1852

A escolha do novo uso de espaços expositivos em prédios históricos: vantagens e desvantagens para a conservação das edificações

The choice of the new use of exhibition rooms in historic buildings: advantages and disadvantages for the conservation of buildings

Mariana Estima Silva(1), Ariela da Silva Torres(2), Isabel Tourinho Salamoni(3)

1 Arquiteta e Urbanista, Mestranda do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas. E-mail: estimasilva.m@gmail.com

2 Professora Doutora em Engenharia Civil. E-mail: arielatorres@gmail.com

3 Professora Doutora em Engenharia Civil. E-mail: isalamoni@gmail.com

Resumo

A reciclagem de edificações históricas para novos usos é, com certeza, uma forma eficaz de garantir sua conservação. Dessa forma o prédio é utilizado diariamente, garantindo a manutenção e prevenção de problemas. O reuso de prédios históricos por salas de exposições, apesar de cada vez mais frequente na cultura do Brasil, é um tema cercado de polêmicas. Espaços museológicos exigem parâmetros ambientais capazes de conservar seus acervos. Enquanto isso, a construção histórica, já aclimatada às condições ambientais em seu interior, pode ter seus materiais construtivos prejudicados por uma mudança do seu microclima. No intuito de engrandecer as contribuições de trabalhos que abordam este tema, o presente artigo, parte de uma dissertação, tem por objetivo promover uma reflexão quanto à escolha do novo uso de espaços expositivos, através de uma revisão teórica. Além disto, realizou-se o levantamento de três edificações tombadas, que receberam o novo uso de salas de exposições, na cidade de Pelotas-RS, durante 12 meses, a fim de exemplificar tal revisão. Com a revisão de trabalhos publicados nacional e internacionalmente, o estudo contribuiu para uma visão esclarecedora dos aspectos positivos e negativos dos museus em prédios de valor histórico. Em muitos casos, a escolha é equivocada, não permitindo alcançar os objetivos da reciclagem. Com as análises realizadas nas edificações, concluiu-se que existe a necessidade de estudos prévios no interior dos ambientes, relacionados à potencialidade para o novo uso e às necessidades e realidades econômicas deste processo, a fim de minimizar os efeitos negativos desta escolha sobre os prédios históricos.

Palavras-chave: Novos usos. Manutenção. Edificações históricas. Espaços Expositivos.

Abstract

The retrofit of historic buildings for new uses is, of course, an effective way to guarantee their conservation. With this process, the building is used daily, guaranteeing the maintenance and prevention of damages. The reuse of historic buildings by exhibition rooms is a subject surrounded by controversy. Despite being frequent in the current Brazilian culture. Museum spaces require environmental parameters capable of preserving their collections. Meanwhile, historic buildings may have their building materials damaged by a change in microclimate, considered ideal for the exposed materials. In order to enhance the contributions of papers that address this theme, the present paper, part of a dissertation, aims to promote a reflection on the choice of the new use of exhibition spaces, through a theoretical revision. In addition, a survey was carried out of three heritage buildings, which received the new use of exhibition rooms in the city of Pelotas, RS, for 12 months, in order to exemplify such a review. With the review of works published nationally and internationally, the study contributed to view of the positive and negative aspects of the installation of museums in buildings of historical value. In many cases, the choice is wrong, failing to achieve the goals of retrofit. With the analysis made in the buildings, it was concluded that there is a need for previous studies about microclimate inside the environments. These studies should be related to the potentiality for the new use and to the economic needs and realities of this process. Thus, it is possible to minimize the negative effects of this choice on historical buildings.

Keywords: New uses. Maintenance. Historical buildings. Exhibition rooms.

Introdução

A crescente abordagem do tema do patrimônio histórico, por diferentes áreas de estudo, tem proporcionado importantes contribuições para a conservação de prédios com valor histórico. Pois, dessa forma, as edificações contam com tratamento adequado em seus aspectos construtivos, formais e até mesmo simbólicos já que referem-se ao legado de uma sociedade.

Ao tratar de preservação do patrimônio histórico é preciso conhecer certos conceitos básicos, como o da própria preservação. Esse conceito abrange todas as medidas relativas a conservação do patrimônio, não apenas no âmbito das edificações (RABELLO, 2009). Entretanto, como este trabalho é direcionado à conservação de prédios de valor histórico, apenas os conceitos ligados à arquitetura serão abordados.

A conservação é uma maneira de realizar a preservação de um imóvel, podendo ser definida como as medidas preventivas que mantém a integridade deste bem, através de análises periódicas. Esse conceito é diferente da restauração, pois esta é uma medida invasiva, através de intervenção física, devendo ser aplicada apenas em casos extremos (CHAGAS; NASCIMENTO JÚNIOR, 2009).

Como medidas jurídicas de preservação, podem ser citados o tombamento e o inventário. Na primeira alternativa, o direito à propriedade é restrito, visto que o proprietário não pode realizar nenhum tipo de alteração no interior ou exterior da edificação, sem a permissão do órgão responsável pelo patrimônio histórico. Já no inventário, apenas as características externas devem ser mantidas, como volumetria e fachada, visto que a edificação faz parte de um conjunto histórico catalogado (SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA, 2008).

Sendo assim, é correto afirmar que manter as edificações históricas em uso é uma forma eficaz de realizar sua preservação. Isto pelo fato da conservação preventiva poder ser realizada de maneira periódica, com a utilização diária do prédio. Porém, em muitos casos, o uso original da edificação deixa de ser compatível com as necessidades da sociedade, tornando-se difícil garantir sua utilização (JACOBS, 2009; GUERRA, 2012).

O processo de reciclagem de prédios históricos é outro conceito relacionado à preservação. Essa alternativa está ligada à restauração de edificações, cuidando de suas características formais e construtivas, juntamente com uma adaptação para receber um novo uso. Dentro desta adaptação, estão inseridas as questões referentes às características de conforto ambiental, ergonomia e acessibilidade para seus novos usuários. Dessa forma, é possível garantir que o prédio continue em utilização (RODRIGUES, 2012).

Apesar disso, é preciso que o novo uso, ao qual uma edificação será submetida, faça referência ao seu potencial, para que dessa forma o prédio possa ter sua conservação garantida. Sendo assim, estudos no âmbito de novos usos em edificações históricas são de grande valia, pois permitem atribuir usos que contribuam para sua preservação (AYKALL, 2011; MUNARIM, 2014).

O novo uso de espaços culturais, destinados às exposições, tem sido muito difundido no Brasil. Contudo, apensar de garantir a utilização da edificação e, portanto, sua conservação, este novo uso acaba sendo muito controverso. Muitos profissionais da museologia consideram que escolhendo prédios históricos para o uso de museus, torna-se difícil garantir a conservação dos acervos. Em contrapartida, com más condições de utilização a reciclagem torna-se inútil, visto que não se garante as condições de conservação dos prédios (PASCARELLI, 2005; RIBEIRO; LOMARDO, 2014).

Por ser crescente o número de prédios históricos e tombados utilizados como espaços culturais no Brasil, e sabendo das necessidades ambientais exigidas para peças de acervo, é preciso saber até onde o novo uso de museus e espaços expositivos contribui para a conservação de prédios históricos tombados.

No intuito de contribuir para a maior abrangência deste tópico, o presente artigo tem como objetivo abordar o tema do reciclagem de prédios históricos em espaços expositivos, proporcionando uma reflexão quanto à conservação das edificações quando escolhido este uso.

A fim de proporcionar esta reflexão acerca do tema foi realizada a revisão bibliográfica: apresentando o histórico da reciclagem e do novo uso de espaços expositivos em prédios históricos; as necessidades básicas para conservação de acervos nestes espaços; bem como, sua influência sob o estado de conservação dos prédios.

Após esta revisão, no intuito de aproximar o problema de pesquisa à cidade de Pelotas, empreendeu-se também uma análise da situação atual, no âmbito de uso, visitação e estado de conservação, de três prédios históricos que passaram por restauro e receberam o novo uso de espaços expositivos. Durante doze meses foram realizadas visitas mensais às edificações escolhidas, verificando sua utilização, visitação e estado de conservação. Através de anotações e levantamento fotográfico foi possível realizar a análise, relacionada aos aspectos positivos e negativos, do novo uso de sala de exposições nos três prédios analisados.

Novos usos em prédios históricos

A partir de meados da década de 1930, pode-se dizer que ocorreu um incentivo à utilização de prédios históricos por usos diferentes dos originais, a fim de confirmar as doutrinas de restauro da época. Na Europa principalmente, houve um crescente processo de revitalização de construções históricas com ênfase na adaptação para novos usos, isso pelo fato de o turismo despontar como um grande incentivador econômico na época. A necessidade de conservar o vasto exemplar de prédios com valor histórico foi a justificativa principal para o aumento de processos de reciclagem nessas construções (RODRIGUES, 2012).

Sendo assim, estudos relacionados a novos usos em edificações históricas não são recentes. Gorski (2003), Dias (2005) e Heidtmann (2007), abordaram temas relacionados à reciclagem e adaptação a novos usos como meio de preservação de prédios com valor histórico em suas dissertações. Ribeiro (2005), em seu artigo “Arquitetura: restauração e reciclagem”, também reflete sobre os mesmos temas.

Para Heidtmann (2007), adaptar prédios históricos para usos condizentes com as necessidades da sociedade é uma opção eficaz, porém é também um problema de arquitetura. Isto porque não é possível analisar apenas as estratégias de preservação das características formais e culturais, mas também a conservação dos materiais construtivos do prédio. Gorski (2003), resumindo a afirmativa anterior, assegura que tão importante quanto decidir preservar uma edificação, está a decisão de qual uso destinar a ela.

Dias (2005) conclui que existem diferentes aspectos responsáveis pela preservação de prédios históricos, são eles o conhecimento histórico e técnico, o suporte legal e financeiro e a participação popular. Gorski (2003) acrescenta a esta ideia o fato de que a própria população demonstra interesse em novas técnicas e métodos de intervenção em edificações existentes. Ribeiro (2005) explica o fato de a participação popular ser crescente, por vivermos em uma época de uso consciente de recursos naturais e matéria prima. Sendo assim, a busca pela reciclagem de edifícios é também a busca pela economia e simplificação dos processos.

A importância da reciclagem de edificações está então na diminuição de impactos ao meio ambiente e na valorização do patrimônio histórico. Os impactos são minimizados já que deixa-se de demolir prédios existentes para viabilizar construções novas, diminuindo a extração de matéria prima e geração de resíduos. O valor cultural é alcançado pela reinserção dessas edificações no contexto atual, valorizando-as por sua importância histórica e integrando a sociedade neste processo.

Uso de espaços expositivos em prédios históricos

Exemplos de edificações históricas com novos usos podem ser encontradas no mundo todo. Por este artigo dar ênfase ao novo uso de espaços expositivos em prédios históricos, foram citados exemplos destas adaptações.

Um grande ícone da reutilização de prédios históricos por este novo uso é o Museu do Louvre (Figura 1), em Paris. O prédio, construído para abrigar um palácio, é hoje um dos mais importantes museus do mundo. Um aspecto importante foi a incorporação de um volume totalmente transparente e moderno, a Pirâmide de Vidro, na década de 1980, modificando o acesso ao museu. Essa adaptação, realizada no prédio já reciclado, ocorreu dentro de um processo de renovação urbana idealizado pelo governo da época, a fim de aproximar a sociedade dos espaços culturais (RODRIGUES, 2012).

Figura 1. Museu do Louvre, com destaque para a Pirâmide de Vidro.

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Fonte: FABUROUS, 2014.

O Museu Rainha Sofia (Figura 2), em Madri, é outro exemplo importante. A edificação, datada do século XVIII, foi construída para abrigar um importante hospital da cidade. Após inúmeras intervenções, o prédio recebeu o uso de museu. Em meados dos anos 2000, o arquiteto Jean Nouvel foi o responsável pelo projeto de expansão do prédio, com uma intervenção inovadora. O novo volume precisou ser projetado visto que novas demandas surgiram, não podendo ser alcançadas somente com o prédio principal, em razão de medidas preservacionistas e limitações construtivas. Essas demandas estavam associadas com o aumento do número de coleções e serviços relacionados a elas, bem como o crescimento do número de visitantes, aproveitando a adaptação para também inserir o prédio no contexto social de seu entorno (RODRIGUES, 2012).

Figura 2. Fachada do Museu Rainha Sofia, com parte do projeto de expansão

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Fonte: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2016.

Como exemplo brasileiro, além de muitos outros, pode-se citar a Pinacoteca do Estado de São Paulo (Figura 3). O prédio neoclássico, construído no século XIX como Liceu de Artes e Ofícios, passou por processo de reciclagem para o novo uso museológico em 1990, com projeto de Paulo Mendes da Rocha. Após a reforma, também em um processo de revitalização urbana da área central da cidade, o prédio passou a apresentar características modernas. Na reciclagem, a estrutura de alvenaria autoportante foi valorizada, juntamente com a qualificação das características técnicas necessárias para exposições. Foram instalados elevadores, coberturas de vidro nos pátios internos, adequação de instalações elétricas e projeto de iluminação apropriado (MÜLLER, F., 2000; PINACOTECA..., 2016).

Figura 3. Fachada da Pinacoteca, São Paulo.

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Fonte: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2016.

A utilização de prédios históricos por museus ocorreu essencialmente na Europa, a partir da segunda metade do século XX, principalmente após a publicação da Carta de Atenas, que trouxe à tona questões de conservação e restauro. Nesse período, os arquitetos italianos tiveram grande importância, por meio de doutrinas contemporâneas de requalificação de espaços pré-existentes para uso de museus. Nos Estados Unidos esse processo começou no final da década de 70, por parte dos próprios artistas, que buscavam locais diferentes para expor suas obras de arte.

Em Portugal, grande parte dos espaços museológicos encontra-se hoje em edificações que foram construídas para outros usos. No mencionado país, apenas 10% dos museus estão instalados em prédios construídos para este fim (BARRANHA, 2012). Esta situação vem ocorrendo de forma muito similar no Brasil, onde, segundo trabalho elaborado por Ribeiro e Lomardo (2014), a maior parte dos museus brasileiros encontra-se em edificações pré-existentes.

Entretanto, no decorrer dos anos, problemas relacionados à utilização de prédios históricos por espaços expositivos foram sendo levantados. Problemas estes associados tanto às necessidades do uso, quanto com às necessidades de conservação do prédio. Sendo assim, é preciso encontrar alternativas para “compatibilizar as possibilidades do edifício existente com as necessidades que o uso museológico requer, e que estão em constante desenvolvimento” (RIBEIRO; LOMARDO, 2014, p. 273).

Para abordar este tema com maior profundidade, podem ser citados Barranha (2012), que menciona em seu artigo “Os museus como requalificação do patrimônio” os efeitos positivos e negativos deste uso; Rodrigues (2012), que formulou sua dissertação em arquitetura voltada para o mesmo tema, discorrendo sobre o uso de centros de arte em prédios históricos; e Pascarelli (2005), em artigo publicado nos anais do 1º Seminário Internacional de Museografia e Arquitetura de Museus.

Para Rodrigues (2012), inserir os museus em prédios históricos pré-existentes ocorreu, principalmente, por uma necessidade de incluir a museologia na cultura da sociedade. Ainda segundo a autora, ao utilizar um local já inserido no dia-a-dia da população, sua aceitação pela mesma se torna quase imediata. Além disso, o restauro da construção torna-se outra consequência positiva deste processo.

No entanto, além das questões positivas, as intervenções realizadas para reabilitação de prédios históricos em espaços expositivos são também muito complexas. Os programas museológicos têm se tornado cada vez mais exigentes, necessitando de flexibilidade e espaço para os diversos tipos de exposições. Sendo assim, como mostrado nos exemplos anteriores, muitos museus em edificações tombadas necessitam da adição de volumes anexos, a fim de alcançar as condições que não são viáveis nestes imóveis (BARRANHA, 2012).

No mesmo sentido, Pascarelli (2005) afirma que atribuir o uso de museu em prédios históricos sem prévio estudo e análise das condições ambientais do espaço, pode tornar-se um grande gasto no futuro. Sediar exposições é uma tarefa complexa e demanda conhecimentos técnicos específicos, e quando são ignoradas estas questões, os espaços passam a dispersar recursos em situações de consertos e reparos. O autor acredita que esses fatos ocorrem devido a políticas mal elaboradas, que consideram qualquer edificação histórica capaz de abrigar um espaço expositivo. Os parâmetros necessários para abrigar salas de exposição são estipulados por normas e estudos sobre o tema, sendo de grande importância na instalação de museus para a conservação dos acervos expositivos.

Parâmetros ambientais para acervos e sua influência na conservação das edificações

Diversos trabalhos vêm sendo publicados a respeito de parâmetros ambientais em museus. Neste tópico, o tema é tratado junto às questões de conservação das construções, a fim de refletir o quanto as transformações do microclima interno podem influenciar no processo de manutenção de edificações históricas.

Oliveira (2014) elaborou um trabalho sobre a necessidade de monitoramento de prédios de museus, para realização de controle climático para acervos. Assim como Ribeiro e Lomardo (2014), que investigaram as questões ligadas ao conforto ambiental no interior de espaços expositivos e sua relação com o ambiente externo. E, de extrema importância para este cenário, está o trabalho de Michalski (2016), que aborda a evolução dos aspectos de condições de conservação de acervo ao longo dos anos.

Relacionando estas questões com as necessidades das edificações históricas, está o trabalho de Silva e Henriques (2014), que averiguaram as interferências de modificações do microclima de edificações históricas no estado de conservação dos materiais.

Para Ribeiro e Lomardo (2014) o acervo é a parte mais importante de um espaço de exposições, e a arquitetura é a responsável pelas condições de conservação do mesmo, através da criação do ambiente climático.

Michalski (2016) esclarece que existem níveis mínimos e máximos para os parâmetros ambientais que afetam as características do acervo. Afirma ainda, que estes valores hoje obedecem as publicações de International Institue for Conservation Historic and Artistic Works. Este instituto estabeleceu parâmetros de temperatura e umidade relativa do ar capazes, e necessários, de serem alcançados em diversos ambientes de exposições, considerando os diferentes climas e características construtivas mundiais.

Para alcançar estas condições, Oliveira (2014) propõe um monitoramento do clima externo e do microclima interno. Posteriormente, ambos devem ser relacionados, possibilitando o controle dos parâmetros ambientais, de maneira que sejam obedecidos os níveis ideais para conservação de acervo. Para o autor, os principais dados meteorológicos que afetam a edificação são: temperatura, umidade relativa do ar, ventos e precipitantes. Ao saber como se comportam esses elementos do lado externo e interno da edificação, é possível modificar para as condições desejadas através de equipamentos, como: desumidificadores, ar condicionado e iluminação artificial.

Com o intuito de alcançar os mencionados parâmetros ambientais considerados ideais para conservação de acervos, os prédios são muitas vezes isolados do clima externo, com fechamento de aberturas e instalação de equipamentos (RIBEIRO; LOMARDO, 2014). Estas medidas, além de proporcionarem um aumento do gasto de energia e a modificação do microclima interno das edificações, pode ocasionar diversos problemas aos materiais construtivos.

Silva e Henriques (2014) realizaram um levantamento do microclima de um prédio histórico, durante aproximadamente 3 anos, a fim de descobrir o quanto as condições ambientais contribuem para a conservação dos materiais. Segundo eles, quando materiais da construção estão aclimatados a um microclima interno, durante um longo período de tempo, e posteriormente são expostos a outras condições, consideradas ideais para acervos, podem ocorrer deformações irreversíveis.

Apesar de se verificar uma procura cada vez maior por sistemas de climatização para corrigir o microclima de edificações históricas utilizadas como espaços expositivos, é importante que essa especificação seja feita por um profissional e após levantamentos e conhecimento do local. Essas alterações devem atentar para a estabilidade interna da temperatura e umidade relativa do ar, procurando inserir o menor número possível de iluminação artificial e sistemas de aquecimento não adequados (SILVA; HENRIQUES, 2014).

É pelo fato de, em grande parte dos casos, os prédios históricos não apresentarem condições microclimáticas favoráveis à conservação de acervos e, pela grande dificuldade de instalação de equipamentos de climatização sem alteração de fachadas, que prédios anexos são construídos. Edificações novas, com sistemas, técnicas e materiais construtivos projetados para satisfazer as condições ambientais ideais, tornam-se volumes anexos ao prédio histórico, confirmando a incapacidade das antigas construções em atender às especificações para o novo uso (BARRANHA, 2012; PASCARELLI, 2005).

Estudo de Caso

O caso de edificações com novo uso de espaços expositivos em Pelotas

Para este estudo foram consideradas três edificações do século XIX, tombadas a nível federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no ano de 1977: os Casarões 2, 6 e 8 (SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA, 2008). Sua denominação é devido a numeração dos lotes, situados em frente à Praça Coronel Pedro Osório, conforme Figura 4.

Figura 4. Localização dos Casarões 2, 6 e 8

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Fonte: Adaptação de Google Earth, 2016.

O Casarão 2 é a edificação mais antiga do conjunto. Com referência arquitetônica ao período colonial brasileiro e, após a construção dos outros Casarões, foi reformada. Após a reforma, sua fachada passou a apresentar características do período eclético. O Casarão 6, edificação situada entre as demais, foi construída em 1879 com referências ao mesmo período. A última edificação do conjunto é o Casarão 8, construída em 1878, também com características ecléticas em suas fachadas. Todas as edificações foram construídas para o uso residencial (SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA, 2008). As fachadas atuais dos Casarões podem ser visualizadas na Figura 5.

Figura 5. Fachadas dos Casarões 8 (A), 6 (B) e 2 (C)

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Optou-se pelo estudo destas edificações pelo fato de haverem passado por processo atual de reciclagem, recebendo o novo uso de espaços expositivos. Sendo assim, após visitas a estes prédios, foi possível realizar análises em relação ao novo uso de espaços expositivos em prédios históricos.

Casarão 2

O Centro Cultural Adail Bento Costa, localizado no pavimento térreo do Casarão 2, abrigava exposições permanentes e provisórias. Não existia nenhum tipo de climatização artificial no prédio para conservação de seus acervos, bem como não havia a existência de reserva técnica.

As exposições provisórias eram realizadas principalmente no ambiente analisado, que não apresentava uma boa estrutura para exibição de acervos. Apenas alguns elementos móveis, dispostos de acordo com a necessidade das exposições existiam no local, conforme a Figura 6.

Figura 6. Exposição temporária realizada em março de 2016

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Enquanto não recebia exposições, o ambiente era utilizado como depósito de móveis (Figura 7); o que demonstra que foi escolhido para este fim apenas por estar mais próximo do acesso principal ao prédio. Ou seja, a escolha deste prédio para espaço de exposições não foi obtida por critérios técnicos, já que não houve nenhuma adequação de iluminação, climatização e estrutura para expor acervos.

Figura 7. Espaço de exposições sendo utilizado como depósito

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Além disso, dentre as três edificações analisadas, este foi o prédio que apresentou piores condições de conservação, conforme Figura 8. Estes danos encontravam-se em paredes próximas às estruturas móveis, que podiam estar dificultando a ventilação e iluminação natural deste ambiente e tornando-o propício a apresentar problemas por umidade. Isto pode ter ocorrido em razão da edificação não apresentar a adequação necessária para receber o novo uso, notada também pela estrutura precária para exposições. A falta de uma boa estrutura para exposições, proporcionou grandes períodos sem utilização do espaço, contribuindo para a falta de manutenção do ambiente, já que o uso garantiria melhorias na sua conservação.

Figura 8. Danos causados por umidade nos materiais construtivos
da Sala de Exposições do Casarão 2

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Casarão 6

O Casarão 6 abriga o Museu da Cidade, inaugurado em 2010. Entretanto, este prédio foi desativado alguns anos depois, encontrando-se fechado e sem utilização. O espaço contou com exposições provisórias, e assim como o anterior, não possuía climatização artificial.

O fato do prédio ser desativado pouco tempo após ser reabilitado, aponta para o equívoco na escolha do novo uso, dentre outros aspectos. A falta de estrutura para conservação de acervo, como o controle da incidência de iluminação, por exemplo, e a dificuldade para a instalação de equipamentos para climatização artificial, por ser tratar de um imóvel tombado, culminou em sua inativação.

O prédio apresenta um estado de conservação regular, ou seja, sem danos em seus materiais construtivos que caracterizassem perda de elementos e necessidade de restauração. Apenas sujidades superficiais e formação de bolor em alguns elementos, devido à falta de ventilação e higienização, foram visíveis nos ambientes antes utilizados para as exposições. Além disso, foi possível visualizar móveis dispostos pelos ambientes, sem nenhuma utilização, conforme a Figura 9.

Figura 9. Espaço desativado do Casarão 6, antes sala de exposições temporárias

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Casarão 8

O Museu do Doce encontra-se instalado no Casarão 8. Este prédio contava com espaços para exposições provisórias em seu primeiro pavimento. A reserva técnica e os setores administrativos do museu estavam localizados no segundo pavimento. Não havia climatização artificial nos ambientes do Casarão 8.

Analisando a situação deste prédio em relação ao estado de conservação e estrutura para abrigar exposições temporárias, percebeu-se a diferença em relação aos demais. Ambientes utilizados para as exposições, apesar de pouca ventilação natural e incidência de luz solar direta, apresentavam-se com boas condições de conservação. O ambiente não apresentou presença de danos aos elementos construtivos, como o Casarão 2, e nem mesmo surgimento de fungos e sujidades superficiais, como o Casarão 6. Foi possível perceber também, maior interesse do público pelas exposições, quando comparada ao Casarão 2.

Apesar de não serem materiais que exigissem condições rígidas de conservação, a estrutura para exposição dos acervos não era feita de maneira improvisada, como no caso do Casarão 2.

Figura 10. Exposição realizada em fevereiro de 2016, no Casarão 8

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Figura 11. Exposição realizada em setembro de 2016, no Casarão 8

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Fonte: Acervo pessoal das autoras.

Apesar de os três prédios analisados não apresentarem a necessidade de um controle rígido para conservação dos materiais de acervo, foi possível perceber que este novo uso pode não ter sido o ideal em alguns casos. A falta de adequação de estruturas para promover uma qualidade expositiva nos Casarões 2 e 6, demonstrou desconhecimento acerca das necessidades de um espaço destinado a esse fim. Como consequência, pode-se citar a falta de manutenção e a desativação destes espaços. Um estudo prévio das necessidades do novo uso antes da instalação deste nos prédios históricos qualificaria o processo, não caracterizando-se apenas uma obra de restauro e sim uma reciclagem.

Considerações finais

É possível dizer, após a visualização dos diversos aspectos que envolvem a reabilitação de uma edificação, que existem vários pontos positivos na utilização de museus em prédios históricos. São eles: a restauração da edificação, o acesso da sociedade aos imóveis históricos, bem como aos centros de cultura, e o fato do uso diário possibilitar a realização da conservação preventiva. Outro aspecto positivo é a ligação que a reciclagem de prédios históricos tem com as melhorias em seu entorno imediato, contribuindo também para a qualificação no âmbito urbano.

No entanto, após a revisão teórica, pode-se dizer que a escolha do novo uso de espaços expositivos para prédios históricos e tombados é bastante difícil. A fim de proporcionar boas condições para as exposições, e garantir a conservação do prédio reciclado, é necessário um estudo aprofundado a respeito das necessidades que o uso expositivo requer. Estas necessidades, segundo a revisão realizada, vão desde a conciliação das características formais da edificação com sua operação para o novo uso, até o conhecimento dos gastos energéticos que este novo uso pode gerar em uma possível adaptação do microclima interno.

Apesar de grande parte dos acervos expositivos não necessitar de níveis rígidos de controle ambiental, existem normas que estipulam níveis acessíveis para os parâmetros ambientais dos prédios, e que devem ser cumpridas. Entretanto, não fosse necessário apenas modificar o microclima a fim de proporcionar boas condições para os materiais expostos num determinado ambiente, é preciso também considerar a influência dessa modificação nos materiais construtivos. Isso dificulta ainda mais a escolha do prédio para o uso de espaços expositivos. Além do mais, encarece o processo, que envolve muitos levantamentos técnicos realizados por profissionais, a fim de se analisar o potencial da edificação histórica e, assim, garantir sua conservação.

Portanto, além dos aspectos referentes à conservação, também podemos citar os aspectos econômicos. É preciso considerar os gastos com energia e custos de instalação de equipamentos para climatização, que deixariam de ser necessários, ou utilizados em menor quantidade e duração, em decorrência do conhecimento prévio do comportamento microclimático no interior dos prédios.

Sabendo disso, percebe-se a necessidade de um estudo acerca do microclima interno e externo das edificações analisadas. Com estes dados, somados aos levantamentos, seria possível confirmar o porquê de duas, dentre as três edificações históricas analisadas, não apresentarem boas condições para espaços expositivos, bem como apresentarem problemas de conservação dos materiais construtivos.

A falta de estudos prévios relativos às necessidades de um espaço museológico, pode ter proporcionado os problemas de conservação do prédio, no caso do Casarão 2, e a opção pela desativação do Casarão 6. Pelo fato de o Casarão 8 ter sua administração ligada à Universidade, e não ao Município, como no caso das demais, proporciona à mesma um suporte maior, relacionado à presença de profissionais da área no funcionamento do museu e na conservação do prédio.

Sendo assim, este trabalho cumpriu com seu objetivo principal, o de realizar uma reflexão acerca dos pontos positivos e negativos da escolha do uso de espaços expositivos em prédios históricos. Ficou clara a ideia de que é preciso primeiro conhecer o potencial dos prédios para posteriormente escolher seu uso e adequá-lo da melhor maneira possível, tanto para bom funcionamento de sua nova utilização, quanto para sua conservação enquanto construção.

Referências

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Revista de Arquitetura IMED, Passo Fundo, vol. 6, n. 2, p. 27-44, Jul.-Dez., 2017 - ISSN 2318-1109

[Recebido: 11 abril 2017; Aceito: 05 agosto 2017]

DOI: https://doi.org/10.18256/2318-1109.2017.v6i2.1852

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