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A arquitetura enxaimel: identidade, memória e dimensão patrimonial em Itapiranga/SC

The enxaimel architecture: identity, memory, and patrimonial dimension in Itapiranga/SC

Douglas Orestes Franzen(1); Simone Eidt(2); Daniele Tessing(3)

1 Doutor em História pela UPF. Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Uceff. E-mail: douglas@uceff.edu.br

2 Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UNOESC. E-mail: obraprimaarquitetura@outlook.com

3 Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Uceff. E-mail: dany.tessing@hotmail.com

Resumo

A colonização Porto Novo, no Oeste de Santa Catarina, atualmente os municípios de Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis, foi fundada em 1926 para ser uma área de povoação germânica e católica. Idealizada pela Volksverein (Sociedade União Popular), recebeu famílias das antigas colônias alemãs do Sul do Brasil, bem como de imigrantes da Alemanha. Nesse núcleo étnico e confessional se desenvolveram padrões de cultura e de formas de vida que constituíram um prospecto de identidade, dentre os quais, o presente artigo pretende analisar as formas de edificação colonial, mais precisamente a arquitetura enxaimel. Para tanto, o texto parte de uma análise bibliográfica e de uma pesquisa empírica para compreender de que forma essa técnica arquitetônica se formatou nessa colonização e se apresenta no cenário atual, na perspectiva de problematizar os usos contemporâneos do enxaimel na arquitetura local.

Palavras-chave: Itapiranga. Enxaimel. Arquitetura colonial.

Abstract

Colonization Porto Novo, in the west of Santa Catarina, currently the municipalities of Itapiranga, São João do Oeste and Tunápolis, was founded in 1926 to be an area of Germanic and Catholic population. Idealized by the Volksverein (Popular Union Society) it received families of the former German colonies of the South of Brazil, as well as immigrants from Germany. In this ethnic and confessional nucleus, cultural patterns and life forms were developed, which constituted a prospect of identity, among which, the present article intends to analyze the forms of colonial edification, more precisely the enxaimel architecture. For this, the text starts from a bibliographical analysis and an empirical research to understand how this architectural technique was shaped in this colonization and presents itself in the current scenario, with the perspective of problematizing the contemporary uses of the half-timber in the local architecture.

Keywords: Itapiranga. Half-timbered. Colonial architecture.

Introdução

As colonizações alemãs manifestaram-se em diversas regiões do Brasil, mas tiveram uma considerável representatividade na Região Sul do Brasil, que somadas a outras colônias de origem europeia, formaram um mosaico cultural no território brasileiro. Esses imigrantes trouxeram para o Brasil manifestações de conhecimento, padrões de cultura e compreensões de vida que formaram uma base cultural consistente e diversificada. Formas de trabalho, compreensões de economia, manifestações de tradição e cultura que se ressignificaram em território brasileiro ajustando-se às necessidades e possibilidades de um novo território e uma nova dinâmica socioeconômica.

Uma dessas manifestações se expressou na prática de edificar. A construção de edificações com padrões arquitetônicos de origem europeia teve grande repercussão em território brasileiro, ajustando-se aos materiais e às condições de clima, formatando um padrão arquitetônico que aliou tradição e inovação. Uma dessas manifestações foi o a arquitetura enxaimel, conceito arquitetônico originário dos países germânicos da Europa e que teve relativa expressão nas colonizações do Sul do Brasil.

Para tanto, o texto busca compreender a colonização germânica Porto Novo, localizada no extremo oeste de Santa Catarina e as manifestações do enxaimel nessa região. A discussão se inicia com uma análise bibliográfica da concepção de identidade histórica das sociabilidades e padrões de cultura, abrangendo também uma caracterização do que se concebe como uma arquitetura colonial típica das regiões de colonização germânica. Da mesma forma, o texto analisa o enxaimel buscando caracterizar essa técnica construtiva desde suas origens europeias até a sua readaptação em território brasileiro. Para finalizar, parte-se para uma análise mais empírica das manifestações do enxaimel na colonização Porto Novo no intuito de mapear, caracterizar e fomentar uma prática patrimonial, bem como, compreender as manifestações contemporâneas dos usos da linguagem enxaimel, como tentativa de ressignificar uma identidade histórica e cultural.

A colonização Porto Novo: discussão sobre uma identidade histórica

O projeto de colonização Porto Novo foi idealizado pela Sociedade União Popular, denominada em alemão de Volksverein, instituição que coordenou a implantação de outras colônias alemãs no Rio Grande do Sul, vinculado aos Padres Jesuítas, com o objetivo de implantar no extremo oeste de Santa Catarina uma nova fronteira agrícola e social. O empreendimento foi financiado pela Cooperativa de Crédito Sparkasse, e fundado oficialmente no ano de 1926. Já no ano de 1928, a colonização recebeu o nome de Itapiranga, atual nome do município, gerando mais tarde a emancipação dos municípios de Tunápolis e São João do Oeste.

A Volksverein für die deutschen Katholiken von Rio Grande do Sul não era necessariamente uma empresa de colonização. Era, na verdade, uma entidade associativa fundada para dar assistência à população de descendência alemã e católica no Sul do Brasil. Essa associação chegou a ter no período da Primeira Guerra Mundial cerca de oito mil associados (VOGT; RADÜNZ, 2013).1

A característica do empreendimento Porto Novo era de aceitar somente migrantes que fossem de origem germânica e católica. Nesse sentido, famílias originárias das colônias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina compraram terras nessa colônia em busca de novas fronteiras agrícolas, onde as terras já estavam demasiadamente subdivididas e a fronteira agrícola esgotada (ROCHE, 1969). Da mesma forma, adquiriram terras em Porto Novo, imigrantes que fugiam das duras condições de vida em vilarejos europeus, expulsos pelas atrocidades da guerra, pela perseguição étnica-política, ou pelas péssimas condições de vida e de trabalho lá existentes.

Inicialmente a ideia da Sociedade União Popular era a de fundar uma colônia com essas características em solo gaúcho, mas tal empreendimento não foi visto com bons olhos pelo governo do Rio Grande do Sul, além do preço das terras serem muito altos. Outros empreendimentos com estas características já haviam sido postos em prática em solo gaúcho no final do século XIX, como, a colonização de Serro Azul (Cerro Largo). Outra iniciativa de colonização de caráter étnico foi a da região de Panambi, na colonização Neu-Württemberg, como podemos ver no estudo de Neumann (2009).

Nesse sentido, buscou-se a compra de um lote de terras em Santa Catarina, pois era de interesse do governo catarinense promover a ocupação daquele espaço, que diante das demandas históricas e territoriais exigia um processo de ocupação ordenado e sistematizado.

Sobre a decisão em relação à Colonização de Porto Novo, lemos o seguinte nos Anais da Reunião de Católicos de Porto Novo de 1934:

O projeto de uma povoação exclusiva para pessoas católicas de origem alemã, segundo o modelo da antiga colônia de Serro Azul, [...] não era novo para a Volksverein. [...] A Volksverein não via com bons olhos o fato de jovens agricultores gaúchos de origem alemã serem convencidos através de propaganda, a integrarem projetos de colonização que misturavam origem étnico-cultural ou confissão religiosa. A preocupação não estava baseada em intolerância racial ou religiosa. Única e exclusivamente a preocupação era com o bem estar espiritual e físico dos povoadores que migravam. Comunidade religiosa, escola, agremiações, mesmo associações com objetivos puramente de lazer, somente são possíveis de ser formadas e mantidas em um grupo com unidade cultural e religiosa. Mesmo que o colonizador, vivendo em meio a um grupo bem diverso, pudesse ter colheitas ricas, significaria sufocar no materialismo, basear suas decisões apenas no objetivo de alcançar ótimas colheitas. Este materialismo traria consequências devastadoras para as futuras gerações. [...] Por isso, a Sociedade União Popular dedicou especial atenção ao processo de formação de novas áreas de colonização. (ANAIS REUNIÃO CATÓLICOS DE PORTO NOVO, 1934, apud ROHDE 2011, p. 24).

O processo de migração/imigração é bastante complexo, envolve subjetividades e construção de vínculos trans-territoriais, onde a cultura, os padrões de vida, as redes simbólicas de sociabilidade se ressignificam pela transposição territorial, quando o ato de deixar uma região para se estabelecer em outra simboliza uma perda, mas também um ganho, uma nova vida, um novo desafio de construir um destino num novo espaço, muitas vezes inóspito e distante. Essa bagagem cultural e social dos migrantes adaptou-se ao meio, às limitações do isolamento percebido no período no extremo-oeste catarinense, fazendo com que os sujeitos construíssem uma nova identidade, com fortes traços herdados das colônias de origem, mas com uma nova dinâmica estrutural.

De maneira geral podemos sintetizar a origem dos colonizadores de Porto Novo sob duas perspectivas. A primeira das famílias imigrantes originárias da Alemanha e de colônias alemãs europeias como da região da Bessarábia, os Deutschrumänen, e do vale do Rio Danúbio na Iugoslávia, os Donauschwaben (JUNGBLUT, 2000). Essas famílias deixaram a Europa motivadas por questões econômicas, políticas e territoriais do cenário conturbado das décadas de 1920 e 1930, sendo significativo o número de imigrantes que se estabeleceram em Porto Novo, principalmente por intermédio de agenciadores e de influência dos padres jesuítas e da Volksverein nesses processos imigratórios. A segunda, composta de famílias descendentes da primeira geração de imigrantes alemães do século XIX que se estabeleceram nas colônias velhas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Essas famílias já estavam adaptadas ao território e ao clima brasileiro e deixaram suas regiões de origem motivadas principalmente pela questão fundiária e a degradação das relações produtivas, pela escassez de terras e limitações produtivas (ROCHE, 1969). Além disso, muitas famílias compraram terras em Porto Novo motivados pela propaganda de prosperidade, fartura territorial, de solo e de riqueza natural, além do atrativo étnico e cultural do catolicismo e da germanidade (MAYER, 2016).

Na concepção de Woortmann (1994) a migração de uma colônia velha para uma colônia nova seria um processo de dispersão que minimizaria a pressão demográfica nas primeiras, “fazendo com que o mesmo processo que produz a colônia nova reproduza a colônia velha” (WOORTMANN, 1994, p. 182). Ou seja, nesse processo migratório se reconfiguram conhecimento e vivências simbólicas que estruturam padrões de vida e de compreensões espaço-temporais.

Fato que se pretende destacar é de que havia uma intencionalidade conjectural em se formatar uma colonização homogênea étnica e cultural no local. Essa preocupação já vinha de longa data e o tema se acalorava entre lideranças católicas do Volksverein, elemento que se fundia na preocupação em constituir laços matrimoniais entre famílias católicas e alemãs, manutenção de costumes e tradições consideradas de índole cristã, relações comunitárias e sociais que conservassem padrões sociais tradicionais em oposição ao padrão moderno e heterogêneo então em voga no Brasil (WERLE, 2011). Essa preocupação com a homogeneidade étnica e confessional direcionou o desenvolvimento da colonização Porto Novo nas primeiras décadas, modelo que acabou caindo em desuso a partir da década de 1950. Mas é preciso destacar de que esse padrão germânico e católico foi determinante na formatação de um sistema cultural, elemento que constituiu a base de identidade germânica presente na cultura local e que se manifestou na produção arquitetônica que se pretende analisar.

A colonização Porto Novo foi organizada da forma que fossem vendidos lotes rurais, de aproximadamente 25 hectares. Para a ocupação do território foram planejados centros comunitários, onde se zelava pela construção de uma capela e de uma escola, e em alguns casos também foram abertas casas comerciais para abastecer as famílias com suprimentos. A partir desses núcleos comunitários que se irradiavam as linhas coloniais, onde se assentavam as propriedades agrícolas e as famílias que adquiriam um lote, elemento que se repetiu em grande parte das colonizações alemãs no Sul do Brasil. Da mesma forma idealizados núcleos urbanos, que se formataram mais tarde nas sedes dos municípios de Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis.

Imagem 01. Estado de Santa Catarina com destaque para a região da Colonização Porto Novo

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Fonte: Google Maps. Adaptado pelos autores, 2018.

A arquitetura colonial e a identidade germânica

Simbolicamente o projeto de colonização inseriu um padrão de sociedade no território. De maneira geral, os projetos de colonização implantados no Oeste de Santa Catarina foram coordenados por empresas de colonização que recebiam as terras por concessão do Estado ou através da compra de extensas faixas de terras que eram divididas em lotes coloniais para a venda às famílias colonizadoras. Nesse sentido diversos empreendimentos se formaram na região na primeira metade do século XX, orquestrados pelas empresas colonizadoras. A procedência dos colonizadores era diversa, mas há de se destacar a predominância de famílias provindas do Rio Grande do Sul. Esse processo de ocupação do território foi diverso, mas há alguns elementos de formação de nichos étnico-culturais de ascendência germânica, como, por exemplo, a colonização de Porto Feliz, atualmente município de Mondaí, que inicialmente fora idealizada para ser uma colonização de alemães de confissão evangélica sob coordenação da empresa Chapecó-Pepery e também na colonização do município de São Carlos, onde se instalaram diversas famílias de origem alemã bem como de teuto-russos na comunidade interiorana de Aguinhas. Esses nichos étnicos se formatam pela sociabilidade comunitária, pela influência familiar na aquisição de terras e pela identidade étnica-cultural.

Os bens materiais trazidos pelas famílias colonizadoras eram bem restritos pelas dificuldades de chegar à região, sendo a mudança limitada basicamente a bens e utensílios pessoais. A estruturação das propriedades despendeu um grande esforço além de abertura de estradas e consolidação dos centros comunitários. Na colonização de Porto Novo a abertura das estradas e a construção das escolas eram de responsabilidade da empresa colonizadora, mas em não poucas vezes as famílias tiveram que se dedicar para que essa infraestrutura se consolidasse.

Como atividade econômica inicial e obviamente como uma necessidade de ocupação do espaço, pode-se destacar a exploração da madeira muito vasta na região. A exploração da madeira movimentou um dos primeiros ciclos econômicos regionais fornecendo matéria prima para as edificações e para a comercialização. Esse ciclo econômico movimentou um capital financeiro considerável e colaborou enormemente na estruturação da economia regional (BAVARESCO, 2005). Além do potencial econômico, a exploração da madeira serviu de suporte para a constituição de um padrão arquitetônico local, principalmente residencial e de estruturação da propriedade como o paiol, o galpão e o estábulo. Grande parte das edificações construídas nas primeiras décadas eram feitas de madeira, principalmente com madeiras com durabilidade e qualidade para tal. A disseminação da arquitetura em alvenaria se popularizou mais a partir da década de 1950.

Essa existência de um capital financeiro é um elemento importante a considerar. Não queremos afirmar de que as famílias dos colonizadores possuíam vastas riquezas financeiras, mas também não se deve cair no erro de achar que as famílias eram pobres e desprovidas de capital. Tanto as famílias vindas da Europa como as famílias vindas das colônias velhas do Sul do Brasil, possuíam razoável capital financeiro, elementos estudados e contextualizados por Woortmann (1994) e Seyferth (1999). Um desses elementos, que serve de comprovação da existência um capital financeiro local, é a fundação de uma cooperativa de crédito, a Caixa Rural União Popular, primeira cooperativa de crédito do Estado de Santa Catarina. Esse capital financeiro movimentou a economia e estimulou o desenvolvimento local, acarretando a produção de uma arquitetura e de uma cultura edificatória.

Para o momento nos interessa a dimensão do patrimônio imaterial do colonizador, ou seja, seu conhecimento sobre edificações e ocupação do território. A migração para Porto Novo exigiu uma adequação das famílias às limitações e potencialidades do território, tanto na abertura das zonas de colonização e derrubada da mata, bem como a assimilação de um novo padrão de vida diante da realidade e dos recursos disponíveis. Isso formatou uma simbiose entre a personalidade do colonizador e a natureza local, formatando uma relação de complementaridade. Há de se destacar que para as famílias colonizadoras foram muito importantes os conhecimentos dos caboclos e posseiros que viviam na região, conhecedores dos recursos naturais locais.

Como migrante, o colonizador carrega consigo uma bagagem de conhecimento e de cultura acerca da tecnologia e dos sistemas construtivos. Esse conhecimento adquirido e assimilado na colônia de origem se reconfigura na nova paisagem, adequando-se as questões de relevo, de clima e disponibilidade de materiais. Nesse sentido a imigração da Alemanha para o Sul do Brasil é significativa, pois representa a transposição de valores e simbologias de uma realidade espaço-temporal para outra. Essa bagagem de cultura se manifestou na linguagem, em elementos de tradição, simbologias do cotidiano e evidentemente na forma de edificar.

O relativo isolamento da região nos primeiros anos de colonização provocou condicionamentos adaptativos. Uma multiplicidade de técnicas locais, geradas espontaneamente movia os pioneiros. Todas as famílias eram potencialmente produtoras de alimentos, objetos de trabalho, roupas, calçados, móveis e outros. A necessidade fez aflorar a criatividade das pessoas. Inventaram-se moinhos, prensas, rodas d´água, instrumentos de trabalho, cachaça, vinho, cerveja. Em cada família se gestava um cientista natural, um mecânico, um construtor, um sapateiro, uma costureira, um farmacêutico, uma parteira, um marceneiro.

Diante das deficiências estruturais do novo território, a preocupação inicial das famílias era constituir um abrigo. Isso pode explicar a singela ornamentação encontrada em grande parte das edificações mais antigas, elemento que pode ser explicado também pela escassez de materiais construtivos e também pela pouca mão de obra especializada. Assim, os exemplares mais antigos encontrados não carregam grandes riquezas em elementos de ornato, mas sim, uma linguagem simples e austera. Na medida em que a colonização se desenvolveu o componente arquitetônico se aprimorou e ampliou seu campo ornamental e estrutural.

Uma característica muito presente nas edificações históricas da região é a ocorrência das construções em formato de chalé, tipologia arquitetônica caracterizante da edificação alemã. Esse elemento representa uma transposição de um valor simbólico originário da Europa, onde a ocorrência da neve e do clima extremo exige uma cobertura mais verticalizada. Na colonização Porto Novo a técnica de edificar em chalé (Imagem 02) foi amplamente utilizada, oferecendo um pavimento superior para o uso doméstico como depósito ou dormitório, o que localmente é denominado em alemão de Speiger.

Imagem 02. Residência Família Wohlfart, localizada em Itapiranga, construída em 1935

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Fonte: Arquivo dos autores. Foto de 2013.

As edificações residenciais obedeciam à estrutura familiar, que nas primeiras décadas eram muito numerosas. Como uma exigência social e moral vigiada pela Igreja Católica, as famílias tinham muitos filhos o que demandava de maneira geral uma residência com muitos cômodos. Obviamente que a estrutura residencial estava atrelada as condições financeiras, mas não é raro encontrar edificações com requintes arquitetônicos e ornamentais que remetem a uma simbologia germânica. Talhas de madeira, ornamentos na fachada, nas aberturas e no trabalho do assoalho. O trabalho com a madeira desenvolveu técnicas construtivas e ornamentais muito presentes na paisagem edificada. Vários elementos podem ser elencados sobre a arquitetura residencial local, contexto que deve ser desenvolvido em outro momento.

Outros espaços também possuem características arquitetônicas que remetem a uma identidade histórica local. As igrejas pelo seu caráter simbólico e pela influência que o catolicismo desempenhou na formação da identidade, desenvolveram um conceito arquitetônico que se destaca na paisagem urbana e também nas linhas coloniais rurais. O templo religioso se materializou no cenário local como edificação representativa de um padrão de sociedade e de um ideal comunitário cristão. Sejam construídas em madeira ou em alvenaria, as formas variaram desde o neogótico ao enxaimel monumental, apresentando traços simbólicos da arquitetura religiosa que se materializa e se encontra presente como um potencial patrimonial.

Outro elemento de relevância arquitetônica e urbanística é a casa comercial. O comerciante, ou geschäftsmann, foi uma figura muito importante para o desenvolvimento econômico da colonização, pelo seu ofício econômico e de elo das cadeias produtivas locais, bem como, pela sua representatividade política. A casa comercial desempenhou um papel significativo no contexto de Porto Novo, desde seu potencial arquitetônico em madeira ou alvenaria, pela sua robustez edificada, além de representar um elemento relevante da formação urbana local. A casa comercial era parte importante do centro da vila urbana, de onde fluíam os tracejados das ruas secundárias e das linhas coloniais rurais, característica detectada em grande parte das regiões de colonização alemã no Sul do Brasil (WEIMER, 2005). Esse elemento dá um papel considerável para a atividade comercial no cenário da vila e da cidade e obviamente um protagonismo da edificação comercial na paisagem. Por isso a edificação apresentava elementos arquitetônicos diferenciados e mais requintados em comparação as demais edificações. Essa característica esteve atrelada ao poder econômico da família do comerciante e ao desenvolvimento da agricultura e do comércio no contexto local.

Para fins de delimitação contextual, consideramos a hipótese de que a arquitetura enxaimel de caráter residencial se desenvolveu preponderantemente no espaço rural. O espaço rural, a propriedade agrícola, era o espaço de vivência simbólica do agricultor e de sua família, que integrava elementos que compunham um cenário colonial, elemento muito importante para os agricultores, concebido em alemão como Hof, termo que não pode ser traduzido literalmente, mas que designa o conjunto de funções que identificam a sede de um estabelecimento agrícola, compondo-se da residência, das benfeitorias, da horta, do pomar e do pátio (WEIMER, 2005). Esse era o cenário que se desenhava em grande parte das propriedades e é uma herança cultural da imigração alemã.

A identidade cultural é uma marca ou sinal de uma determinada cultura e a memória de um grupo baseia-se, essencialmente, na afirmação de sua identidade. Em Itapiranga essa afirmação transcende na música, na arte, na dança, na língua e principalmente na arquitetura, resgatando a memória cultural e os costumes populares.

Síntese da arquitetura enxaimel: a relevância patrimonial

A técnica enxaimel, ou Fachwerk, é um padrão arquitetônico atribuído historicamente às regiões germânicas da Europa central. Segundo Weimer (2005) o Fachwerkbau designa um padrão construtivo centenário, originário da sociedade feudal, em que as paredes são estruturadas por um tramado de madeira onde as peças horizontais, verticais e inclinadas são encaixadas entre si em que os tramos são posteriormente preenchidos com taipa, adobe, pedra, tijolos, etc. O enxaimel original da Europa passou por processos de readaptação e reconfiguração ao longo dos tempos, reflexo da disponibilidade de recursos e das limitações na exploração da madeira para a construção civil. Paulatinamente foram agregados elementos estruturais, como blocos de pedra e no século XIX a alvenaria.

Os partidos gerais do enxaimel europeu são geralmente divididos em alemânico, franco e saxão, elementos que caracterizam a estética e as formas em que são estruturados os elementos. Não é nosso objetivo caracterizar cada uma dessas tipologias, para tanto indicamos a ampla literatura disponível, mas é preciso destacar de que o partido tem uma característica genuína onde o elemento da madeira desempenha um papel fundamental tanto na estrutura, quanto na composição telhado.

Imagem 03. Enxaimel Alemânico

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Fonte: Weimer, 2005.

A planta única é uma das características das edificações enxaimel, sendo as divisórias internas orquestradas em consonância com as pilastras de sustentação, principalmente nas edificações de maior porte. O elemento central se prostrava em torno do espalho do fogo, geralmente a cozinha, devido às condições climáticas europeias. Na região da Renânia, elemento que nos interessa mais para a análise desse artigo, o enxaimel não se desenvolveu exponencialmente como em outras regiões, devido às históricas turbulências de fronteira e de instabilidades econômicas. Portanto, o enxaimel em tipologia franca dessa região foi mais modesto e menos requintado do que o alemânico e o saxão.

Diversos elementos estruturantes compõe a arquitetura enxaimel como os baldrames, os frechais e as tesouras como componentes do telhado, a composição dos esteios e os barrotes para escoras da estrutura. O sistema de treliças que dá estabilidade à estrutura é um elemento caracterizante dessa técnica construtiva. O sistema alemânico (Imagem 03), por exemplo, é caracterizado por um afastamento maior dos esteios principais, o que exigia um vigamento horizontal maior. Diferentemente do sistema franco (Imagem 05), onde os esteios estão mais próximos e as escoras possuem leves ondulações. Os contraventamentos ocorrem nas três tipologias do enxaimel e oferecem maior estabilidade e rigidez à estrutura (GISLON, 2013). É importante destacar de que o enxaimel não é um estilo, mas sim, uma técnica construtiva.

Imagem 04. Enxaimel Anglo-Saxão

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Fonte: Weimer, 2005.

Para o momento queremos considerar o fato de que esse partido construtivo veio para o Brasil junto com os imigrantes e se manifestou em diversas regiões de colonização germânica. No entanto, é preciso ter ciência de que houve a necessidade da adaptação do sistema construtivo às limitações impostas pelo meio, pela disponibilidade de matéria prima e pelas exigências climáticas. Apesar da ocorrência do frio na Região Sul do Brasil, as altas temperaturas que também ali ocorrem exigiram novos processos arquitetônicos. O fogo e a cozinha como elemento centralizador do padrão europeu perderam relativa significância no Brasil, sendo inicialmente separado dos demais cômodos, principalmente nas colônias velhas. Mais tarde, com a introdução dos fogões esmaltados a cozinha se integra novamente à casa. Outra ocorrência foi a separação da casa do estábulo, do paiol e da oficina de trabalho do agricultor.

Imagem 05. Enxaimel Franco

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Fonte: Weimer, 2005.

Outro elemento agregado no Brasil foi a varanda, devido ao calor e a ocorrência das chuvas tropicais. As paredes da edificação enxaimel geralmente são estruturadas com os tijolos amostra, diferentemente da Alemanha, onde as paredes são preponderantemente caiadas.

É difícil, ou até impossível estabelecer uma tipologia da ocorrência do enxaimel na região de Porto Novo. Primeiro porque o fluxo migratório, apesar de homogêneo em alguns sentidos étnicos e culturais, foi originalmente bem diverso composto de imigrantes natos alemães e de descendentes de segunda ou terceira geração do século XIX. Segundo porque as técnicas construtivas tiveram que ser adaptadas a disponibilidade de materiais bem como a disponibilidade de recursos financeiros.

Mas é possível considerar a hipótese de que em Porto Novo há ocorrência considerável do enxaimel franco (Imagem 05). Consideramos essa perspectiva porque a bibliografia acerca da imigração alemã parece estabelecer um consenso de que grande parte dos imigrantes que se instalou no Brasil é originária da região chamada de Hunsrück, localizada na região Sudeste da Alemanha, no Estado Renânia-Palatinado nas proximidades dos rios Mosel e Reno, na divisa atual da Alemanha, França e Luxemburgo. Essa perspectiva se torna mais consistente se formos analisar o fato de que em Porto Novo o dialeto alemão Hunsrückisch é preponderante (RUSCHEINSKY, 2014), e pelo fato de que essa região da Alemanha ter uma influência muito forte do catolicismo-cristão, o que nos leva a concluir que muitos alemães e teuto-brasileiros que se instalaram em Porto Novo serem procedentes dessa região.

Resultados e discussões: manifestações do enxaimel em Itapiranga

Não há registros de arquitetos que tenham atuado nas edificações em enxaimel em Itapiranga. Aliás, essa ocorrência não pode ser detectada inclusive nas colônias velhas do Rio Grande do Sul (WEIMER, 2005). De maneira geral, a técnica de construção em enxaimel caracterizava-se por um ofício, aprendido através da experimentação e dos ensinamentos repassados entre as gerações. A técnica do enxaimel era um sistema construtivo dominado e aplicado por artesãos como pedreiros e carpinteiros, marceneiros e mestres de ofício, uma espécie de know-how.

Em Itapiranga há a ocorrência de diversas edificações construídas originalmente em enxaimel. De maneira geral, pode-se perceber esse elemento em outras cidades da margem catarinense do Rio Uruguai e que foram palcos de colonizações alemães, como em São João do Oeste, Mondaí e São Carlos. Para fins de análise, foram catalogadas algumas edificações em Itapiranga que apresentam características dessa técnica. Esse mapeamento foi desenvolvido ao longo dos últimos dez anos, sendo que muitas edificações já foram demolidas ou estão estado precário de conservação, o que fortalece o sentimento de urgência quanto a uma política patrimonial para essas edificações. Há de se registrar que podem existir outras edificações, que por ora não se incluem nessa análise.

As edificações registradas estão distribuídas no Quadro 01, com imagem e indicações de localização no município de Itapiranga. Na sequência há uma breve descrição de cada edificação:

Imagem 06. Indicação de localização de edificações enxaimel em Itapiranga

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Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

Quadro 01. Edificações enxaimel do município de Itapiranga

Residência

Localização

Ano de construção

Situação

Residência Schoenhals

Linha Sede Capela

1928

Conservada pela família

Residência Poelking

Linha Sede Capela

1932

Demolida em 2016

Residência Werlang

Cidade Itapiranga

1936

Conservada pela família

Residência Neiss

Linha Chapéu

1937

Conservada pela família

Igreja São Rafael

Linha Popi

1952

Conservada pela comunidade católica

Residência Kummer

Linha Popi

1956

Conservada pela família

Residência Konrad

Linha Beleza

1960

Demolida em 2013

Residência Sítio Tio Albano

Linha Beleza

1960

Conservada pela família

Residência Royer

Linha Beleza

-

A residência foi reconstruída em 2012, sendo originária do Rio Grande do Sul.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Ao analisar as edificações elencadas no Quadro 01, podemos perceber que a maioria das edificações foram construídas antes década de 1950. A partir de então a região experimentou uma forte influência modernista no padrão arquitetônico, estimulando o desuso dos padrões germânicos e coloniais. É importante também perceber de que não há registro nesse quadro de edificações construídas na comunidade de Linha Presidente Becker, que historicamente representou um reduto de imigrantes vindos diretamente da Alemanha (MAYER; NEUMANN, 2016), sendo necessária uma análise futura mais detalhada desse aspecto. Nesse sentido, é importante destacar de que as edificações enxaimel registradas em Itapiranga nessa análise foram construídas por famílias originárias das colônias velhas do Rio Grande do Sul, o que representa um partido arquitetônico ressignificado e remodelado no Brasil.

Outro elemento a destacar é de que somente uma das edificações está localizada na cidade de Itapiranga, sendo que o restante está localizada na área rural do município, o que fortalece a ideia de que o enxaimel se manifestou no Brasil preponderantemente em áreas rurais. No entanto, é preciso considerar que nos primórdios da colonização a localidade de Sede Capela foi idealizada para ser uma das sedes da colonização. Em virtude da disputa por poder e preponderância urbana, Itapiranga acabou se tornando a sede da colonização e posteriormente centro de desenvolvimento urbano.

A ocorrência do enxaimel genuíno, de maneira geral, caiu em desuso a partir da década de 1960. Podemos considerar que esse padrão de edificação não foi mais utilizado diante da popularização do estilo modernista e da proliferação das edificações construídas em alvenaria. Recentemente constata-se a utilização da linguagem enxaimel em edificações comerciais, principalmente como elemento ornamental e de composição da fachada.

Uma leitura crítica dos usos contemporâneos da linguagem enxaimel

Na atualidade se percebe no cenário urbano uma referência arquitetônica à linguagem enxaimel através de proliferação de novas edificações que recebem um arranjo ornamental vinculado a essa linguagem. Diversos empreendimentos, principalmente de caráter empresarial, buscam recriar nas fachadas das edificações uma simbologia enxaimel na tentativa de constituir uma vinculação à cultura germânica. Pórticos e monumentos de memória que fazem uso dessa linguagem, também estão presentes em diversas cidades da região. Sabemos que em Itapiranga a cultura germânica é consistente e se mantém viva através de práticas culturais e de memória. Nesse sentido, as iniciativas empreendedoras percebem nessa aproximação com o enxaimel uma oportunidade de vincular empreendimento comercial com uma identidade que carece de uma reflexão de simbologia arquitetônica.

A Lei Orgânica Municipal de Itapiranga (2013), em seu Artigo 110, faz referência ao estímulo para a construção de novas edificações que façam referência ao “estilo enxaimel”, estipulando inclusive isenção de IPTU a esses empreendimentos. A questão preocupante nesse sentido é de que a Lei não faz nenhuma referência a questões técnicas ou estruturais, o que consequentemente abre brechas para interpretações difusas e desconexas acerca desse elemento arquitetônico. Nesse sentido, a referida Lei também peca ao denominar o enxaimel como um estilo, aspecto que carece de uma discussão mais aprofundada. Enquanto isso, as residências enxaimel construídas nos primórdios da colonização necessitam de uma política preservacionista e de inciativas patrimoniais, estando à mercê da degradação, do esforço e da vontade das famílias proprietárias em conservar essas edificações. Para essas edificações, de caráter patrimonial evidente, não se percebe iniciativas do poder público em instaurar políticas de fomento de aprimoramento da perspectiva patrimonial arquitetônica.

Essa não é uma condição exclusiva de Itapiranga. Conforme Veiga (2013), em Blumenau e Joinville essa prática se tornou perceptível através de um esforço em ressignificar o cenário urbano das cidades através do desejo de construir um vínculo cultural e histórico visando estimular o turismo. Veiga (2013) chama esse padrão arquitetônico de neo-enxaimel, o que segundo ele, seria uma falsa arquitetura típica, sendo que para sua implantação não houve qualquer comprometimento histórico, resultando em uma arquitetura inautêntica, devido ao seu caráter comercial.

Imagem 07. Edificações em referência à linguagem enxaimel: Complexo da Oktoberfest (A) e Edifício Rádio Peperi (B)

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Fonte: Arquivo dos autores, 2017.

Em Itapiranga se percebe uma referência à linguagem arquitetônica que pode ser percebido em edificações privadas e públicas, como é o caso do Complexo da Oktoberfest, por exemplo. Essa realidade pode ser compreendida numa dinâmica de mercado, aliando necessidades de perspectiva arquitetônica e de possibilidades orçamentárias. É necessário assinalar sobre os perigos dos falsos artísticos, parafraseando Brandi (2004), no sentido de que se vulgarize a arquitetura enxaimel, negligenciando as edificações com real potencial patrimonial que carecem de políticas de estímulo e de valorização.

Para além dessa discussão acerca da conservação das edificações históricas, é possível adentrar no debate sobre os usos mais coerentes do enxaimel numa dimensão de arquitetura contemporânea. Obviamente que esse elemento necessita de um debate mais ampliado em outro momento, mas é importante destacar de que atualmente se possui diversas possibilidades arquitetônicas que fazem uso da técnica ou da linguagem enxaimel para a edificação de estruturas numa perspectiva mais contemporânea, através do uso de materiais e técnicas construtivas e composições disponíveis para a arquitetura do século XXI. Essas possibilidades contemporâneas podem ser desenvolvidas em edificações bem como em mobiliários.

Nesse sentido, destacamos os estudos da arquiteta Angelina Wittmann, que pesquisa os elementos históricos e contemporâneos do enxaimel. Na Imagem 08 podemos perceber uma edificação enxaimel construída na Alemanha, que na sua composição utiliza a estrutural do enxaimel e para o preenchimento faz uso do vidro numa referência à arquitetura contemporânea.

Imagem 08. Edificação em enxaimel com preenchimento em vidro.

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Fonte: Wittman, 2016.

Este seria apenas um dos exemplos do uso da técnica tradicional aliada a uma arquitetura contemporânea. O enxaimel possui muitas vantagens: possibilita ser montada rapidamente, podendo ser desmanchada e reconstruída em outro espaço. Resiste a abalos sísmicos e permite sua restauração por completo, perdurando por gerações. Da mesma forma, a cada geração poderá ser personalizada com novos materiais de acabamento, permitindo a adaptação ao meio e ao estilo de vida do usuário. Os vãos de seu entrelaçado de madeira podem ser preenchidos com materiais como vidros, madeira, MDF, espelhos, gesso, tijolos, entre tantos outros materiais novos que chegam ao mercado todos os anos. Além disso, dentre cada um dos ítens destacados ainda existe uma diversidade incontável de texturas ou formas de aplicações.

Outro fator que levou o enxaimel ao desuso foi pelo fato de seus exemplares sempre remeterem a algo tradicional, quando, na verdade, o seu layout e sua aparência podem estar sendo modernizados. O enxaimel pode ser comparado como qualquer outra estrutura convencional, que obedece às normas e cálculos estruturais. Há possibilidade de transpor qualquer projeto moderno para dentro da técnica construtiva enxaimel, como por exemplo, fazer grandes aberturas, estruturar o pé direito alto (Imagem 09), ambientes maiores e personalizados, acabamentos e preenchimentos inovadores.

Imagem 09. Edificação enxaimel moderna, adaptada às necessidades de espaços amplos, pé direito duplo e aberturas maiores.

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Fonte: Volles, 2011.

Por ser uma técnica construtiva centenária, há o equívoco de se pensar que o enxaimel precisa seguir aquele simples layout, fachada simétrica, ambientes e aberturas subdimensionadas. Esse aspecto tradicional, predominante de uma época, também é apreciado e replicado como valor simbólico de memória e de patrimônio. Mas a técnica enxaimel pode ser adaptada conforme as novas necessidades, além de transmitir elegância e personalidade. Dessa forma adentramos na polêmica discussão sobre a remoção das edificações de seu espaço original, onde se encontram ameaçadas pela depredação, para outro local, onde possam receber um tratamento restaurativo. Retirar uma edificação de seu contexto histórico territorial pode representar um erro para muitos, mas consideramos de extrema necessidade essa hipótese diante da vulnerabilidade dessas edificações históricas, como vimos ao longo desse texto. Otimizar e incorporar as edificações históricas na paisagem local representa um desafio, que pretende não inserir o enxaimel no mercado meramente como um produto, mas fomentar a discussão e a prática construtiva do enxaimel autêntico, condenando os falsos artísticos e arquitetônicos.

Portanto, o que se pretende é problematizar a utilização da linguagem enxaimel meramente como componente ornamental, como se têm percebido recorrentemente em Itapiranga. Dessa forma, se propõe debates futuros sobre a sua relevância arquitetônica e da necessidade de ressignificar essa técnica construtiva evitando dessa forma se perca a originalidade e a gênese histórica dessa técnica construtiva tão significativa para a história da colonização germânica no Brasil.

Considerações Finais

A proposta do texto buscou compreender a dinâmica da arquitetura colonial na região de Itapiranga, espaço que foi palco de uma colonização germânica. Diante dessa realidade histórica, pretendeu-se tecer uma análise da representatividade da arquitetura enxaimel como uma técnica construtiva herdada dos imigrantes alemães. Defende-se ser importante haver uma preocupação com as manifestações do enxaimel em Itapiranga, pelo seu potencial patrimonial e de relevância histórica. Da mesma forma, se vê com preocupação a disseminação de utilização de elementos ornamentais em edificações contemporâneas fazendo referência a linguagem a essa técnica construtiva.

A proposta do texto foi de fomentar um debate sobre a dimensão histórica e patrimonial da arquitetura enxaimel em Itapiranga. Num contexto em que se discutem alternativas de desenvolvimento para uma região, principalmente através do estímulo ao turismo histórico e cultural, a valorização da riqueza patrimonial e arquitetônica seria um dos elementos fundamentais para a constituição de um turismo consciente e histórico e com significado simbólico.

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Revista de Arquitetura IMED, Passo Fundo, vol. 7, n. 1, p. 5-27, Jan.-Jun., 2018 - ISSN 2318-1109

[Recebido: 21 março 2018; Aceito: 19 julho 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2318-1109.2018.v7i1.2558

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