigar estruturas, quando comparado com os temas de dinâmica de grupo. Numa análise mais detalhada é possível verificar que vários temas (relações, governança, capital social, poder, cooperação) estão vinculados ao tópico de relacionamento entre os atores, o que coloca esta categoria junto às outras duas no ranking. Assim, o triângulo estrutura-relacionamento-estratégia caracteriza o maior interesse dos pesquisadores brasileiros.

Tabela 4. Os temas mais investigados numa amostra de artigos
brasileiros sobre redes, no período de 2006 a 2016

Tema

Soma

Tema

Soma

1ª.

Estrutura da rede

18

11ª.

Tipologias

2

2ª.

Estratégia

12

12ª.

Resultados

2

3ª.

Relações (vários temas)

7

13ª.

Ciclo de vida

1

4ª.

Aprendizagem

6

14ª.

Agência dos atores

1

5ª.

Gerenciamento Rede

5

15ª.

Características de rede

1

6ª.

Governança

4

16ª.

Cooperação

1

7ª.

Formação e Desenvolvimento

3

17ª.

Consumidor na rede

1

8ª.

Capital social

3

18ª.

Complexidade

1

9ª.

Redes de cooperação

3

19ª.

Percepção

1

10ª.

Poder

3

Fonte: Construção dos autores.

5.4 Sobre os campos de investigação

A análise dos campos de investigação mostra que não existe repetição, podendo-se inferir que são campos diretamente ligados à pratica e aos contatos do pesquisador e do orientador. Numa tentativa de se categorizar os campos de investigação podemos concluir que, em primeiro lugar, estão as pesquisas sobre redes de pequenas empresas, dos mais variados negócios. Em segundo lugar estão os estudos sobre as redes de educação superior, o que mostra interesse pelos rumos dos cursos no País. O terceiro ponto de destaque são os clusters, os territórios e as regiões, ou microrregiões, com temas variados, tais como polos de artesanato em cidades turísticas, redes de cooperativas de reciclagem, ou da produção vitivinícola. Outro campo de investigação de interesse são os estudos sobre políticas públicas, pela necessidade de se buscar soluções no País e, por último, estão os estudos sobre grandes cadeias nacionais e internacionais.

Sob outro olhar verifica-se que os campos de pesquisa são divididos, em sua grande maioria, pela proximidade com as regiões em que se situam as instituições de Pós-Graduação que pesquisam o tema de redes. Por exemplo, pesquisas com redes formais de pequenas empresas predominam na região Sul, com instituições como a Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e a Universidade Federal de Santa Maria – UFSM; enquanto que pesquisas com redes informais, redes sociais e redes de cooperação aparecem no Sudeste, com instituições como a Universidade Paulista - UNIP e no Nordeste, com instituições como a Universidade Federal de Pernambuco - UFPE e Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN.

A profusão de campos investigados levanta a questão se não seria mais interessante, no sentido de geração de conhecimento, que houvesse repetição dos campos a cada turma de alunos. Os autores do presente artigo propõem que esta lógica de repetição facilitaria o desenvolvimento teórico e aprofundamento do conhecimento cronológico da evolução das redes, o que poderia contribuir para a consolidação da produção brasileira, com seus casos específicos.

6 Comentários finais

Revisões bibliográficas são importantes porque indicam o estado de desenvolvimento de um tema, nas suas teorias, metodologias e campos de investigação. Com a ascensão e valorização do tema de redes nas últimas décadas, nas suas várias expressões (de negócios, de políticas públicas, de cooperação, de ação social, entre outras) cresceu a produção acadêmica brasileira, o que ensejou trabalhos de revisões. Conforme se detalhou no texto, essas revisões mostraram que os pesquisadores brasileiros utilizam um amplo leque de teorias, concentram as metodologias em algumas classes específicas, como a descritiva e exploratória e utilizam predominantemente as entrevistas e os questionários nas técnicas de coleta.

O presente artigo buscou realizar o caminho de análise da literatura sobre redes na última década para buscar sinais de dominância, isto é, concentrações em teorias, metodologias e campos. A proposição orientadora é que nesta última década a produção brasileira está se organizando em torno de teorias e temáticas que indicam a formação de uma escola de pensamento nacional, uma posição brasileira sobre o tema de redes.

A resposta obtida é que o quadro não se alterou substancialmente, quando se compara com conclusões de trabalhos que realizaram o mesmo percurso. Continua a existir um amplo leque de teorias nos 95 trabalhos selecionados e predominam as metodologias qualitativas, exploratórias e descritivas, com coleta através de entrevistas e questionários. A afirmativa de uma organização de uma escola brasileira de pensamento, portanto, não se sustenta.

Estaria tudo como era antes, então? A primeira resposta é sim. O conjunto de evidências sobre a metodologia de conhecimento seguida pelos pesquisadores brasileiros é semelhante à encontrada em revisões anteriores. A segunda resposta é que existem algumas diferenças, que estão nos detalhes dos grupamentos e na ordem das frequências.

A primeira diferença é que o leque de teorias utilizadas se concentra nos princípios de teorias sociais de redes, diferente de revisões anteriores, que mostravam um leque de teorias com princípios mais racionais e econômicos, voltadas para estratégias e resultados. A segunda diferença está na ascensão de temas praticamente inexistentes em revisões anteriores, como os temas decorrentes da visão institucionalista e a queda de temas que eram dominantes, tais como estratégias e resultados. Os parágrafos seguintes discutem ponto a ponto esses itens.

O critério de seleção de revistas classificadas no Qualis Capes (A2) garante a qualidade dos artigos, no sentido de presença e explicação da teoria e metodologia utilizadas. O mesmo critério havia sido utilizado por Oliver e Ebers (1998) em revisão que é frequentemente citada como válida.

Sobre as teorias, conforme Parente (2004), a expressão redes apresenta polissemia de sentidos, organizados em duas grandes vertentes: (a) da rede como estrutura funcional, com componentes visíveis, tais como estruturas de relacionamentos, mapas de processos e contratos; (b) da rede como fluxos de comunicação, com códigos, sinais, símbolos; pouco acessíveis à observação direta.

O presente artigo indicou uma mudança quando se compara com conclusões de revisões anteriores (Oliver & Ebers, 1998; Halinen, 2005, Todeva, 2006), no que se refere ao predomínio da abordagem social atualmente. Este fato revela a valorização crescente dos fatores sociais nos processos das redes, enquanto que em décadas anteriores predominava uma visão mais racional e econômica. Os autores do presente artigo construíram duas linhas de interpretação sobre esse resultado:

(a) A literatura internacional sobre estratégias, racionalidade e economia das redes avançou substancialmente nos últimos vinte anos, incorporando e deslocando o foco da investigação para temas emergentes, tais como governança, cooperação, redes sociais e redes de políticas públicas, os quais podem ser adequadamente pesquisados com modelos sociais;

(b) O contexto social e econômico do País nos últimos dez anos, com planos de recuperação de territórios, especialmente no Nordeste, com programas de incentivos para formação de redes, como no Rio Grande do Sul e com centenas de iniciativas de ações cooperativas e sociais para grupos informais, como ocorre em São Paulo, determinam a escolha de paradigmas sociais de explicação e investigação.

Os autores defendem neste artigo que esses programas políticos e sociais, de desenvolvimento de regiões e de capacitação de grupos informais poderiam ser a marca da produção brasileira sobre redes, mas ainda não se encontram os sinais de alguma organização nesse sentido.

Apesar da concentração em abordagens mais sociais e da dominância de temas também mais sociais (como cooperação e governança), na parte de Metodologia a situação é a mesma há duas décadas, com o uso de estratégias qualitativas, descritivas e de estudo de caso, com entrevistas e questionários e técnicas de análise de conteúdo.

A questão epistemológica que se coloca neste ponto é: Essa dominância significa um estágio inicial de construção de conhecimento (Kuhn, 1975), ou indica a característica essencial do fenômeno, que não se traduz em generalizações? O ponto leva a discussão para dois caminhos: (a) Os estudos de redes ainda estão em fase exploratória no Brasil e as diversidades ainda não se conjugaram em eixos dominantes; (b) Os estudos de redes indicam que cada grupo tem sua identidade e especificidade, o que exige construções de afirmativas e modelos para cada caso, conforme preceitos da grounded theory.

Por outro lado, considerando a prática de pesquisa no Brasil, pode-se argumentar que os pesquisadores professores exercem outras atividades além da pesquisa, o que limita o seu tempo; e seus orientandos não tem o prazo suficiente para realizar trabalhos de acompanhamento, ou dominar técnicas mais refinadas de construção do conhecimento, como se exige na grounded theory, por exemplo. Além dessas condições, somam-se as exigências das revistas acadêmicas, com regras sobre obrigatoriedade de referência para as afirmativas dos autores, restringindo em parte a aceitação e divulgação de novas ideias. Conforme verificaram Barcelos, Eleutério e Giglio (2015) em 23 teses brasileiras dos últimos 15 anos não havia nenhuma contribuição teórica, que é o básico que se espera de uma tese. Será que doutorandos e orientadores são tão pobres de novas ideias, ou precisam e escolhem seguir os padrões de repetição?

Sobre os temas, há variedade conforme se vê na Tabela 4, mas se unirmos os temas relacionados ao modo, ou dinâmica dos grupos (relações + aprendizagem + governança + formação + capital social + cooperação) temos uma dominância de temas sociais (27), quando comparados ao tema de estrutura (18) e estratégia (12). Entender como funcionam as redes brasileiras, principalmente nas situações de comunidades (como nos povoados ao longo do Rio São Francisco), com pequenos empreendedores e informalidade, pode ser um caminho de constituição de uma marca brasileira de investigação. Essa característica mais brasileira aparece novamente nos campos de investigação, que, apesar da labilidade, concentram-se em pequenas empresas, em regiões específicas do Brasil. Existem alguns fenômenos que são tipicamente brasileiros, como as redes de catadores de material reciclável, que poderiam ser adotados como campos de investigação em vários programas e constituiriam uma agenda nacional de pesquisa.

Assim, a análise da produção acadêmica brasileira sobre redes no período de 2006 a 2016, com uma amostra de 95 artigos que estão em revistas qualificadas; mostra que temos fenômenos característicos, como as redes informais e os problemas sociais de pequenas comunidades; têm-se interesse nesses temas, conforme frequência verificada; temos até uma mudança de teorias valorizadas, tendendo para abordagens sociais, mas não se observa variações de metodologias de pesquisa, utilizando predominantemente das mesmas ferramentas de coleta – entrevistas e questionários – que são limitadas para criar análises de dinâmica de grupo.

Uma sugestão possível, mas de difícil operacionalização, seria que os programas de Pós-Graduação se organizassem de forma que seus alunos continuassem pesquisas iniciadas pelos alunos anteriores, não só na repetição de teorias, como ocorre cotidianamente, mas também nos temas e nos campos. Seria uma espécie de acompanhamento feito com distintos pesquisadores, diferente da situação atual, em que um pesquisador realiza uma coleta transversal e se fecha a pesquisa daquela rede. Nessa perspectiva seria possível acumular conhecimentos sobre determinados grupos e negócios, criando as condições para a emergência de novos conhecimentos.

Olhando para o outro lado, do mundo globalizado, nossa situação de produção acadêmica também se mostra estagnada. Uma leitura superficial dos temas específicos de grandes congressos internacionais, como o Academy of Management; mostra a valorização crescente de temas como redes globais, processos de influência de redes sociais no mundo, redes de cadeias globais de suprimentos, inovação em ações coletivas, enfim, toda uma agenda de fenômenos coletivos, coerentes e paralelos com os movimentos coletivos no mundo.

São fenômenos que criam esforços, afirmativas e modelos explicativos sobre redes globais de suprimentos (Gereffi & Lee, 2012); global policy networks (Lee & Kamradt-Scott, 2014); redes de logística reversa (Alamri, 2011); para citar alguns que são praticamente ausentes da produção brasileira sobre redes.

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Revista de Administração IMED, Passo Fundo, vol. 7, n. 1, p. 250-269, Jan.-Jun. 2017 - ISSN 2237-7956

[Recebido: Nov. 23, 2016; Aprovado: Maio 25, 2017]

DOI: http://dx.doi.org/10.18256/2237-7956/raimed.v7n1p250-269

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José Estevam Lopes Cortez da Silva Freitas

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