1862

Orientação de estágio em administração: aproximando teoria e prática?

Orientation of internship in administration: approaching theory and practice?

Sheila Patrícia Ramos Beckhauser(1); Júlio Cesar Lopes de Souza(2);
Iara Regina dos Santos Parisotto(3); Maria José Carvalho de Souza Domingues(4)

1 Mestre em Administração. Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.
E-mail: spr80sc@gmail.com

2 Mestre em Administração. Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.
E-mail: juliocesar0403@gmail.com

3 Doutora em Administração. Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.
E-mail: iaraparisotto@furb.br

4 Doutora em Engenharia da Produção. Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.
E-mail: mariadomingues@furb.br

Resumo

Este estudo buscou investigar o processo de orientação de estágio na perspectiva de professores e estudantes em um Curso de Administração. Para tanto, realizou-se uma pesquisa exploratória e descritiva, conduzida sob abordagem mista, com fases qualitativa e quantitativa. Os dados foram coletados por meio de questionário elaborado com perguntas abertas e fechadas e aplicado em 2015. A população da pesquisa envolve docentes e discentes do curso de Administração da disciplina Estágio Supervisionado. A amostra foi composta por 299 discentes e 20 docentes. Entre os resultados encontrados constata-se que os estudantes realizam o trabalho de estágio, em grande parte, em casa e nos finais de semana. Além disso, os professores destacaram que as principais dificuldades dos estudantes são quanto ao conhecimento das normas técnicas, revisão da literatura e interpretação de texto. Conclui-se com este estudo que, apesar de os estudantes considerarem o seu desempenho no trabalho e a orientação dos professores entre bom e ótimo, há muito ainda para ser melhorado, tanto por parte do estudante quanto do professor.

Palavras-chave: Estágio supervisionado. Orientação de estágio. Administração.

Abstract

This study sought to investigate the process of orientation of internship from the perspective of teachers and students in an Administration Course. For that, an exploratory and descriptive research was conducted under the mixed approach, with qualitative and quantitative phases. The data were collected through a questionnaire elaborated with open and closed questions and applied in 2015. The research population involves teachers and students of the course of Administration of the discipline Supervised Internship. The sample consisted of 299 students and 20 teachers. Among the results found, students carry out internship work, in large part, at home and on weekends. In addition, the teachers emphasized that the students’ main difficulties are related to knowledge of technical norms, literature review and text interpretation. It is concluded with this study that although the students consider their work performance and the teachers’ guidance between good and great, there is still much to be improved, both by the student and the teacher.

Keywords: Supervised internship. Internship orientation. Management.

1 Introdução

De acordo com Marsden e Townley (2012), teoria e prática são interpretadas como diferentes e a prática, de maneira recorrente, é considerada como não teórica. Os que atuam no mundo prático se orgulham da imunidade da teoria, assim como alguns acadêmicos se envaidecem da distância do mundo prático. No entanto, os filósofos da ciência social inibem esta visão ao demonstrar que “a mais inocente observação do que está lá fora é conceitualmente mediada pelas ideias em nossa cabeça” e [...] “a maioria das práticas operacionaliza alguma teoria, por mais implícita, vaga e contraditória que ela possa ser” (MARSDEN; TOWNLEY, 2012, p. 31-32). Prática, portanto, é um construto teórico, e a teorização é uma prática, e ambas formam um conceito de unidade. Assim, teoria e prática estão diretamente relacionadas, não podendo ser tratadas de forma justaposta ou mesmo dissociada (MARSDEN; TOWNLEY, 2012; PICONEZ et al., 1991).

O estágio é um mecanismo que propicia a aproximação e o entrosamento entre escola, empresa, aluno e sociedade, cumprindo com o atendimento das necessidades do sistema educacional e da demanda do mercado por profissionais competentes. No nível superior, as competências profissionais podem ser desenvolvidas a partir de experiências nas organizações. O Estágio supervisionado dentro do processo de ensino aprendizagem proporciona essa vivência teórico-prática-crítica. O estudante pode ver a organização por diferentes ângulos, podendo expressar sua percepção crítica acerca da realidade vivenciada (MURARI; HELAL, 2009).

O estágio supervisionado é um item curricular direcionado à consolidação do desempenho profissional desejado devendo oportunizar a interface entre teoria e prática, a partir de uma experiência acadêmica, social e profissional (REGO; SILVA, 2013). Assim, este procedimento proporciona ao estudante uma visão mais clara dos conceitos aprendidos em sala de aula, uma vez que o entendimento de conceitos não fica restrito a exercícios e estudo de caso, mas sim, sendo aplicado na prática e no dia a dia da organização.

Conforme o Artigo 1º da Lei 11.788, de 25 de setembro de 2008: “Estágio é ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos que estejam frequentando o ensino regular em instituições de educação superior [...]” (BRASIL, 2008). De acordo com os Artigos 7 º e 8 º das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Administração, instituídas pela Resolução Nº 4 de 13 de julho de 2005, do Conselho Nacional de Educação, os alunos precisam elaborar Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). É a Instituição de Ensino Superior (IES) que poderá optar entre Estágio Supervisionado e TCC, havendo, ainda, a possibilidade da adoção de ambos.

A experiência vivenciada pelo aluno junto à organização causa impacto sobre seu comportamento porque ele está vendo in loco como as coisas funcionam, os problemas rotineiros e as soluções aplicadas. Diferentemente da teoria que é vista na sala de aula, onde supõe-se que um conjunto de regras, procedimentos e conhecimentos sistematizados podem ser aplicados em qualquer contexto, como soluções prescritivas. Dessa forma, a vivência e a experiência proporcionadas pelo estágio supervisionado aliadas aos conhecimentos teóricos contribuem integralmente para a formação do profissional. E, de modo geral, a contribuição prática é o que justifica a relevância do estágio supervisionado (FESTINALLI et al., 2007). Especificamente, no caso do futuro administrador, que no decorrer do curso se restringe, muitas vezes, somente à teoria ou no máximo a exercícios como o estudo de caso, não possuindo a oportunidade de vivenciar a prática. Esta problemática também pode ser vivenciada em outros cursos, além do caso da Administração.

Diante do exposto o objetivo deste estudo é investigar o processo de orientação de estágio na perspectiva de professores e estudantes em um Curso de Administração de uma universidade catarinense. Para tanto, se buscou atender ao objetivo proposto por meio da aplicação de uma pesquisa que emprega tanto a abordagem quantitativa quanto a qualitativa. O estudo é relevante, visto que procura levantar as principais questões relacionadas ao processo de orientação em dois modelos de estágio supervisionado, tanto do ponto de vista do estudante quando do professor orientador. Dentre as principais questões relacionadas ao processo de estágio destaca-se a clareza dos objetivos, o comprometimento, o conhecimento do professor, a empatia, o acompanhamento do trabalho e a relação entre teoria acadêmica e prática organizacional. Esses pontos foram levantados a partir dos trabalhos de Roesch (1999) e Frey e Frey (2002).

O artigo segue estruturado em mais quatro seções: na segunda seção apresentam-se a revisão bibliográfica sobre estágio supervisionado bem como aborda-se o processo de orientação; na terceira seção, descrevem-se os procedimentos metodológicos; na quarta, destaca-se a apresentação e análise dos resultados e na quinta seção apresentam-se as considerações finais do estudo.

2 Revisao Bibliográfica

2.1 Estágio supervisionado

Conforme Roesch (1999) é comum entre os alunos e profissionais declararem que as aulas das universidades são muito teóricas e que os modelos estudados não se aplicam à realidade. No entanto, o mundo acadêmico e o mundo real convivem paralelamente e, neste sentido, o estágio curricular, tem como um de seus objetivos, proporcionar ao aluno a oportunidade de testar a teoria com a prática e ensinar como se relacionar com colegas, superiores ou clientes e como funciona a organização.

O estágio não é apenas uma proposta que contribui para a formação do administrador, ele pode ser visto como uma forma de abrir caminhos a novas relações no âmbito social e na sustentação da função social da universidade, sendo ponte entre a universidade e a organização. O estágio supervisionado contribui para a aproximação à prática, aproximando o aluno à realidade e na compreensão das relações entre teoria e prática (FÁVERO, 2001; FESTINALLI et al., 2007). Os estágios são considerados uma forma de complementar o ensino e aprendizagem e devem ser planejados, executados, acompanhados e avaliados. Proporcionam ao aluno oportunidade para refletir, sistematizar e testar conhecimentos teóricos (ROESCH, 1999).

No entanto, assegurar sua implementação de modo que garanta a integração entre aprendizagem acadêmica e experiência prática nem sempre é tarefa fácil. A obrigatoriedade e as supervisões geram pressões no estudante e seu orientador. Independentemente de ser obrigatório no curso de administração, o estágio curricular proporciona a possibilidade de aprofundamento dos conhecimentos e habilidades na área de interesse do estudante, podendo contribuir para melhorar práticas na organização pesquisada, apresentando uma contribuição social (ROESCH, 1999).

De acordo com Nascimento e Teodósio (2005) o estágio é um elo entre o universo profissional e o espaço acadêmico e torna-se alvo de várias críticas de atores que vivenciam essa realidade. De um lado, professores orientadores queixam-se da precária formação dos graduandos ao se inserirem em estágios. De outro, supervisores de estagiários nas organizações constatam a inutilidade e desatualização de diversos conteúdos estudados pelos graduandos.

Para alguns estudantes, o ato de estagiar representa a oportunidade de aplicar conhecimentos construídos no espaço acadêmico. Para outros, o estágio apresenta-se como caminho obrigatório para a sobrevivência no curso. E também, há aqueles que enxergam no estágio apenas uma exigência burocrática em direção à sonhada formatura e finalização do curso (NASCIMENTO; TEODÓSIO, 2005).

De acordo com Frey e Frey (2002) o estágio supervisionado contribui para superar dificuldades como a falta de experiência e insegurança dos alunos que estão acostumados às aulas e modelos teóricos, longe das situações reais. No estágio supervisionado o conhecimento se constrói e, o aluno, ao levantar situações problema, avalia e analisa resultados nas organizações, bem como, pode testar modelos e instrumentos que contribuem para a construção do conhecimento, podendo inclusive aplicar a pesquisa para melhorar as práticas da organização.

Assim, destacam-se alguns pontos positivos do estágio supervisionado: oportuniza conciliar teoria e prática; direciona o aluno a um aprofundamento na área de maior interesse; possibilita entrar na realidade do mercado de trabalho; proporciona revisão e aprimoramento dos conteúdos e; aumenta o senso crítico. Uma das principais dificuldades encontradas é o acesso do aluno ao estágio nas organizações, muitos duvidam da contribuição do aluno e receiam disponibilizar informações ou as restringem. Quanto aos pontos negativos destaca-se: pouco tempo para realização do estágio; dificuldade no acesso a informação; aprofundamento de apenas um assunto; problemas na orientação e; falta de encontros periódicos (FREY; FREY, 2002). Além disso, Frey e Frey (2002) salientam que o estágio exige maior preparação e comprometimento do corpo docente.

A decisão de considerar a realização do estágio supervisionado cabe à IES por meio do colegiado do Curso. As etapas e procedimentos resultam no documento denominado Regulamento de Estágio, no qual há a definição das regras que nortearão o processo de estágio supervisionado, sempre na etapa final do curso. Normalmente, a chefia do Departamento do curso designa um docente para a função da Coordenação de Estágio Supervisionado, bem como, os professores que atuarão como orientadores dos estudantes. Ressalta-se que diferentes cursos podem ter diferentes abordagens a respeito do funcionamento do estágio supervisionado, assim como, distintas formas de normatizá-lo (FESTINALLI et al., 2007).

Neste contexto, cabe destacar os estudos realizados por Albuquerque e Silva (2006) e Festinalli et al. (2007). Os resultados encontrados nestes estudos podem indicar desafios e problemas vivenciados ainda atualmente na realidade dos cursos nas IES. Albuquerque e Silva (2006) tiveram como objetivo levantar pontos positivos e negativos do estágio na formação profissional de estudantes de Ciências Contábeis da cidade de Caruaru (PE). O estudo revelou a importância do professor orientador do estágio, o qual transmite absoluta segurança, fazendo com que o aluno alcance o nível de responsabilidade e a confiança necessária para o desempenho de suas atividades profissionais. E ainda, como pontos negativos, foram destacados a falta de informações por parte das empresas, pouco tempo para se dedicar aos estudos e ao estágio e a falta de conhecimento teórico para o desempenho das tarefas. Os pontos positivos destacados foram o fato de poder pôr em prática o conhecimento adquirido na IES e firmar conhecimento no exercício da profissão (experiência).

Festinalli et al. (2007) realizaram uma pesquisa de campo com formandos do curso de Administração de IES da Região Sudoeste do Paraná no qual constataram que o estágio possui relação com as demais disciplinas que compõem o currículo do curso, contemplando o desenvolvimento de raciocínio científico e o uso de métodos e técnicas de pesquisa. Além disso, constataram que é o conjunto de conhecimentos adquiridos nas disciplinas de formação básica, profissional e complementar que permitem obter o conhecimento global da organização, a realização do diagnóstico e o tratamento da situação-problema. Essa confirmação da relação estabelecida entre a teoria e a prática foi o comentário predominante na questão aberta respondida pelos formandos. No entanto, os autores destacam como limitações do estágio a oportunidade para observação e reprodução de modelos, diferença entre teoria e prática e as falhas na atuação da coordenação quanto aos aspectos pedagógicos. Em relação à organização que permite o acesso ao estágio, evidenciou-se a ausência de expectativas em relação ao trabalho e o desinteresse pelos seus resultados.

Ribeiro e Tolfo (2011) salientam que os estágios não têm se caracterizado por ampliar a inserção do estagiário como cidadão na organização, já que as vivências práticas do estágio se limitam a proporcionar ao aluno a aplicação de parte das teorias e conhecimentos adquiridos na IES. Embora o estágio tenha uma função de articulação entre o mundo acadêmico e a prática, há resultados esperados baseados na valorização da atividade prática, não podendo ser desvinculados da formação profissional, como a possibilidade de contratação efetiva na empresa (RIBEIRO; TOLFO, 2011).

Roesch (1999) destaca algumas condições iniciais para o trabalho de estágio curricular: a escolha do tema do trabalho, a organização-alvo e o professor orientador. A escolha do tema exige uma definição, resultado da conjunção entre o interesse do aluno, o interesse da empresa, a competência e o interesse do professor orientador. O tema deverá ser uma escolha preferencialmente do aluno que irá conviver com seu tema por vários meses. Quanto à escolha da organização-alvo o aluno pode enfrentar algumas resistências, entre elas, acesso aos dados, tempo de coleta de dados, se possui uma pessoa responsável pelo aluno na organização, influência dos resultados da pesquisa na organização (dispensas, mudanças, etc.), entre outros. Quanto ao processo de orientação, este contribui para a qualidade do trabalho.

2.2 O processo de orientação

Segundo Roesch (1999), para que a orientação seja eficaz existem certas condições como: o aluno deve possuir ideias claras a respeito do que pretende fazer e demonstrar interesse pelo tema. No mais, cabe ao orientador prover meios como facilitar contatos, indicar bibliografias, sugerir métodos e técnicas e incentivar o trabalho do aluno. De modo geral, o estágio curricular consolida a transição entre o status de estudante e de profissional e, também, que não há uma maneira de desenvolver um projeto de estágio, isto depende em parte do aluno, de sua escolha e empenho.

De acordo com Roesch (1999) o professor orientador deve ter conhecimento na área em que irá prestar orientação e, ainda, ter interesse pelo tema explorado pelo aluno. A empatia entre as partes (orientador-orientando) também contribui para o bom andamento da orientação pois, a orientação é eficaz quando há cooperação entre as partes. Por outro lado, a orientação acaba sendo prejudicada quando há falta de comprometimento por parte do aluno a qual, junto à falta de tempo, pode gerar trabalhos malfeitos que levam ao desinteresse do orientador (ROESCH, 1999).

Para Marques (2002) cabe ao orientador acertar com o orientando prazos, sugerir leituras apropriadas, instruir sobre técnicas de trabalho e também permitir que o orientando tenha liberdade e autonomia para produzir seus próprios saberes. O orientador deve acompanhar os passos do seu orientando, não como alguém que faz o trabalho do aprendiz, mas um leitor que o convoque para o trabalho. Zilbermann (2002) afirma que o orientador tem a aprender com cada um de seus orientandos, o conhecimento e experiência que possui cooperam para a orientação, mas dotado de um ser limitado, o orientador sabe que não esgotou suas possibilidades de investigação, curvando-se à aprendizagem.

No que tange ao envolvimento do aluno no processo de estágio, segundo Roesch (1999), muitos percebem e valorizam o estágio como uma oportunidade de se aprofundar em seu tema de interesse, mesmo para aqueles que já se encontram empregados. Ao aluno, cabe desenvolver interesse, conhecimento, habilidade e esforços para realizar o trabalho.

Saviani (2002), no contexto de pós-graduação, descreve a experiência de orientação coletiva como caminho altamente enriquecedor, interferindo positivamente na qualidade das pesquisas e maximizando o processo de aprendizagem. Entretanto, relata que a experiência é verdadeira quando há, por parte do orientando, um certo grau de autonomia intelectual, neste caso encontrada em doutorandos. A insegurança para tomar iniciativas pode reforçar em alguns estudantes certos bloqueios que acabam prejudicando sua condição de aprendiz. Neste caso, faz-se necessário um atendimento individual em que o orientador procurará compreender as dificuldades de cada aluno, propiciando estímulos necessários ao adequado desenvolvimento de sua formação como pesquisador.

3 Metodologia

Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo exploratório e descritivo. Conforme Sampieri et al. (2006) os estudos descritivos procuram especificar as propriedades, as características e os perfis importantes de pessoas, grupos ou qualquer fenômeno que se submeta a análise. Para Vergara (2013) a investigação exploratória é efetuada em área na qual há pouco conhecimento acumulado e sistematizado e não comporta hipóteses devido a sua natureza.

Para atender ao objetivo proposto, o estudo foi conduzido sob a abordagem quantitativa e qualitativa. De acordo com Creswell (2010) a abordagem qualitativa provê ao pesquisador um conhecimento mais profundo de um fenômeno já a quantitativa permite desenvolver uma explicação mais geral do fenômeno.

A população da pesquisa envolve docentes e discentes do curso de Administração da disciplina de Estágio Supervisionado, totalizando 355 discentes, dos quais 141 são do currículo 2003 e 214 são do currículo 2012. Além disso, conta com 20 docentes que são orientadores na disciplina. Responderam ao questionário 114 discentes do currículo 2003 e 185 do currículo 2012, totalizando uma amostra de discentes de 299. Também responderam ao questionário 20 docentes. Os dados foram coletados por meio de questionário elaborado com perguntas abertas e fechadas adaptadas de Roesch (1999) e Frey e Frey (2002). Os resultados quantitativos serão apresentados por meio de tabelas e os resultados qualitativos por meio de citações dos respondentes e análise de conteúdo, destacando os principais pontos em relação ao estágio supervisionado por meio de categorias de análise com base nos seguintes autores: Roesch (1999) e Frey e Frey (2002). As categorias de análise estão expostas no Quadro 1.

Quadro 1. Categorias de análise

Categorias

Descrição

Autores

Clareza dos objetivos

Ideias claras a respeito do que pretende fazer e demonstrar interesse pelo tema.

Roesch (1999)

Comprometimento

A orientação acaba sendo prejudicada quando há falta de comprometimento por parte do aluno, gerando trabalhos malfeitos que levam ao desinteresse do orientador. Tanto do aluno quanto do professor, agendamento das reuniões, entre outros.

Roesch (1999)

Conhecimento

Conhecimento do docente na área em que irá prestar orientação. Bem como facilitar contatos, indicar bibliografias, sugerir métodos e técnicas e incentivar o trabalho do aluno. Conhecimento e habilidades do aluno para realizar o trabalho.

Roesch (1999)

Empatia

Ter afinidades e se identificar com outra pessoa. A empatia entre as partes (orientador-orientando) pode interferir no bom andamento da orientação.

Roesch (1999)

Acompanhamento do trabalho

Acompanhamento do orientador dos passos do orientando.

Roesch (1999)

Relação teoria e prática

Refere-se a vivência e a experiência práticas aliadas ao conhecimento teórico, oportunizando relacionar teoria e prática contribuindo para a formação do profissional administrador.

Roesch (1999)

Frey e Frey (2002)

Fonte: Elaborado pelos autores (2017).

4 Apresentação e análise dos resultados

Neste tópico serão apresentados os resultados encontrados a partir do questionário que visa responder ao objetivo central do presente estudo, que é investigar o processo de orientação de estágio na perspectiva de professores e estudantes em um Curso de Administração de uma universidade catarinense. Primeiramente, apresenta-se o perfil da amostra da pesquisa e, em seguida, a apresentação e análise das categorias da pesquisa: clareza dos objetivos, comprometimento, conhecimento do professor, empatia, acompanhamento do trabalho e relação teórica e prática.

4.1 Perfil da amostra

A amostra do estudo é composta por respondentes presentes em duas modalidades de estágio. Uma modalidade refere-se ao currículo de 2003, em que o Estágio era monografia individual com orientador e presença de banca: o aluno escolhia o tema e, a partir disso, o orientador. No currículo de 2012 o colegiado do curso de Administração, presidido pelo coordenador, reformulou o estágio, a partir de então, o TCC passou a ser o relatório de estágio, com temas fixos, conforme o semestre letivo e podendo ser realizado em grupo de até três pessoas. Neste caso, na instituição estudada, há TCC com informações geradas através de estágio supervisionado, em suas duas modalidades: monografia e relatório de estágio, estudantes matriculados no currículo 2003 e 2012, respectivamente, conforme explicado no Quadro 2.

Quadro 2. Diferença entre os tipos de trabalho de conclusão
do curso adotados pela universidade

Designação

TCC

Monografia

Relatório

Envolvidos

Todos os estudantes matriculados no Estágio

Estudantes do currículo 2003

Estudantes do currículo 2012

Natureza do trabalho

Gênero

Modalidade

Modalidade

Características

Trabalho acadêmico de caráter obrigatório e instrumento de avaliação final de um curso superior

Trabalho individual, com um único tema, em que se pode estabelecer uma inter-relação com outros temas ou abordar seus diversos aspectos.

Não há exigência de originalidade no problema de pesquisa, mas sim um novo enfoque sobre o assunto.

Descrição objetiva dos fatos observados e das atividades desenvolvidas, seguidas de uma análise crítica e conclusiva, além da indicação das prováveis soluções

Fonte: Dados da pesquisa e ABNT (2011).

Os alunos respondentes foram os matriculados na disciplina de Estágio Supervisionado do ano de 2015. Na Tabela 1apresenta-se o perfil dos alunos e os principais apontamentos relativos ao estágio.

Tabela 1. Perfil dos respondentes

Categorias

Currículo 2003

Currículo 2012

Modalidade

Estudante escolhe livremente o tema e a orientação é individual

Trabalho em equipe com até 3 membros, tema vinculado ao semestre, professor orienta as equipes

Respondentes

114

185

Idade

16 a 20 anos

0,0%

40,0%

21 a 25 anos

83,3%

50,3%

26 a 30 anos

7,9%

7,0%

31 a 35 anos

1,8%

1,6%

36 a 40 anos

2,6%

0,5%

41 anos ou mais

4,4%

0,5%

Trabalho

4 horas

1,8%

5,9%

6 horas

11,4%

19,5%

8 horas

81,6%

67,6%

Não trabalho atualmente

5,3%

7,0%

Equipe

Individual

100%

11,9%

Dupla

0,0%

25,4%

Trio

0,0%

62,7%

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

De acordo com o Quadro 3, pode-se observar que os respondentes, nas duas modalidades, em sua maioria possuem entre 21 e 25 anos e trabalham 8 horas por dia. No currículo 2012 um importante percentual (40%) se encontram na faixa etária de entre 16 e 20 anos, isto devido a ser o atual modelo de estágio implantado pela IES. Já no currículo 2003 os alunos realizavam a monografia no final do curso, entre o 9º e 10º semestre. Outro ponto relevante é que, no currículo 2003, o curso tinha duração de cinco anos, já no currículo 2012, a duração mudou e passou para quatro anos e o relatório de estágio ocorre entre o 5º e 8º semestre, sendo que, a cada semestre, o tema do relatório de estágio muda.

A população da pesquisa envolve docentes e discentes do curso de Administração da disciplina de Estágio Supervisionado, conforme já mencionado no capítulo da metodologia. A Tabela 2 apresenta o percentual da amostra e o nível de confiança alcançado no estudo.

Tabela 2. Percentual de respondentes e nível de confiança da amostra

Currículo 2003

Currículo 2012

Discentes

141

214

Número de respondentes

114

185

% de respondentes

80,9%

86,4%

% do nível de confiança da amostra

96%

97,4%

Docentes

15

10

Número de respondentes

10

10

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Além dos estudantes, participaram do estudo 20 professores que atuavam nas seguintes áreas de orientação: 26,3% financeira / orçamentária, 15,8% materiais / logística, 42,1% marketing, 47,4% planejamento estratégico, 10,5% qualidade, 26,3% recursos humanos, 31,6% vendas / negociação e 21,1% outros.

4.2 O processo de orientação de estágio

O processo de orientação de estágio será apresentado seguindo o critério das categorias de análise definidas na pesquisa e de acordo com a modalidade de estágio. No que tange à clareza dos objetivos ou do tema de interesse para desenvolver a monografia ou relatório de estágio, os resultados estão apresentados na Tabela 3.

Tabela 3. Clareza do tema escolhido para desenvolver o trabalho de estágio

Currículo 2003

Currículo 2012

Como foi escolhida a área de Estágio

Gosto do tema que escolhi

36,8%

6,5%

O professor do tema despertou / firmou meu interesse

7,9%

20,0%

É um tema importante na empresa que trabalho

51,8%

36,8%

O tema é mais fácil

3,5%

3,8%

Outros

0,0%

33,0%

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Conforme apresentado na Tabela 3, observa-se que os estudantes do currículo 2003 escolhem o tema com base na importância que tinha para a empresa a qual ele trabalha (51,8%) e também pelo fato de gostar do tema (36,8%). Já os estudantes do currículo 2012 afirmaram que, primeiro, o tema é importante na empresa em que o estágio é realizado (36,8%) e pelo fato do professor despertar/apresentar o tema para ele (20%).

De acordo com Roesch (1999) o estudante deve possuir ideias claras em relação ao tema que irá trabalhar e também ser de seu interesse, o autor também destaca que o tema deve ser escolha, preferencialmente, do estudante pois irá conviver com seu tema por vários meses e exige uma conjunção entre o interesse do aluno, da empresa e do professor orientador. Entretanto, a proposta do currículo 2012 apresenta temas fixos, os resultados da pesquisa mostram que apenas 6,5% dos estudantes afirmam que gostam do tema do relatório de estágio. Neste caso, Murari e Helal (2009) alertam que a obrigatoriedade e as supervisões geram no estudante e no seu orientador pressões que podem levar a dificuldades como, por exemplo, a falta de comprometimento durante a realização do trabalho.

Tabela 4. Comprometimento dos estudantes

Currículo 2003

Currículo 2012

Onde desenvolve o trabalho de Estágio

Na biblioteca da universidade

19,3%

15,1%

Nas demais dependências da universidade

0,0%

1,6%

Em casa

78,9%

44,3%

Local de trabalho

1,8%

0,0%

Encontros virtuais, como e-mail, mensageiros ou documentos de edição coletiva

0,0%

35,7%

Outros

0,0%

3,2%

Momento em que realiza o trabalho de Estágio

Finais de semana

69,3%

61,6%

Durante as aulas e em seus intervalos

2,6%

6,5%

Durante a semana, ao longo do dia

15,8%

6,5%

Durante a semana, à noite

12,3%

12,4%

Momentos diversos através de encontros virtuais, como e-mail, mensageiros ou documentos de edição coletiva

0,0%

11,9%

Outros

0,0%

1,1%

Horas por semana dedicadas na elaboração do trabalho de Estágio

Até 1 hora

4,4%

17,3%

Entre 2 e 3 horas

46,5%

63,2%

Entre 4 e 5 horas

43,0%

13,0%

6 horas ou mais

6,1%

6,5%

Avaliação do desempenho pessoal

Ótimo

21,9%

20,5%

Bom

65,8%

64,9%

Regular

11,4%

13,5%

Insatisfatório

0,9%

1,1%

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Conforme apresentado na Tabela 4 os estudantes do currículo 2003 estudam em grande parte na biblioteca, nos finais de semana, dedicam entre 2 e 5 horas semanais a elaboração da monografia e consideram seu desempenho entre bom e ótimo. Os estudantes do currículo 2012 estudam basicamente na biblioteca, nos finais de semana, dedicam entre uma e três horas para elaboração do relatório de estágio e consideram seu desempenho entre bom e ótimo.

Destaca-se também o relato dos estudantes do currículo 2012 no tocante ao comprometimento dos professores nas orientações de estágio. O Estudante 1 afirma que: “O professor não está atendendo as necessidades dos alunos. Não corrige os trabalhos no tempo certo e não nos dá retorno”. O estudante 2 acrescenta:

Estudante 2: “O professor não vem preparado para realizar a orientação, lendo o trabalho no momento que deveria ser feito a orientação e tirado dúvidas. Perde-se dessa forma muito tempo, deixado mais curto o tempo para sanar dúvidas e receber a orientação em si. Ao meu ver o professor deveria ler o trabalho anteriormente a orientação para trazer sugestões e dicas”.

Neste caso, Frey e Frey (2002) afirmam que o estágio exige maior preparação e comprometimento do corpo docente. O professor também deve comprometer-se com o trabalho dos estudantes e cumprir com suas tarefas para que o trabalho transcorra da melhor maneira possível. Marques (2002) afirma que cabe ao orientador acertar com o orientando prazos, sugerir leituras apropriadas, instruir de técnicas de trabalho, e também permitir que o orientando tenha liberdade e autonomia para produzir seus próprios saberes. O orientador deve acompanhar os passos do seu orientando. Não como alguém que faça o trabalho do aprendiz, mas um leitor que o convoque para o trabalho.

Já os professores também destacam a falta de comprometimento dos estudantes: “O comprometimento do aluno de modo geral é o maior desafio” (Professor 1); “Eles trabalham e não tem tempo para se dedicar” (Professor 2); “Alunos têm dificuldade em escrever e em organizar-se. Não planejam” (Professor 3). Em relação ao estágio coletivo o professor relata que “Nem todos os estudantes de uma determinada equipe efetivamente participa do desenvolvimento do trabalho” (Professor 3) e “A desvantagem é a falta de comprometimento de alguns acadêmicos” (Professor 5). Quanto a isso, Roesch (1999) afirma que a orientação acaba sendo prejudicada quando há falta de comprometimento por parte do aluno, gerando trabalhos malfeitos que levam ao desinteresse do orientador.

No tocante à orientação coletiva resgata-se as palavras de Saviani (2002) que afirma que a orientação coletiva é um caminho enriquecedor, interferindo positivamente na qualidade do trabalho e maximizando o processo de aprendizagem. Entretanto, também no trabalho coletivo encontram-se dificuldades, como a falta de comprometimento e a participação efetiva no trabalho, conforme mencionado anteriormente pelos docentes. Essa falta de comprometimento e participação acredita-se, conforme exposto por Nascimento e Teodósio (2005), que se deve a alunos cujo ato de estagiar represente um caminho obrigatório para a sobrevivência no curso ou o cumprimento de uma exigência burocrática para finalizar o curso.

No que tange ao conhecimento do professor os estudantes destacam que:

Estudante 7: “Estou sendo orientado pelo professor X, que não é da área do comércio exterior, mas não tinha nenhum outro professor da área disponível para me orientar. O professor X sempre me ajudou no que precisei, sempre faz o que pode, porém terei que entrar em contato com um professor da área do comércio exterior para me auxiliar em alguns pontos do meu estágio”.

Estudante 8: “O que gostaria de sugerir é que os orientadores sejam professores das áreas específicas. Percebo que eu e minha orientadora temos um pouco de dificuldade por isso, acredito que a experiência com os assuntos contribuiria muito o desenvolvimento do trabalho. Para que o orientador possa trazer algumas sugestões objetivas”.

Neste sentido Roesch (2009) ressalta que o professor orientador deve ter conhecimento na área em que irá prestar orientação. No mais, cabe ao orientador prover meios como facilitar contatos, indicar bibliografias, sugerir métodos e técnicas e incentivar o trabalho do aluno.

Mesmo reconhecendo as dificuldades encontradas nas questões de orientações recebidas, os estudantes consideram o desempenho do professor muito bom, conforme apresentado na Tabela 5.

Tabela 5. Avaliação das orientações recebidas

Currículo 2003

Currículo 2012

Avaliação das orientações recebidas

Ótimo

63,2%

30,8%

Bom

28,1%

47,0%

Regular

7,0%

17,8%

Insatisfatório

1,8%

4,3%

Como as orientações poderiam melhorar

Há necessidade de mais encontros de orientação

4,4%

13,5%

Durante a orientação gostaria de receber mais atenção

5,3%

6,5%

O docente deveria ler o trabalho com antecedência

1,8%

0,0%

Poderia haver um espaço físico apropriado para as orientações

4,4%

15,1%

Gostaria de mais dicas práticas, informações sobre como fazer o trabalho

12,3%

23,8%

Estou satisfeito com as orientações

70,2%

32,4%

Outros

1,8%

8,6%

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Na modalidade de estágio individual (currículo 2003) os estudantes mostraram uma maior satisfação em relação as orientações recebidas (63,2% - ótimo) comparado a modalidade de estágio em grupo (currículo 2012) (30,8% - ótimo).

Quanto ao conhecimento dos estudantes, os docentes destacam na modalidade de estágio individual que:

Professor 4: “Não conseguem interpretar o que leram, e por isso, o trabalho fica cheio de citações diretas. - Pouco ou nenhum conhecimento de métodos de pesquisa. - Ficam confusos quanto às normas de formatação do relatório do estágio, já que não estão totalmente pautadas na ABNT. Não sabem procurar no Google por artigos científicos para fazer a revisão da literatura”.

Professor 5: “Escrita, ABNT, interpretação de texto. É necessário que os trabalhos realizados durante o curso sejam desenvolvidos nas normas da ABNT, isso facilita para que o aluno tenha um melhor entendimento no relatório de estágio”.

Na modalidade de orientação coletiva os docentes destacam:

Professor 7: “Do ponto de vista do orientando o estágio em equipe é interessante por proporcionar a experiência prática tanto de aplicação dos conceitos/conhecimentos adquiridos em sala, como do trabalho em equipe, muito comum nas organizações. Do ponto de vista do orientador, a orientação por equipes facilita sob a ótica de correção de trabalhos, pois o volume diminui”.

Tanto no caso da orientação individual quanto na coletiva, novamente, recorre-se a Roesch (1999) ao afirmar que cabe ao aluno desenvolver o interesse, conhecimento, habilidades e esforços para realizar o trabalho de estágio.

A empatia é uma categoria a ser observada no desenvolvimento da orientação de estágio. Os relatos foram de estudantes do estágio na modalidade individual. Não se constatou relatos de empatia nos estudantes do estágio na modalidade coletiva.

Estudante 98: “Minha orientadora é excelente, prestou todo atendimento necessário muito bem! Sempre preocupada e perguntando como ia o trabalho. Uma professora, muito inteligente, prestativa, e com conhecimento atualizado na área dela e na área de meu estágio”.

Estudante 15: “Meu orientador está sendo ótimo em todos os sentidos, e eu estou realmente gostando de fazer o estágio. Estou conseguindo realizar mudanças na empresa onde trabalho, mudanças estas que estão sendo estudadas em meu estágio”.

De acordo com Roesch (1999) a empatia entre as partes (orientador-orientando) também contribui para o bom andamento da orientação. Neste caso, a orientação é eficaz quando há cooperação entre as partes.

No que tange ao acompanhamento do trabalho os professores realizam a orientações de estágio em 52,6% no Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA), 10,5% na biblioteca da universidade, 26,3% nas demais dependências (salas de aula, outras salas, cantina, etc.), 10.5% de outras formas e nenhum realiza encontros virtuais (e-mail, web messengers ou documentos de edição coletiva).

Ainda no tocante ao acompanhamento, os estudantes afirmam que: “Acredito que as informações deveriam ser passadas de forma mais sucinta e objetiva. O professor, na maior parte das vezes, acaba confundindo o aluno por não escrever exatamente o que quer” (Estudante 33). “O professor é muito atencioso com os alunos, porém ele se limita só a tirar as nossas dúvidas” (Estudante 150). Neste ponto, Roesch (1999) afirma que o orientador deve acompanhar os passos do seu orientando. Não como alguém que faça o trabalho do aprendiz, mas um leitor que o convoque para o trabalho. Entretanto, no relato dos estudantes fica evidente a espera por algo a mais por parte do professor. Mas neste caso, parece que a grande questão é que o estudante não deixa claro o que espera do professor, não questiona e não esclarece as dúvidas que possui com ele deixando margens para eventuais equívocos.

A última categoria trata da relação teoria e prática no trabalho de estágio. O estudante 24 afirma que com o estágio consegue relacionar teoria e prática, conforme relatado: “Realmente remete a prática do estudado, é muito gratificante saber que posso planejar o futuro de uma organização”, confirmando o exposto de Nascimento e Teodósio (2005), que afirmam que, para alguns estudantes, o ato de estagiar representa a oportunidade de aplicar conhecimentos construídos no espaço acadêmico.

Todavia, como constatado incialmente, o trabalho de orientação tanto dos estudantes do estágio individual quanto coletivo ocorre em grande parte em casa, na biblioteca da universidade e nos finais de semana, o que leva a refletir se os objetivos do estágio estão realmente sendo alcançados, resultado que reforça o exposto por Ribeiro e Tolfo (2011) que afirmam que os estágios não têm se caracterizado por ampliar a inserção do estagiário como cidadão na organização.

Como afirmam Frey e Frey (2002), o estágio supervisionado contribui para superar as dificuldades apontadas como a falta de experiência e insegurança dos alunos que estão acostumados a aulas teóricas e modelos teóricos, longe das situações reais. Neste caso, como pode o estudante superar as dificuldades e aprofundamento na área de interesse se o trabalho é realizado em grande parte em sua casa, nos finais de semana.

No que concerne à relação entre teoria e prática no estágio, o professor sugere que “Em minha concepção o estágio deveria levar o aluno a construir uma visão sobre as empresas, e relatar suas experiências e perspectivas quanto ao diagnóstico de problemas, análise de dados e suas soluções propositivas. Sem o compromisso de sua efetiva implantação” (Professor 10). Segundo este professor, o estudante deve tomar uma postura mais ativa no processo, analisar os cenários, mas não se comprometer efetivamente com os resultados de sua proposta. Ora, se a proposta do estágio, segundo Rego e Silva (2013), é direcionada à consolidação do desempenho profissional desejado devendo oportunizar a interface entre teoria e prática, a partir de uma experiência acadêmica, social e profissional, como o estudante pode vivenciar isto sem haver comprometimento efetivo nos resultados de seu trabalho? Sendo assim, a aplicação de um estudo de caso bastaria para atender aos objetivos do estágio. Não haveria necessidade, então, de o estudante conhecer uma organização.

Já em relação ao estágio na modalidade coletiva o professor relata que:

Professor 18: “Do ponto de vista do orientando o estágio em equipe é interessante por proporcionar a experiência prática tanto de aplicação dos conceitos/conhecimentos adquiridos em sala, como do trabalho em equipe, muito comum nas organizações. Do ponto de vista do orientador, a orientação por equipes facilita sob a ótica de correção de trabalhos, pois o volume diminui”.

O relato do Professor 18 é condizente com o exposto por Fávero (2001) e Festinalli et al. (2007), que afirmam que o estágio contribui para a aproximação à prática, aproximando o aluno da realidade e da compreensão das relações entre teoria e prática. Além disso, a orientação coletiva facilita o trabalho do orientador e proporciona o compartilhamento de ideias e conhecimento entre a equipe de estudantes, já os inserindo no contexto vivenciado nas organizações, de trabalho em equipe.

5 Considerações Finais

Este estudo teve como objetivo investigar o processo de orientação de estágio na perspectiva de professores e estudantes em um Curso de Administração de uma universidade catarinense. Os resultados foram encontrados por meio de uma pesquisa mista cuja amostra foi composta por 299 estudantes dos 344 matriculados, além dos 20 docentes que orientam os TCCs, sua totalidade. Isso propiciou um alto nível de confiança, acima de 96%, garantindo credibilidade ao estudo, ao passo que representa a opinião da maior parte dos envolvidos.

O fato de haver dois tipos distintos de trabalhos, monografia e relatório de estágio, proporcionou uma visão comparativa abrangente e relevante a respeito desse importante processo educacional. Especificamente sobre as diferenças entre métodos, os estudantes que receberam orientações individuais, portanto, matriculados no currículo 2003, apresentaram maior afinidade com o tema desenvolvido no trabalho de estágio, informaram dedicar maior quantidade de horas ao trabalho e se sentem mais satisfeitos com as orientações, com 91,3% das avaliações entre bom e ótimo. O nível de satisfação entre os estudantes que receberam orientações por equipe, matriculados no currículo 2012, chegou ao nível de 77,8% entre bom e ótimo.

Estudantes de ambas modalidades, individual e em equipe, declararam pontos de melhoria em cinco aspectos: (1) mais atenção do professor orientador, tanto nos encontros pessoais quanto na leitura prévia dos materiais, (2) oferecimento de formas alternativas de orientação em relação às reuniões pessoais, como encontros virtuais através de aplicativos e softwares como o Skype®, (3) indicação de como os estudantes podem se organizar em relação a prazos e procedimentos, pois os discentes declaram ter dificuldades em relação a isso, (4) definição de critérios para avaliações mais justos e claros e (5) maior nível de exigência por parte dos professores.

Os estudantes que atuam na modalidade individual apresentam maior afinidade com o tema desenvolvido no trabalho de estágio, além de dedicar maior quantidade de horas ao trabalho. No entanto, estudantes de ambas modalidades, individual e coletiva, consideram o seu desempenho e o desempenho da orientação de estágio entre bom e ótimo.

Na pesquisa foi constatado que os estudantes, de ambas modalidades, realizam o trabalho de estágio, em grande parte, em casa e nos finais de semana, fato este que necessita de maior investigação visto que, a priori, leva a pensar se o objetivo do estágio realmente está sendo alcançando, que é aproximar o estudante da prática na organização e aplicar os conhecimentos adquiridos na academia.

No que tange ao acompanhamento e conhecimento do professor, os estudantes ressaltaram que o mesmo necessita de ajustes, visto que alguns professores se limitam a tirar as dúvidas e não leem antecipadamente a data da orientação o trabalho dos alunos. A orientação de professores fora de sua área de conhecimento também foi um ponto destacado pelos estudantes, dificultando a realização do trabalho. Por outro lado, os professores afirmaram que as principais dificuldades dos alunos são quanto a interpretação de leitura, pouco conhecimento das normas da ABNT e dificuldade para fazer a revisão da literatura. Dificuldades que prejudicam o andamento do trabalho e da orientação.

Outro aspecto evidenciado nas respostas se refere necessidade aos docentes compartilharem mais dicas práticas, informações sobre como fazer o trabalho. Isso decorre, possivelmente, do perfil dos estudantes que, na maioria, trabalham durante o dia e estudam à noite, havendo pouco tempo para estudar durante a semana em horário diurno.

Com base no presente estudo pode-se concluir que o estágio e o processo de orientação merecem especial atenção dos Centros de Curso e Coordenações visto as dificuldades e desafios encontrados na relação orientando e orientador e também no trabalho em si como o comprometimento, conhecimento, empatia e interesse do estudante pelo tema. Também identifica-se a relevância que o estágio possui em relacionar o conhecimento adquirido na academia com a prática da organização.

Como sugestão para futuras pesquisas destaca-se ampliar o estudo em outras instituições de modo a verificar se, em outros contextos, os problemas encontrados neste estudo são os mesmos ou se diferem.

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Revista Brasileira de Ensino Superior, Passo Fundo, vol. 3, n. 1, p. 56-77, Jan.-Mar. 2017 - ISSN 2447-3944

[Recebimento: Abr. 16, 2017; Aprovado: Jul. 31, 2017]

DOI: http://dx.doi.org/10.18256/2447-3944/rebes.v7n1p56-77

Endereço correspondente:

Sheila Patrícia Ramos Beckhauser

Departamento de Administração - Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA)

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e-ISSN: 2447-3944

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