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Docência universitária além da sala de aula: uma pesquisaação na disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções

University teaching beyond the classroom:
an action research in the discipline Training and Development of Collections

Jorge Santa Anna

Doutorado em andamento em Gestão e Organização do Conhecimento
pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG, Brasil.
E-mail: jorjao20@yahoo.com.br

Resumo

A prática docente constitui um conjunto de fazeres, cujos objetivos são proporcionar, primordialmente, o aprendizado. No âmbito da docência universitária, essa prática pode se tornar complexa, seja por adentrar-se às atividades de ensino, pesquisa e extensão, como também por contemplar as questões referentes à formação profissional do alunado. Este estudo parte do pressuposto de que a pesquisa, sobretudo quando realizada em campo, representa a principal alternativa para se proporcionar uma ação formativa adequada à realidade do mercado. Sendo assim, o presente artigo objetiva demonstrar as contribuições alcançadas a partir de procedimentos metodológicos, pautados na pesquisa, utilizados na disciplina de Formação e Desenvolvimento de Coleções, do curso de Biblioteconomia. O estudo se caracteriza como uma pesquisa descritiva, de natureza qualitativa e, ao mesmo tempo, uma pesquisa-ação, elaborada e conduzida de forma integrada entre alunos e professor. As técnicas formuladas para coleta de dados foram a observação e a entrevista, realizadas em diferentes bibliotecas, junto aos responsáveis pela formação do acervo informacional. A partir dos resultados, alunos e professor reconheceram a realidade do mercado, e, como consequência, elaboraram propostas de ação para melhoria das unidades visitadas, no intuito de estimular a elaboração de uma política de desenvolvimento de coleções, a qual contribuirá para padronizar e legitimar os processos de formar e desenvolver coleções. Com isso, constatou-se a viabilidade da técnica da pesquisa como elemento imprescindível a ser utilizado na docência universitária, capacitando os alunos a atuar de forma interventiva, haja vista melhorar a realidade das instituições e do fazer profissional.

Palavras-chave: Docência Universitária. Ensino pela pesquisa. Formação e Desenvolvimento de Coleções. Desenvolvimento de coleções em bibliotecas. Propostas de ação.

Abstract

The teaching practice constitutes a set of actions, whose objectives are to provide, primarily, the learning. In the scope of university teaching, this practice can become complex, either by entering into teaching, research and extension activities, as well as considering the issues related to the student’s professional training. This study is based on the assumption that research, especially when performed in the field, represents the main alternative to provide a formative action appropriate to the reality of the market. Thus, the present article aims to demonstrate the contributions obtained from methodological procedures, based on the research, used in the discipline of Training and Development of Collections, of the Superior Course of Library Science. The study is characterized as a descriptive research, of a qualitative nature and, at the same time, an action research, elaborated and conducted in an integrated way between students and teacher. The techniques formulated for data collection were the observation and the interview, carried out in different libraries, together with those responsible for the formation of the information collection. Based on the results, students and teachers recognized the reality of the market and, as a consequence, elaborated proposals for action to improve the units visited, in order to stimulate the development of a collection development policy, which will contribute to standardize and legitimize the processes of forming and developing collections. With this, the feasibility of the research technique was verified as an essential element to be used in university teaching, enabling the students to act in an interventional way, with a view to improving the reality of institutions and professional doing.

Keywords: University teaching. Teaching by research. Training and development of collections. Development of collections in libraries. Proposals for action.

1 Introdução

A docência universitária caracteriza-se como uma forma específica de ensinar ou transferir conhecimentos, por meio de um processo de interação entre diferentes sujeitos, de modo a proporcionar o aprendizado. Trata-se de uma prática realizada no âmbito das instituições de ensino superior e que, portanto, está sustentada, em grande parte, por ações formativas.

O ato de transferir e produzir conjuntamente conhecimento nas universidades tem como uma de suas principais finalidades garantir a formação de profissionais habilitados a exercer uma profissão junto à sociedade. Além de viabilizar essa formação, é interesse da docência instruir os indivíduos quanto ao desenvolvimento pessoal e cidadão, de modo a contemplar a formação integral dos sujeitos.

Assim, pode-se dizer que a docência universitária tem como principal influente, a sociedade. É por meio das atividades de ensino, pesquisa e extensão, que se manifestam possibilidades de aproximação ou intervenção da universidade com o contexto social, o que demonstra a aplicabilidade prática do conhecimento produzido no ensino superior.

Nota-se que a docência na universidade não pode ser entendida como o mero ato de ensinar, permeado por atividades que proporcionem a transmissão de conhecimento e, por conseguinte, garanta o aprendizado. Ao contrário, o docente que atua em universidades precisa comprometer-se com os objetivos dessa instituição, por meio de um conjunto variado de atividades, projetos e iniciativas, as quais proporcionem benefícios para a sociedade, considerando todos os aspectos possíveis.

Portanto, a prática docente universitária constitui uma atividade complexa e árdua, o que justifica a preocupação dos docentes em reformularem constantemente as ações formativas desenvolvidas nas salas de aula. Em virtude dos desafios e mudanças constantes que permeiam a sociedade, constata-se a necessidade de se romper com modelos tradicionais de ensino, buscando, continuamente, uma formação mais alinhada com esse contexto.

Segundo Junges e Behrens (2015, p. 293), em face das complexidades que permeiam a universidade, evidencia-se que o docente dessa instituição precisa estar consciente de seu papel para a transformação social. Desse modo, ele precisa reinventar os métodos de ensino, de modo a “[...] desenvolver uma formação crítica e transformadora; estar disponível para mudanças; [...] envolver-se em temas sociais, culturais e políticos; manter a articulação entre teoria e prática docente [...]”, dentre outras necessidades.

Na visão de Emmel e Krul (2017, p. 44), é preciso considerar, primordialmente, a integração entre ensino-pesquisa-extensão, uma vez que “[...] a atividade de ensino também pode ser realizada sob uma atitude investigativa, e assim sucessivamente a extensão, que se relaciona a pesquisa, pois implica a produção de conhecimentos vinculados com a vida em sociedade”.

Especificamente, no que se refere à formação e capacitação profissional para o mercado de trabalho, acredita-se no potencial exercido pela prática da pesquisa. Assim, o professor precisa viabilizar no plano de suas aulas, estratégias inovadoras que contenham atividades voltadas à investigação, de modo que “[...] contribuam com a formação social do indivíduo para que este seja questionador, reflexivo, crítico e transformador da sua realidade [...]” (MALUSÁ et al., 2014, p. 15).

Com efeito, a prática educativa universitária deve ser permeada por ações criativas e inovadoras, as quais passam a ser adotadas nas salas de aula, tendo em vista tornar os alunos conhecedores da realidade do mercado de trabalho. Desse modo, ainda na formação acadêmica, os futuros profissionais tornam-se preparados para enfrentar os desafios existentes na realidade do mercado e de toda a sociedade (NERVO; FERREIRA, 2015).

A formação adequada requer, certamente, a fusão entre teoria e prática, em uma mescla em que os procedimentos metodológicos sejam variados. Portanto, faz-se necessário “[...] praticar a docência mediante uma postura investigativa. Tudo aquilo de que ele [o professor] vai se utilizar para a condução do processo pedagógico deve derivar de uma contínua atividade de busca” (SEVERINO, 2008, p. 13).

Nesse contexto, o presente artigo tematiza a pesquisa como instrumento pedagógico na garantia efetiva da formação profissional no âmbito da docência universitária. Tem como principal objetivo demonstrar as contribuições alcançadas a partir de procedimentos metodológicos, pautados na pesquisa, utilizados na disciplina de Formação e Desenvolvimento de Coleções, do Curso Superior de Biblioteconomia.

A fim de atingir essa proposta, o estudo utiliza das seguintes ações: i) reflexões sobre algumas características e conceitos relativos à docência universitária; ii) discussões a respeito das contribuições da pesquisa na docência universitária e da pesquisa como método de ensino; iii) relato dos debates realizados em seminário de pesquisa; e, por fim, iv) apresentação de dados coletados da vivência prática no mercado de trabalho.

A priori, o estudo se caracteriza, metodologicamente, como uma pesquisa descritiva, de natureza qualitativa, com procedimentos de pesquisa bibliográfica, pois essas foram as primeiras intervenções metodológicas realizadas. Após essas ações iniciais, adotou-se um percurso metodológico na forma de uma pesquisa-ação, em que professor e alunos elaboraram um questionário e o aplicaram em diferentes bibliotecas, de modo a identificar a realidade e aferir propostas de melhoria às instituições investigadas.

2 Docência universitária e a prática da pesquisa: conhecer, intervir e propor melhorias ao mercado de trabalho

A docência constitui a ação de educar, considerada como uma prática social em que a interação entre um sujeito e outro condiciona a reflexão acerca de valores culturais e sociais, tendo em vista o contexto ou a realidade em que esses sujeitos do processo educacional estão inseridos (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2017).

De acordo com essas autoras, a docência universitária é um tipo específico de educação que se manifesta no contexto das instituições de ensino superior, em que os processos educativos se diluem em meio às atividades acadêmicas. Tais atividades são planejadas com o fim específico de garantir a formação cidadã, como também o desenvolvimento pessoal e profissional dos universitários.

Desse modo, a prática educativa demandada nas universidades é mais ampla e complexa do que a prática que se manifesta em outras modalidades de ensino, como a educação básica, por exemplo, em que o foco está na construção dos primeiros saberes do aprendiz. Os processos de trabalho da docência universitária levam os alunos “[...] à construção consciente da ética, da cidadania, das relações político-sociais e afetivas [...]”. Esses aspectos são de suma importância no exercício das atividades pedagógicas no âmbito das universidades (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2017, p. 3).

Por contemplar atividades complexas que viabilizam fazeres plurais, a docência universitária tem como um dos principais objetivos, atender as estratégias propostas pela universidade. Portanto, a prática docente deve sustentar-se nos três pilares que conduzem as universidades: a pesquisa, o ensino e a extensão, aspectos complementares e integrados (MOITA; ANDRADE, 2009).

Ressalta-se que esses pilares possuem o mesmo grau de importância e estão em íntima unidade, o que proporciona a formação do princípio da indissociabilidade, definido como “[...] um princípio orientador da qualidade da produção universitária, porque afirma como necessária a tridimensionalidade do fazer universitário autônomo, competente e ético” (MOITA; ANDRADE, 2009, p. 269).

Dentre esses três pilares, Severino (2008) descreve o papel preponderante desempenhado pela pesquisa. Destaca o autor que todos os processos que permeiam a universidade, tal como a aprendizagem, a docência, a ensinagem, só serão significativos se forem sustentados por uma permanente atividade de construção do conhecimento. Nesse contexto, produzir conhecimento requer a prática de pesquisa no planejamento e na condução das atividades desenvolvidas.

Sendo assim, nas ações formativas e atividades educativas existentes no ambiente universitário,

[...] torna-se imprescindível a adoção de estratégias diretamente vinculadas de modo que experiências práticas possam ser mobilizadas para essa aprendizagem. Ou seja, que a própria prática da pesquisa seja caminho do processo de ensino e aprendizagem. Nessa linha, todas as disciplinas do curso devem se articular [...]. É necessária uma atitude coletiva convergente em termos de exigência de padrão de produção acadêmica por alunos e professores (SEVERINO, 2008, p. 14-15).

Com efeito, a docência universitária se caracteriza por sua diversificação, tendo a pesquisa como principal conceito que sustenta as ações acadêmicas, pois, é com essa concepção voltada para a pesquisa, que o docente motiva o alunado a construir novos conceitos, concretos e práticos, os quais acompanharão o fazer profissional no mercado de trabalho (NERVO; FERREIRA, 2015).

O professor e o aluno pesquisador são elementos chave para desencadear a ampliação do conhecimento, e essa ampliação só se manifesta por meio de práticas ou ações de investigação e, por conseguinte, de intervenção, haja vista modificar uma determinada realidade. Assim, os métodos de ensino devem pautar-se na compreensão de mecanismos que levam ao aprendizado de forma consciente e independente, “[...] formando no estudante estratégias cognoscitivas gerais a cada ciência, em função de analisar e resolver situações problemas” (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2017, p. 1, grifo nosso).

Portanto, a pesquisa deve perfazer o planejamento das aulas, como também embasar os métodos de ensino a serem elaborados, e, além disso, sustentar as diversas atividades ou procedimentos que conduzirão as disciplinas lecionadas (PACHANE, 2006). Segundo essa autora, em linhas gerais, o fazer profissional do professor, na universidade, deve contemplar diversas questões, com destaque a manutenção de atitude de pesquisa, a capacidade reflexiva e de indagação, e, por fim, a busca ou formulação de estratégias, haja vista propor melhorias e soluções para problemas constatados nas investigações realizadas.

Nesse sentido, grande parte da literatura atribui à pesquisa um diferencial proporcionado à prática docente universitária. A pesquisa desempenha inúmeras influências e, por conseguinte, possui vários objetivos. Por meio da pesquisa, considerada como método efetivo de ensino nas universidades, é possível despertar inúmeras contribuições aos discentes, sobretudo no que tange à capacidade de observar e conhecer a realidade, como também, intervir, de modo a formular ações que eliminem os problemas sociais, resultado esse alcançado, tão somente, por meio de uma atuação profissional efetiva (ANBRÓSIO, 2001). Logo, a prática da pesquisa contribui, em linhas gerais,

[...] o desenvolvimento do sujeito/aluno, desenvolvimento intelectual, cultural, científico, pessoal, alcançado através da aquisição de conhecimentos científicos e tecnológicos, de capacidades de problematização ou resolução de problemas, de capacidades de reflexão analítica e crítica, de capacidade de gestão e de criação de conhecimentos e saberes e de mobilização de competências (AMBRÓSIO, 2001, p. 94, grifo nosso).

Por relacionar-se à formação de competências atribuídas àquele que está em processo para ingresso em uma profissão, depreende-se que a pesquisa no âmbito do ensino superior precisa romper as barreiras da sala de aula, de modo que as metodologias de ensino se manifestem em paralelo e em concordância com a realidade do meio social, sobretudo no que se refere ao exercício de uma profissão (SILVA, 2013).

Na visão de Magalhães (2013), a pesquisa na universidade extravasa os procedimentos educativos realizados apenas nas salas de aula ou no interior da instituição educacional. Assim, lecionar na universidade exige muito mais do que preparação para o mercado de trabalho. Além disso, o estudante deve ser preparado para a vida produtiva, consciente, verdadeiramente cidadã. Dessa forma, acredita-se que, ao atingir essa proposta, pode-se alcançar uma prática pedagógica universitária crítica, ou melhor, uma práxis universitária.

Educar pela pesquisa faz parte de uma ação a ser adotada pelos docentes universitários. Isso porque, ao se pesquisar, são desenvolvidas habilidades de observação, extração, análise e intervenção, haja vista garantir uma postura emancipatória do sujeito, o que facilita sua atitude interventora na sociedade (FREIRE, 2006).

Adotar a pesquisa como método educativo é de suma importância na universidade, pois essa atitude viabiliza um processo formativo, tendo como foco ou objetivo de análise as práticas profissionais que permeiam o mercado de trabalho. Assim,

[...] o conceito de pesquisa é fundamental, porque está na raiz da consciência crítica questionadora, desde a recusa de ser massa de manobra, objeto dos outros, matéria de espoliação, até a produção de alternativas com vistas à consecução de sociedade pelo menos mais tolerável. Entra aqui o despertar da curiosidade, da inquietude, do desejo de descoberta e criação, sobretudo atitude política emancipatória de construção do sujeito social competente e organizado (DEMO, 2002, p. 82, grifo nosso).

Com efeito, a pesquisa manifesta-se como um recurso ou metodologia a ser adotada pelo docente universitário, sendo necessário que, nessa prática investigativa, além de aspectos emancipatórios, críticos, reflexivos e interventivos, o docente viabilize a seu alunado a capacidade em olhar a realidade por diferentes ângulos, realizando a leitura e análise, não apenas do que se vê, mas, sobretudo, do contexto que envolve as práticas profissionais e sociais (FREIRE, 2006).

Assim, por meio de uma atuação metodológica que se sustente na pesquisa, os professores viabilizam aos alunos o reconhecimento de que precisam atuar de forma reflexiva e crítica, de modo a ampliar o conhecimento até então produzido, e, dessa forma, melhorar a realidade social (GARCIA; SILVA, 2017). Ademais, reforça-se que a trajetória universitária deve ser considerada pelos discentes como “[...] um projeto de vida, de aprender a aprender, como intérpretes subjetivos, sujeitos autônomos e conscientes da responsabilidade social, ética, fraterna e política em estabelecer novos diálogos com a sociedade” (GARCIA; SILVA, 2017, p. 71).

3 Procedimentos metodológicos

Considerando o que foi proposto neste artigo, o caminho metodológico adotado diz respeito à pesquisa descritiva, de natureza qualidade, com procedimentos de pesquisa bibliográfica, seguidos de pesquisa-ação.

Essas características metodológicas atribuídas a este estudo manifestam-se na forma de dados e informações não quantificadas e descritas a partir do que dispõe a literatura, como também, por meio da coleta de dados conduzida por questionário com perguntas abertas e com a técnica da observação, realizada por alunos e professor da disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções (Curso Superior de Biblioteconomia) junto a profissionais que atuam na gestão do acervo informacional de diferentes modalidades de bibliotecas.

No que diz respeito aos procedimentos para coleta e análise de dados - sejam eles levantados da literatura ou da pesquisa-ação – primeiramente, realizou-se a pesquisa bibliográfica, com a leitura a diferentes materiais publicados na literatura (livros e artigos científicos), os quais versam sobre os desafios, perspectivas e contribuições da prática docente universitária e sobre o processo de formação e desenvolvimento de coleções em bibliotecas.

Ressalta-se que esses procedimentos, no que tange ao tema Formação e Desenvolvimento de Coleções, foram realizados nas primeiras unidades da disciplina, antes da pesquisa in loco, em que os alunos foram instruídos a realizar levantamentos bibliográficos, os quais foram socializados por meio da aplicação de seminários. Quanto às reflexões sobre a prática docente universitária, o levantamento e as leituras foram realizados pelo docente quando da organização e estruturação deste artigo.

Após a pesquisa bibliográfica e da fundamentação teórica levantada, procedeu-se à investigação in loco, a qual caracterizou a pesquisa-ação, em que foi elaborado por alunos e professor, um questionário com perguntas abertas, a ser aplicado em quatro modalidades distintas de bibliotecas: biblioteca escolar, pública, especializada e universitária.

A respeito do questionário, o objetivo de sua aplicação era comparar o que recomenda a literatura sobre desenvolvimento de coleções, com o que tem sido realizado na prática, tendo em vista diferentes realidades em que as bibliotecas estão inseridas no ambiente social.

Dessa forma, pretendeu-se alinhar teoria e prática, de modo a ampliar a prática educativa no contexto universitário, em que essa união torna-se necessária, haja vista ser considerada como método de ensino pelos docentes, para que o alunado visualize os ensinamentos teóricos, conforme a realidade prática vivenciada nas instituições, como relatado no estudo de Gonçalves e Siqueira (2017).

No contexto da pesquisa-ação, considera-se que essa modalidade de pesquisa representa “[...] um procedimento reflexivo, sistemático, controlado e crítico que tem por finalidade estudar algum aspecto da realidade com o objetivo de ação prática [...]”. Nesse sentido, tal metodologia apresenta três importantes funcionalidades, que são: i) acesso ao conhecimento técnico-científico, que possibilite a participação e o “desvelamento” da realidade e sua efetiva transformação pelo trabalho/ação; ii) incentivo à criatividade, a fim de gerar novas formas de participação; e, iii) organização da base em grupos, nos quais eles sejam o “sujeito/ agente de sua transformação/libertação” (BALDISSERA, 2001, p. 7).

Assim, a pesquisa-ação desenvolveu-se a partir do estímulo fornecido pelo docente, junto ao alunado da disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções, em que, primeiramente, os envolvidos identificaram os desafios que permeiam o processo de formar e desenvolver coleções; conscientizaram da necessidade de investigar a realidade das bibliotecas, haja vista contribuir com o fazer profissional; elaboraram as técnicas para coleta de dados, como medida interventiva; e, por fim, a partir da análise dos dados coletados e contextualizados com a literatura, propuseram algumas ações de melhoria para as unidades analisadas.

No que se refere à disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções, ela é ofertada no sétimo período do Curso Superior de Biblioteconomia, e tem como principal objetivo fornecer ao alunado reflexões da forma com que as coleções bibliográficas se desenvolvem e os desafios que permeiam esse fazer.

Os procedimentos de ensino descritos no plano da disciplina dizem respeito à aplicação de diferentes modalidades de pesquisa, sejam elas bibliográficas quanto visitas e intervenções in loco, de modo a permitir que os alunos comparem o entendimento da literatura com a realidade do mercado de trabalho, consolidando uma mescla entre teoria e prática.

Com o intuito de permitir uma melhor explanação dos conteúdos ministrados, e da aplicação dos métodos de pesquisa, a disciplina foi dividida em três unidades, conforme exposto no quadro 1.

Quadro 1. Conteúdos temáticos e principais procedimentos de ensino

Unidade

Conteúdos temáticos

Principais procedimentos de ensino

I

Conceitos, histórico e etapas do processo de desenvolvimento de coleções

Aulas teóricas; levantamentos bibliográficos e seminários

II

O desenvolvimento de coleções e a prática profissional em diferentes bibliotecas

Visita técnica a uma biblioteca universitária e entrevista, aplicada por grupos, em diferentes modalidades de biblioteca

III

Políticas e planos de ação para a gestão dos acervos

Análise a diferentes modelos de políticas de coleções e proposta de ação para as bibliotecas investigadas

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Seguindo o passo a passo do plano da disciplina, conforme a divisão exposta no quadro 1, e das propostas para sustentar uma intervenção prática, conforme apresentado por Baldissera (2001) - quais sejam as ações de acesso ao conhecimento científico, elaboração de estratégias criativas e de ação para transformar um contexto - manifestou-se a pesquisa-ação. O detalhamento acerca da pesquisa-ação é apresentado a seguir.

4 A pesquisa-ação: coleta de dados e discussão de resultados

Tendo como base os assuntos e as metodologias de ensino contemplados na unidade I, foram apresentadas, nas primeiras aulas, discussões teóricas, conduzidas pelo docente, acerca dos conceitos e historicidade do processo de formar e desenvolver coleções.

Importante ressaltar que a formação e desenvolvimento de coleções constitui um conjunto de atividades, realizado de forma processual, cujo objetivo é sistematizar e racionalizar as coleções de um acervo bibliográfico, considerando critérios predefinidos e padronizados em consonância com os objetivos da organização e das necessidades da comunidade usuária (VERGUEIRO, 1989).

Esse processo vem sendo realizado a partir da formação das primeiras bibliotecas, ainda no período da Antiguidade, em que prevalecia a atividade intensa dos colecionadores (bibliófilos) (WEITZEL, 2012). No entanto, a preocupação em planejar a formação das coleções e estabelecer critérios e estudos científicos em prol de uma gestão efetiva dos acervos inicia-se nas últimas décadas do século XX (VERGUEIRO, 1993).

Para Vergueiro (1993), esses estudos permitiram a criação dos modelos teóricos, tendo destaque o Modelo Sistêmico de Evans, em que o desenvolvimento de coleções precisa ser conduzido por seis etapas, que são: estudo da comunidade, política de seleção, seleção, aquisição, desbastamento e avaliação. A fim de dinamizar as aulas, como também despertar a capacidade de pesquisa bibliográfica aos alunos, cada etapa do citado modelo foi pesquisada por grupos e apresentada na forma de seminários.

Importante frisar que o docente demonstrou aos alunos, em aula específica, os métodos e estratégias para se realizar levantamentos bibliográficos de livros e artigos em bases de dados. O quadro 2 demonstra a divisão dos grupos, o tema investigado, a bibliografia básica indicada, sendo que os alunos deveriam recorrer a outras fontes a fim de enriquecer as apresentações (bibliografia complementar).

Quadro 2. Atividades de pesquisa bibliográfica para elaboração de seminário – Unidade I da disciplina

Grupo

Tema investigado

Bibliografia base

Bibliografia complementar

1

Estudo da comunidade

FIGUEIREDO, Nice. Estudo de uso e usuários da informação. Brasília: Ibict, 1994.

Resultados do levantamento bibliográfico

2

Política de seleção

WEITZEL, Simone da Rocha. Elaboração de uma política de desenvolvimento de coleções em bibliotecas universitárias. 2. ed. Rio de Janeiro: Interciência; Niterói: Intertexto, 2013.

Resultados do levantamento bibliográfico

3

Seleção

VERGUEIRO, Waldomiro. Seleção de materiais de informação: princípios e técnicas. 3. ed. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 2010.

Resultados do levantamento bibliográfico

4

Aquisição

ANDRADE, Diva; VERGUEIRO, Waldomiro. Aquisição de materiais de informação. Brasilia: Briquet de Lemos/Livros, 1996.

Resultados do levantamento bibliográfico

5

Desbastamento

FIGUEIREDO, Nice Menezes de. Desenvolvimento e avaliação de coleções. Rio de Janeiro: Rabiskus, 1993.

Resultados do levantamento bibliográfico

6

Avaliação

LANCASTER, Wilfrid. Avaliação de serviços de bibliotecas. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 1996.

Resultados do levantamento bibliográfico

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

De acordo com as informações dispostas no quadro 2, constata-se a divisão da turma em seis grupos e a necessidade de se desenvolver um seminário, cujas reflexões propostas pelos grupos foram oriundas de pesquisa bibliográfica realizada por eles mesmo nas bases de dados (levantamento bibliográfico), além da leitura e análise à bibliografia base indicada pelo professor. O levantamento permitiu a identificação e utilização, pelos grupos, de diversos artigos científicos que versam sobre os temas apresentados.

Após realização do levantamento bibliográfico, da leitura e da análise às fontes levantadas, manifestou-se o seminário, em que cada grupo apresentou seus temas, no prazo máximo de uma hora. Como resultados dessas atividades iniciais, pode-se observar o engajamento da turma, a motivação para a pesquisa e a segurança na apresentação dos conteúdos por parte dos grupos.

Percebeu-se nessas atividades, assim como defendido por Freire (2006) e Demo (2002), a manifestação de um clima harmonioso entre docente e alunado, em que as informações pesquisadas eram socializadas entre os grupos, de modo a demonstrar a importância em se pesquisar e compartilhar as descobertas, pois isso desencadeia o aprimoramento profissional e a ampliação do conhecimento.

Essa interação e socialização de conhecimento constitui uma estratégia prévia, haja vista preparar o aluno para a prática da pesquisa e a necessidade de propor mudanças que beneficiem um determinado contexto. Portanto, com esse fim, “[...] é necessária a atuação do professor como mediador do processo ensino-aprendizagem e não detentor absoluto de todo o conhecimento, assim como precisa aceitar e possibilitar ao aluno o desenvolvimento de sua autonomia [...]” (MALUSÁ et al., 2014, p. 15).

Reforça-se que o intuito dessas atividades era proporcionar ao alunado, conhecimento teórico acerca de como deve ser realizado o processo de formação e desenvolvimento de coleções nas bibliotecas. Desse modo, após as pesquisas teóricas e apresentação do seminário, os alunos, conhecedores da teoria, estavam aptos a verificar como esse fazer era realizado na prática, o que desencadeou os estudos in loco (unidade II), conduzidos por uma visita técnica e aplicação de entrevista a profissionais.

Com efeito, na unidade II da disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções o docente abordou questões referentes ao desenvolvimento de coleções e a prática profissional em diferentes bibliotecas. Com essa intenção, foi realizada visita técnica a uma biblioteca universitária e entrevista, aplicada por grupos, em diferentes modalidades de biblioteca.

A visita técnica ocorreu junto ao setor de Formação do Acervo, da biblioteca universitária, em que o Curso de Biblioteconomia é ofertado, sendo conduzida pelo bibliotecário chefe desse setor. Como resultado dessa investigação, os alunos apresentaram relatório escrito. A análise aos relatórios permitiu constatar que os alunos identificaram diversos conceitos estudados em sala de aula, tais como: estudo da comunidade, coleções bibliográficas, compra, permuta e doação, aquisição, seleção, qualidade dos serviços, satisfação dos usuários, dentre outros.

Além disso, foi identificada, com base nos relatos do bibliotecário chefe, a presença de quatro etapas do Modelo de Evans, não sendo praticada na referida biblioteca, a etapa da seleção e da avaliação.

Embora constatados diversos desafios e problemas que permeiam o processo de formar e desenvolver as coleções na biblioteca visitada, a intenção dessa atividade não era refletir criticamente sobre a realidade, mas, tão somente, permitir a comparação e identificação das discussões teóricas na sala de aula, sobretudo as que se manifestaram durante o seminário. Esse fato constitui uma estratégia inovadora e viável, a ser aplicada na docência universitária, em que se desenvolveu a interação entre teoria e prática, como refletido por Severino (2008) e Junges e Behrens (2015).

Em linhas gerais, a visita técnica foi benéfica, pois tornou o alunado mais familiarizado com as questões teóricas, como também despertou maior entendimento dessas questões, pois, além das reflexões em sala de aula, os alunos experienciaram os conceitos estudados, conforme a realidade ou vivência prática de uma instituição.

A partir das aulas teóricas e com a vivência prática demonstrada em uma instituição, as quais proporcionaram o entendimento do alunado sobre o processo de formar e desenvolver coleções, o docente motivou a turma a investigar a realidade do mercado de trabalho, ou seja, foram elaboradas perguntas abertas a serem aplicadas a diferentes modalidades de biblioteca: escolar, pública, especializada e universitária.

Foi reservada uma aula específica, em que cada grupo, com ajuda do professor, desenvolveu questões específicas a ser aplicada in loco, com o fim de conhecer como o processo de formar e desenvolver coleções é realizado, e, com essa análise, identificar possíveis avanços, desafios e expectativas dessas diferentes unidades. O quadro 3 demonstra os aspectos a serem analisados e as respectivas perguntas elaboradas pelos grupos.

Quadro 3. Perguntas a serem utilizadas para coleta de dados em diferentes bibliotecas

Aspectos a serem analisados

Pergunta formulada

Organização das coleções

Como estão divididas as coleções no acervo?

Setor responsável

Há um setor específico responsável pelo processo de formar e desenvolver coleções?

Etapas do processo de formação e desenvolvimento de coleções

Quantas etapas contemplam o processo de formar e desenvolver coleções?

Estudo de usuários

Como conhecem as necessidades dos usuários? Realizam que tipo de estudo?

Política

Possuem política de formação e desenvolvimento de coleções?

Critérios para seleção

Adotam critérios para selecionar, adquirir e descartar materiais?

Descarte/remanejo

É permitido descartar materiais ou remanejá-los quando constatada a pouca utilização?

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Em decorrência das perguntas elaboradas, procedeu-se à aplicação dessas perguntas nas diferentes bibliotecas. Para essa pesquisa in loco, os grupos foram reformulados, de modo a formar quatro grupos, um grupo para cada unidade investigada.

Com os dados coletados nas unidades, manifestou-se a apresentação/socialização das respostas, em sala de aula. Por meio de rodas de conversa, o docente direcionou as apresentações, registrando as respostas de cada grupo, na lousa, o que permitiu a comparação dos dados, entre uma realidade e outra.

Analisando e comparando as respostas, alunado e professor conseguiram identificar diferentes realidades, como também elucidaram alguns problemas e tentativas de melhoria por parte do profissional em algumas instituições. Assim, esse compartilhamento das realidades estudadas permitiu a constatação de diversos resultados alcançados1. Em linhas gerais, foi possível constatar que em cada modalidade de biblioteca, ou em cada contexto organizacional/institucional, os procedimentos que sustentam o processo de formar e desenvolver coleções são diferenciados, sendo que, boa parte das atividades realizadas pela biblioteca especializada e universitária está condizente com as recomendações propostas pela literatura, enquanto que na biblioteca pública e escolar, a realidade é bem destoante.

De um modo geral, as análises realizadas permitiram inferir que, em todas as bibliotecas, mesmo sendo influenciadas pelo contexto organizacional/institucional, faz-se imprescindível o estabelecimento de uma política para formar e desenvolver coleções, de modo a facilitar a gestão das coleções e o desenvolvimento equilibrado do acervo.

Acerca da importância da política de desenvolvimento de coleções, reforça-se que:

A política de desenvolvimento de coleções é essencial para o desenvolvimento de forma harmoniosa do acervo de qualquer biblioteca [...] já que hoje a construção de políticas de desenvolvimento se tornou uma ferramenta indispensável para flexibilização de um acervo, [contribuindo com a] tomada de decisão, orientando o processo decisório e ainda por ser um meio de definir critérios em relação à seleção, à atualização do acervo, realizando dessa forma a melhor busca de informação para o usuário (ARAÚJO, 2014, p. 1).

Importante destacar que o docente, para essa atividade, portou-se como mediador e, ao mesmo tempo, provocador das respostas apresentadas por cada grupo, de modo que os grupos apresentassem as respostas com argumentos reflexivos e críticos, haja vista demonstrar os desafios e os avanços que permeiam as bibliotecas analisadas.

Essa atuação investigativa in loco, de modo a comparar a teoria com a prática e, aliado a isso, demonstrar a realidade do mercado para os futuros profissionais constitui um método muito recomendado na docência universitária. Isso porque, segundo Demo (2002, p. 10, grifo nosso), a formação acadêmica “[...] se funda no esforço sistemático e inventivo de elaboração própria, através da qual se constrói um projeto de emancipação social e se dialoga criticamente com a realidade [...]”.

Além disso, importante reforçar que o ensino nas universidades deve ir além da sala de aula, de modo que seja conduzido “[...] em sintonia com a dinâmica social e com o perfil de profissionais e cidadãos demandados pela sociedade contemporânea, já que possuem conhecimentos e atitudes necessários para transformá-la [...]” (GARCIA; SILVA, 2017, p. 70, grifo nosso). Assim, a partir de uma atuação investigativa, crítica e interventiva, segundo Oliveira e Araújo (2013), visa-se com isso melhorar a qualidade da formação de novos profissionais, a atuação do docente no magistério, na pesquisa e na extensão, e a própria universidade como preparadora de cidadãos e de competências para o atual mercado de trabalho competitivo e mutável.

Considerando as características da pesquisa-ação, em que se manifeste a identificação de problemas existentes em uma dada realidade, e a intervenção dos grupos-pesquisadores no intuito de melhorar esse contexto investigado – conforme ensinado por Baldissera (2001) – os desafios detectados pelo alunado nas quatro bibliotecas pesquisadas desencadearam a elaboração de algumas ações, as quais poderão ser utilizadas para melhorar os processos de formar e desenvolver as coleções nessas unidades.

Assim, a atividade de elaboração dessas ações sustentou a unidade III da disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções. Por meio de três aulas, o docente distribuiu aos grupos, diferentes modelos de políticas de coleções e propostas de ação publicadas na literatura e utilizadas em algumas unidades de informação, no Brasil.

Por meio da análise a esses documentos e munidos dos desafios que permeiam as unidades investigadas pelos discentes, os grupos elaboraram algumas ações que julgaram ser pertinentes aos bibliotecários dessas unidades, no intuito de estimulá-los a elaborar a política de formação e desenvolvimento de coleções de suas bibliotecas. As ações propostas pelos grupos podem ser visualizadas no quadro 4, sendo que essas ações foram apresentadas no último dia da disciplina, por meio de rodas de conversa. Por meio da socialização das ações pelos grupos, chegou-se ao consenso acerca de se agrupar essas ações em etapas.

Quadro 4. Ações a serem utilizadas para melhoria nas bibliotecas analisadas

Etapas

Algumas ações

Diagnóstico da realidade local

1 – Aplicação de questionário a usuários da biblioteca acerca do uso do acervo

2 – Observação da infraestrutura da biblioteca

Estrutura básica da Política de Desenvolvimento de Coleções

1 – Definição de critérios para incorporar/descartar materiais

2 – Definição das etapas quanto à formação e desenvolvimento do acervo

3 – Definição de critérios para conduzir o processo avaliativo das coleções

Início das atividades de elaboração, formalização e institucionalização da política

1 – Projeto para elaboração da política

2 – Apresentação do projeto à gestão institucional

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

As ações apresentadas no quadro 4 manifestam-se como um produto elaborado por alunado e docente, quando das atividades realizadas ao longo da disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções. Dessa forma, consolida-se a pesquisa-ação, a qual formaliza uma proposta de intervenção, que possa, de alguma forma, ser utilizada pelos bibliotecários, a posteriori, conforme a realidade a que estão inseridos.

Assim, tanto os profissionais das bibliotecas analisadas poderão ser beneficiados com essas ações, como também, os próprios estudantes, os quais, além de conhecerem a realidade do fazer profissional, foram-lhes concedidos, ainda na formação acadêmica, conhecimentos teóricos necessários para viabilizar melhorias ao mercado de trabalho no que tange à gestão dos acervos bibliográficos.

5 Considerações finais

A partir deste estudo, apresentaram-se alguns aspectos referentes às contribuições da pesquisa, sobretudo quando realizada de forma interventiva no âmbito do fazer profissional no mercado de trabalho, a ponto de detectar desafios e propor melhorias às instituições. Por meio das discussões teóricas e dos dados coletados in loco, constatou-se, em linhas gerais, que a pesquisa é um instrumento pedagógico, o qual poderá garantir uma efetiva formação profissional no âmbito da docência universitária.

Foi possível identificar, por meio da pesquisa bibliográfica, que a literatura apresenta diversos trabalhos que versam sobre a importância da pesquisa como método de ensino utilizado por docentes nas universidades. A grande maioria desses estudos considera a docência universitária como um conjunto de atividades complexas que requer a constante reformulação dos procedimentos de ensino, de modo a contribuir com a formação profissional. Essa reformulação, ao valorizar a pesquisa na condução das atividades disciplinares, pode contribuir com o desenvolvimento das competências e habilidades do alunado, preparando-o para atuar no mercado de trabalho.

Os resultados deste artigo demonstraram que a prática da pesquisa adotada na disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções foi viável, uma vez que promoveu a integração entre alunos e professor, os quais se portaram como pesquisadores que reconheceram a realidade do mercado, e, como consequência, elaboraram propostas de ação para melhoria das bibliotecas. Com isso, constatou-se a viabilidade da técnica da pesquisa como elemento imprescindível a ser utilizado na docência universitária, capacitando os alunos a atuar de forma interventiva, haja vista melhorar a realidade das instituições e do fazer profissional.

Com efeito, a docência universitária precisa ser considerada como uma prática que extravasa os ambientes das salas de aula. Para tanto, é preciso realizar atividades que comunguem da teoria e da prática, em que os assuntos apresentados, a metodologia e as atividades da disciplina possam se apresentar como estratégia de investigação, manifestando-se como um laboratório de pesquisa, integração e compartilhamento de descobertas.

Em suma, os benefícios alcançados com os procedimentos de ensino aplicados na disciplina Formação e Desenvolvimento de Coleções indicam ser viável adotar como proposta de metodologia de ensino na docência universitária, o planejamento da disciplina, de modo que ela seja conduzida por duas etapas básicas: pesquisas teóricas e pesquisas in loco, essas últimas manifestadas por meio de visitas técnicas e coleta de dados a contextos específicos de atuação profissional.

Assim, a pesquisa aplicada in loco, sobretudo aquela conduzida por técnicas de coleta de dados, constitui parte fundamental da pesquisa-ação e, no caso deste estudo, forneceu subsídios acerca dos desafios, avanços e perspectivas sobre o processo de formar e desenvolver coleções em diferentes modalidades de biblioteca. Portanto, a partir desse reconhecimento, foi possível estabelecer ações iniciais, a fim de estimular a elaboração de uma política de desenvolvimento de coleções, a qual contribuirá para padronizar e legitimar os processos de formar e desenvolver coleções.

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Revista Brasileira de Ensino Superior, Passo Fundo, vol. 4, n. 1, p. 78-96, Jan.-Mar. 2018 - ISSN 2447-3944

[Recebido: Dez. 21, 2017; Aceito: Mar. 14, 2018]

DOI: https://doi.org/10.18256/2447-3944.2018.v4i1.2347

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